sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Mundo em crise – estamos indo em direção ao precipício?

O sistema internacional nunca possuiu tantos mecanismos de se evitar um conflito em escala mundial. Seja através do comércio internacional, do direito internacional ou dos acordos entre os Estados, não houve nenhum outro momento na história com tantos arranjos e tentativas de conciliação ou aproximação entre os Estados.

Isto, de certa forma, alivia a pressão de um grande conflito entre as grandes potências ou guerras maiores que possam vir a influenciar todo o sistema, acarretando em um conflito de proporções mundiais.

No entanto, analisando o contexto do momento, parece que alguém resolveu reacender o pavio de uma grande bomba que pode pôr todos esses acordos e arranjos pelos ares. A começar pelo fato de que se tornou comum confrontar a hegemonia, ou o domínio de poder, americano. Seja através da economia, como veio fazendo a China ao longo dos últimos anos, ou militar, como fez a Rússia impedindo os americanos de entrar na Síria, ou ideologicamente, como faz o Estado Islâmico propagando o ódio contra o Ocidente e querendo implantar um novo Estado em pleno Oriente Médio; os EUA já não apresentam o mesmo poder estratégico que possuíam antes do 11 de setembro de 2001.

Além de tudo isso, temos uma economia européia em recuperação, um conflito militar ocorrendo em território ucraniano, um dos vírus mais mortais existente atualmente se disseminando pela África – o Ebola –, o conflito entre Israel e Palestinos (se repetindo), uma guerra civil com mais de 200 mil civis mortos na Síria, uma crise de Estado no Iraque e, o pior pesadelo do Ocidente, um novo grupo terrorista que mais parece uma Empresa Terrorista, causando terror e atrocidades por onde passa na Síria e no Iraque.

Tudo isto seriam eventos normais não fosse por um pequeno detalhe, todos eles possuem, de alguma maneira, o envolvimento dos maiores “players” do cenário internacional. O conflito na Ucrânia possui envolvimentos claros e cada vez mais evidentes da relação direta da Rússia com os rebeldes. Acontece que a região é uma importante transportadora de petróleo para a Europa. O fornecimento dele é russo, mas os mais importantes oleodutos passam por território ucraniano. Novamente, isto não deveria ser um grande problema, já que a Rússia, mesmo se fosse o caso de tomar o território ucraniano, poderia continuar fornecendo petróleo para a Europa. O problema aqui é que ultrapassa o significado econômico e passa a entrar na questão do direito internacional de soberania.

Desde que Putin assumiu o comando do país russo, ele tem demonstrado interesses expansionista na região, seja ele em forma de ampliar os acordos comerciais formando um bloco russo-asiático, ou invadindo outros Estados, como a Geórgia e a Criméia, e ampliando a sua influência e território. Tudo isso, eleva o temor dos Estados europeus de que eles sejam os próximos alvos, perpassando os interesses econômicos e se tornando um interesse territorial. Esta história tem levado a incansáveis brigas retóricas que tem deixado a situação na região cada vez mais instáveis.

Na África, o inimigo é outro, invisível a olho nu e não possui fronteiras, é o Ebola. Ele já matou mais de 2 mil pessoas e a OMS já o classificou como um problema de risco mundial. Não bastando isso, novas estatísticas demonstram que podem haver entre 20-30 mil pessoas infectadas e o risco de se espalhar por outros países é grande. O pior de tudo foi no início deste mês, homens armados invadiram uma enfermaria onde havia pacientes com Ebola, fizeram escapar, aproximadamente, 20 deles que estavam em quarentena e roubaram roupas de cama de pacientes infectados. Até agora não se sabe o destino final destes pacientes nem das roupas de cama que usavam.

No Oriente Médio, o caos está generalizado. São os Estados que tentam se recuperar de uma “Primavera Árabe” que se tornou um “Inverno Árabe”, é o conflito interminável entre palestinos e israelenses, uma guerra civil na Síria, a instabilidade no Iraque e, por fim, a mais nova ameaça ao Ocidente – o Estado Islâmico.

Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo tem acabado com as noites de sono do Presidente americano, o senhor temporário da maior potência militar e econômica do planeta. O Presidente Barack Obama perdeu as suas férias para cuidar de assuntos que vão desde a segurança nacional até internacional e, ainda assim, não tem sido suficiente para trazer solução para os conflitos que ocorrem no mundo.

A instabilidade do momento é reflexo da queda de poder americana, que não consegue mais administrar o mundo tentando estar presente em cada conflito ou problema que ocorre. E o mais perigoso disso tudo é que tudo isto acontece em um momento em que, ao mesmo tempo que o sistema internacional cobra uma posição enérgica dos Estados Unidos perante o que ocorre, cobra também explicações dos motivos pelos quais os americanos vigiavam o mundo inteiro e utilizavam estas informações a seu favor.

Por mais que os arranjos e acordos internacionais permitam que o mundo goze de uma certa “estabilidade” de um conflito mundial, eles parecem não ser mais suficientes para impedir que, pouco a pouco, apareçam elementos que desafiem esta lógica de acordos entre os Estados. Pouco a pouco, a economia globalizada, como é o caso do petróleo passando pela Ucrânia para chegar à Europa, se torna insuficiente para segurar conflitos regionais.

Diante deste cenário estranho a pergunta que se faz é: estamos a beira do precipício?

Um dos motivos que foram precursores para a Segunda Guerra Mundial foi o argumento de Hitler ao invadir a Polônia dizendo que estava salvando os seus compatriotas – argumento nada diferente do usado por Putin ao invadir a Criméia e agora o Leste da Ucrânia. Para início da Primeira Guerra, além de todos os problemas que ocorriam naquele momento entre os Estado, apenas a morte do arque-duque Ferdinando foi suficiente para deflagrar em um grande conflito. Quando a primeira guerra terminou, ocorreu uma das maiores epidemias do planeta, a gripe espanhola. Ela já existia, mas em sua forma latente. Com os conflitos, a transação de muitos militares por outros territórios e a insalubridade decorrente da guerra, a doença se tornou mais fácil de se propagar em território europeu. E um cenário de guerra agora seria a porta de entrada para uma grande propagação do Ebola.

Ainda temos elementos dos quais não citei, como Edward Snowden, Julian Assange, Coreia do Norte, conflito entre Japão e China (sul do mar do Japão) e por ai vai...

A questão grand-finale que ficará para o tempo responder é: será o sistema internacional suficiente para dar conta de todos estes problemas e se sustentar sem um enfrentamento direto entre as potências? Nossos acordos multilaterais, diretos e bilaterais serão suficientes para segurar a vontade de guerrear? Conseguiremos passar por mais esta “Guerra Fria” sem que o mundo se acabe em ogivas nucleares?

Somente o futuro nos responderá. E espero estar vivo para contar como passamos sufoco neste momento e que tudo não passou de um susto e mal entendido.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A questão da natureza humana e o conflito entre Israel e Palestina



É muito comum ouvirmos alguém perguntar o porquê de tanta maldade no mundo. Porém, iniciarei este artigo com uma retórica diferente. Por que existem tantas pessoas que fazem o bem neste mundo? O que leva tantos muçulmanos diante de um mundo no qual acredita que em sua maioria eles são extremistas (o que não é verdade) a realizar obras de caridade e ajudar o próximo? Como pode uma pessoa ajudar outro ser estando em um território em que acontece a guerra, fome e morte? Como podem tantos judeus ou maçons, que são tidos por muitos como o mal do mundo e a hegemonia do poder bancário e financeiro, doarem milhões de dólares todos os anos para a caridade? Mais ainda, como pode você, diante de um mundo em que as notícias mostram pais matando filhos, irmãos e amigos se traindo, brigas de transito levando a mortes, bandidos assaltando a todo o momento e, ainda assim, querer se tornar alguém melhor ajudando o próximo e a si mesmo?

A questão da natureza humana é bastante profunda. Em se tratando deste assunto você verá opiniões bastante embasadas e diferentes uma das outras. Eu vou apresentar a minha opinião e percepção sobre ela dialogando com o pouco que tenho aprendido nos últimos anos de estudos pessoais e faculdade.

A natureza humana sempre foi alvo da análise de grandes pensadores. Isso pode ser observado desde Sócrates e Platão até os homens da ciência nos dias atuais debatendo sobre ela através das influências biológicas e cosmológicas. E neste ponto de embate, há sempre os que são extremamente idealistas, ao ponto de acreditar que ela é muito boa e também, extremamente “realista”, ao ponto de acharem que ela é completamente má. Neste quesito, discordo de ambas as opiniões e fico com as ciências biológicas, na qual realçam a natureza animal do ser humano e seus instintos (não sendo eles bons ou ruins); ainda assim, esta ciência não é suficiente para explicar em profundidade a essência humana de existir e, principalmente, querer fazer o bem.

Nos conflitos internacionais, é rotineira a análise do contexto que envolve o tradicional problema. Neste caso, há milhares de especialistas em tudo o que se possa imaginar, trazendo a tona toda a causa e efeito do que se passa. Porém, mesmo que o contexto seja levado em consideração, dificilmente a abordagem sobre a natureza humana será levantada em um debate. Tudo isto ocorre porque ao se analisar um contexto amplo, como, por exemplo, o conflito Palestina x Israel, será considerado todo o interesse econômico, financeiro, armamentício, militar, histórico, geográfico e geopolítico por trás do conflito e não o que está por trás destes motivos. E embora muitas dessas análises sejam todas muito bem fundamentadas, elas costumam se garantir somente em suas análises e informações ignorando o outro lado. Tudo isso leva a um grande conflito de ideias no qual a disputa principal se torna a de “quem está correto” e o debate, por fim, acaba se tornando aquele no qual o mais dramático ou o mais fundamentado argumentativamente (naquele momento), ganha.

Passado este parágrafo de reflexão, o que diriam os grandes contribuidores do pensamento político do mundo? Bom, a maioria deles abordou, mesmo que de forma singela – ou não – a questão da natureza humana. E assim fez Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Thomas Hobbes, John Locke, Rousseau, Maquiavel, Kant e outros. Todos eles, de sua maneira, abordaram a questão da natureza humana e com isso desenvolveram suas teorias sobre a Política, o Homem, a disputa de poder e o mundo. Um exemplo rápido disso é que a compreensão do pensamento dos autores realistas em Relações Internacionais, a qual é acompanhada pela crença na disputa de poder entre os Estados, da maldade na natureza humana e da vida antes do Estado (estado de natureza), vinda do autor Thomas Hobbes. Assim como para o materialismo e capitalismo, John Locke foi um grande produtor de teorias que justificassem a atitudes do sistema tendo em vista a criação divina do homem e sua posterior “rebelião”.

Seja qual for a teoria, percebe-se que antes que chegássemos a toda esta complexidade que existe hoje de teorias tentando justificar, compreender e culpar os acontecimentos no mundo, o homem foi objeto de análise em algum momento, mesmo que tenha sido no princípio destas.

Precisei falar um pouco dessas questões para abordar o que penso sobre o tema. Acredito que na formação dessas teorias sobre o homem não havia a ajuda de um setor que hoje está muito mais avançado – o científico. Ainda assim, mesmo com este avanço científico e que pode identificar a origem da natureza humana, ele não é suficiente para identificar a essência humana ou a razão do viver, o que simplesmente dá o fôlego de vida, responde as questões mais transcendentais e faz com que o ser humano faça o bem e queira o progresso. E isto está, justamente, relacionado ao espírito humano e não as respostas científicas (embora os mais materialistas vão encontrar respostas para tal, utilizando-se da genética, psicologia ou outras fontes).

O ser humano possui uma natureza animal devido a sua evolução biológica ao longo dos milhões de anos de adaptação. Mesmo assim, somos a única espécie no planeta dotada de razão, poder de escolha e capacidade de adaptar os meios para nós, ao invés de somente nos adaptarmos ao meio – como os animais. Esta capacidade do ser humano o torna único na face da terra, levando-nos até a civilização em que temos em nossos dias atuais. No entanto, embora tenhamos a capacidade de refletir sobre o que fazemos e tomarmos escolhas sobre nossas atitudes, é a natureza animal que continua prevalecendo em nós ao invés da espiritual.

O avanço científico nos permitiu e permite vislumbrar tudo o que podemos construir e o que queremos ser, mas, ao mesmo tempo, não permite uma revolução interna no ser humano. Quando um conflito é analisado tal como o de Israel e Palestina, muitos culpados são procurados, desde o Hamas até Israel. Com isso, alguns aproveitam o momento para culpar o capitalismo, assim como o sistema financeiro internacional, os americanos, a ONU, os judeus, o Hamas, etc. Em todo este contexto, é analisada a realidade histórica da região, o crescimento demográfico, o desenvolvimento econômico e até mesmo as religiões ali presentes, no entanto, fica esquecido completamente quem é o responsável por construir tudo isto, desde o sistema econômico até a realidade histórica – o próprio ser humano.

Neste sentido, aparecem cada vez mais culpados e tudo se acumula. Primeiro, porque nem todo o conhecimento do mundo pode ser absorvido. Isto significa que, nem tudo o que um analista estudou será o que o outro analista estudou; afinal, eles não vivem juntos em uma mesma mentalidade e pesquisa. Por fim, a briga entre dois analistas torna-se uma disputa de quem convence melhor e de quem argumenta mais, mas não o de encontrar uma solução efetiva para o caso. E assim, a realidade daquele que é responsável por aquilo – todos nós –, é cada vez mais deixada de lado.

O ser humano, na tentativa de compreender a sua real natureza, conseguiu fazê-la através das Ciências, porém não soube o que fazer com essas informações que vem descobrindo. Ele conseguiu entender as nuances da sua formação material e, inclusive, entender algumas de suas emoções, como o faz a psicologia. Construiu diferentes áreas do saber, tornou complexa a relação entre os seres, expandiu a tecnologia, mas, muitas vezes se esquece dele mesmo – da sua própria capacidade de transformação e adaptação perante a realidade.

Com isso eu retorno a pergunta que fiz no início deste texto: como pode alguém fazer o bem no meio de toda esta confusão? Como podem existir tantas pessoas boas no mundo? (elas são maioria, por mais que não ache) O que leva um ser humano a realizar um bem no meio a tanto mal? E nisto entramos na questão do bem e mal e da espiritualidade humana.

Não se tratando aqui de qualquer religião que seja, mas levando-se em consideração todas elas, somente o investimento no espírito humano – seu caráter, sua moral e sua identidade – pode mudar a realidade de Israel, Palestina e qualquer outro conflito no mundo. Por mais que medidas importantes como a criação do Estado da Palestina, a retirada dos embargos por Israel, a retirada de todo armamento do Hamas da região da Faixa de Gaza e, utopicamente, até mesmo uma união entre os povos palestinos e israelenses, ainda assim, não seria o suficiente para trazer uma completa paz.

Por exemplo, você saberia me dizer como se encontra a situação da Alemanha recentemente? Bem, não é? Agora, pode se lembrar do que ela fez há, aproximadamente, 70 anos atrás com os judeus, ciganos, maçons, negros, etc? E qual o motivo de ainda existirem neonazistas no mundo? Será que o que ela fez não foi suficiente para mostrar o mundo o mal que o nazismo fez e é? Será que o que Hitler fez não foi trágico o suficiente para revelar ao mundo o mal que podemos fazer odiando o próximo? Pois então. Todas essas perguntas foram utilizadas para mostrar que uma resolução no campo material não resolve uma questão no campo interior do ser humano – no aspecto da moral, do caráter e da evolução espiritual. A Alemanha é hoje um país exemplar para o mundo, a começar pelo comportamento dos jogadores alemães na Copa do Mundo. Ela alcançou um avanço e autonomia que poucos países europeus possuem, e mesmo assim, muitos neonazistas buscam na história trágica dela – nazismo – a resposta para os problemas da humanidade.

Assim, o ser humano segue buscando, cada vez mais, culpados para o que ocorre aqui ou ali. Não estou dizendo para deixar de buscar os culpados, informações, contextos ou motivos, mas que simplesmente reflita sobre onde está a culpa, de fato.

E quando me refiro a espiritualidade, não falo sobre a busca de uma religião em si, tenho um amigo que é ateu e é uma das pessoas mais espirituais que conheço. A forma como ele trata os seres humanos, com amor, carinho e compaixão, faz dele muito mais espiritual do que qualquer judeu (ganancioso), muçulmano (radical) ou evangélico (hipócrita). Eu mesmo posso me revelar como cheio de falhas e imperfeições na qual minha natureza prevalece em muitas situações e este meu amigo se revela muito mais espiritual que eu – mesmo eu acreditando em Deus e ele não. Não são poucos os momentos em que tomo uma atitude e percebo que não era somente a minha vontade, mas o desejo de satisfação dos meus instintos que estavam por trás de alguma das minhas atitudes.

Assim como eu, a humanidade continua ainda com seus instintos básicos do reino animal quando toma muitas de suas atitudes, e é exatamente a luta contra esta natureza que fazem tantas pessoas realizarem o bem. A natureza animal é totalmente instintiva. Em nosso processo de evolução, o importante era garantir a nossa sobrevivência, a sobrevivência do grupo e a transmissão dos genes. Para isto, características como a força, o vigor, o poder, a destruição, a rapidez, a destreza e a sagacidade, eram atributos muito mais importantes para manter-se vivo, ser o líder do grupo, defender o grupo e matar as ameaças do que a compreensão, o entendimento, o acordo ou a diplomacia.

Neste processo de evolução humana, fazer o bem nada mais era do que uma necessidade de salvar o grupo ou um instinto materno/paterno com relação a prole. Junto com esta raça humana, o que interessava era a sobrevivência da espécie e sua reprodução, passando por tudo e por todos que fossem necessários. Ainda assim, ao longo da evolução humana, encontraremos pessoas como Sócrates, que deram a vida para divulgar a verdade. Buda, que abandonou a riqueza para viver com os pobres e atingir o nirvana. Jesus Cristo, que na sua humildade, ensinou um novo modo de se viver ao ser humano, quebrando a antiga lei judaica de “olho por olho e dente por dente”. Mahatma Gandhi, que venceu o poder da Inglaterra com humildade e sem pegar em armas. E você, que, vez ou outra, se pega dando uma moeda ou ajudando um desconhecido. Eu lhe pergunto, que tem isso a ver com a natureza humana?

A natureza humana se fez necessária para nos mantermos como espécie e chegarmos até o patamar de evolução que atingimos recentemente. Mas, esta mesma natureza, pode ser responsável pela nossa extinção nos próximos anos. O que todos esses Mestres, acreditando você em religião ou não, vieram nos ensinar foi que nós não necessitamos nos curvar a nossa natureza para VIVER. O próprio Maomé pregou contra a natureza da população árabe de seu tempo em adorar muitos deuses. Por mais que seja difícil demais, e eu reconheço essa dificuldade, somente superando a natureza do ser humano é que podemos nos tornar um mundo melhor. Com ela veio o nosso egoísmo (capacidade de manter o alimento para sobrevivermos), a inveja (capacidade de construir condições melhores para nós), o orgulho (capacidade de acreditarmos em nós mesmo e assim nos mantermos vivos e seguir em frente) e muitos outros atributos que fizeram nos chegar até aqui e que nos serviram muito bem em nossa evolução, mas que, neste momento estão nos destruindo.

Quando você para e analisa um conflito como o de Israel e Palestina, encontra muitos elementos ali presentes. Dentre eles encontrará uma explicação religiosa, que lhe mostrará desde a Bíblia, em Genesis, no qual alguns teólogos definem como o começo da divisão entre árabes e judeus. E para os que não sabem, esta é a mesma história que encontra-se na Torah (livro dos judeus) e, acredito eu, deve haver algum elemento neste sentido no Alcorão.

Além desta análise religiosa, você encontrará também uma análise geopolítica e econômica. Neste tipo de análise, as pessoas irão se concentrar na questão de que o Estado de Israel foi criado com o intuito de manter o domínio Ocidental – e ai você encontrará de tudo –, na região do Oriente Médio. Aqui você encontrará, inclusive, Teorias da Conspiração de que o Estado de Israel foi criado em conluio com o governo inglês e de que tudo era uma intenção de privilegiar o controle dos ocidentais as jazidas de petróleo e, também, impedir a expansão do antigo Bloco Soviético.

Além destas duas, há também uma análise mais sociológica e histórica. O mais influente dela é o autor Edward Said, que fundamentará os seus conhecimentos na ideia de que a questão oriental vem sendo uma construção europeia desde os tempos remotos a Idade Média. Além disso, nesta teoria é destrinchada também a concepção de que a expansão do Estado de Israel, somado aos constantes desentendimentos entre os vizinhos e ao apoio dos grandes países ocidentais, torna Israel um Estado muito superior em todos os sentidos ao que seria o Estado Palestino. Com isso, justifica o crescimento dos movimentos radicais e a forma como eles combatem o Estado de Israel. Aqui também é considerado a forma como Israel trata a Faixa de Gaza de sua forma histórica. Eles consideram que o tratamento dado por Israel ao local é desumano e que justificaria também o levante dos movimentos fundamentalistas como o Hamas.

Existem também outras teorias que abordam esta questão, mas por mais que eu tenha sido superficial e somente tenha demonstrado uma pequena parte delas a vocês, nenhuma delas considera a questão que abordei acima.

Sendo a natureza humana algo intrínseco a todos nós, todas essas questões englobam dentro deste tema. É natural dos povos árabes e judeus – assim como de qualquer povo – defenderem o que são seus, justamente por isto fazer parte de nossa natureza. No entanto, esta natureza que tanto nos ajudou, hoje prejudica que os palestinos, israelenses e o mundo possa admitir que a terra estava ali antes deles mesmos nascerem ou seus povos terem surgido. O orgulho que os ajudou a manter a religião e os seus alicerces espirituais ao longo dos séculos, e que também fazem muitos judeus, cristãos e muçulmanos realizarem a caridade pelo mundo, é o mesmo que hoje os impede de admitir que o que a religião deles os revelou no passado, valeu para aquele momento e hoje o mundo mudou em muitos sentidos. O egoísmo que fez aquela terra ser parte de árabes e judeus até os dias de hoje, também não os permite compartilha-la por igual entre si, pois cada um de seu “Deus” a conclamou para si. Por fim, a inveja prevalece entre os dois povos, no qual nenhum dos dois aceita que o outro tenha parte da terra.

Portanto, para finalizar, você verá muitas análises diferentes sobre o que acontece naquela região. Mas somente a capacidade de mudança interior dos homens poderá alterar, de fato, o que ocorre ali. Os judeus e palestinos, com essas três características anteriores, jamais sairão de lá. E se um deles for expulso ou perderem terreno para o outro, eles voltarão em um futuro para retomar a terra, ocorrendo um ciclo eterno de disputas e conflitos. Somente a aceitabilidade de que possuímos uma natureza espiritual em comum, de que possuímos os mesmos direitos e que somente a união, fraternidade e amor podem evoluir o homem, é que eles conseguirão mudar a face daquela região. E tenha certeza, o dia que eles conseguirem isso, todos nós conseguiremos.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Quando todos estão errados, mas só um lado gera comoção


(Israel, Palestina, Faixa de Gaza, Conflitos)

Imagine que você seja alguém muito rico e que more em um país X. Comprou uma linda casa em frente a praia e construiu uma grande fortaleza, afinal, sua família é bastante visada e ameaçada fora dali. Sua casa é linda e de causar inveja a muitos que passam por ali, só que tem um problema, você não pensou antes de construir o seu império em um lugar pouco policiado e rodeado por uma sociedade mais pobre e com muitos problemas sociais.

Com o entra e sai da sua casa, você acaba se tornando visado também pela população local, que começa a sentir raiva por você ter uma vida melhor do que a deles. Assim, você e sua família começam a ser ameaçados e alguém lhe envia um recado de que é melhor vocês saírem dali porque aquela terra os pertence e você está incomodando a população local. Primeiramente você informa aquilo às autoridades competentes, mas eles nada fazem, já que a localidade é distante e fora da jurisdição deles. Eles não podem simplesmente colocar ali uma patrulha pois faltam verbas ao Estado para gerir aquela localidade e por mais que você apele, eles não vão lhe ajudar. O problema é que, assim como a população local, você é alguém que se apegou muito ao local e não quer abandoná-lo, sente como se ali fosse parte de sua vida e tudo o que queria era viver em paz.

Para tanto, você, como tem muito dinheiro, resolve colocar cercas elétricas, câmeras de segurança e seguranças armados – a legislação deste país fictício permite isso. Como a jurisdição local é fraca e você também se acha dono do mundo, resolve expandir a área de sua casa também para a areia da praia e utiliza o argumento de que também deseja utilizar a praia mas não pode mais fazer isso diante de tantas ameaças, desta maneira amplia o seu território, violando a jurisdição local e o direito da população daquele lugar de utilizar melhor a praia.

Os órgãos jurídicos são acionados e entram com ações contra você e sua família, mas o seu poder e riqueza os impede de fazer alguma coisa. Você alega que sua família só quer viver em paz e que a ampliação de território nada mais é do que o que vocês podem fazer para viver melhor. Chegando a este ponto, a população local começa a querer invadir a casa das mais diversas maneiras, até mesmo escavando túneis para uma invasão por baixo da casa. Tudo isso leva a você investir mais ainda o seu dinheiro em segurança e passa agora a armar os seus seguranças com armas letais e fuzis de longo alcance.

(Perceba que tudo isso não é nada mais do que uma disputa de egos, você por não querer sair dali, pois se acha poderoso e cheio da grana, e a população local por não aceitarem que a sua situação de vida é melhor do que a deles e que você tem o direito, por lei, de ter aquela casa)

A briga se torna mais intensa, e o que era local passa a se tornar objeto de discussão nacional, depois que uma das pessoas que tentava invadir a sua casa morre com um tiro na cabeça, por um tiro disparado de um dos seus seguranças. E na movimentação, um dos seguranças atinge outro dos invasores na perna e uma bala perdida acerta uma criança que estava passando pelo local no momento, que morre logo em seguida.
(...)

Poderia continuar esta história mas vou parar por aqui. Por mais que os elementos jurídicos, locais e políticos possam variar, trouxe esta história para poder trazer à tona a questão do que vem acontecendo na Faixa de Gaza neste momento entre Israel e a população daquele local.

As violações de Direitos Humanos por parte de Israel são inúmeras, desde os assentamentos ilegais em território palestino até a morte de crianças inocentes. A questão a qual me trouxe esta reflexão é, por qual motivo decisões pacíficas não são tomadas? O mundo inteiro está contra Israel neste momento, mas até que ponto as decisões de Israel são meras defesas do próprio direito e ataque aos de terceiros?

Esta minha interpretação parte do ponto de vista de que os únicos inocentes da situação são os cidadãos da Faixa de Gaza e de Israel, mas que somente os da Faixa de Gaza geram comoção por causa das mortes de inocentes. Acontece que, assim como o exemplo que dei acima, Israel poderia ficar somente dentro de sua “própria casa” esperando ser atacado, ou partir pra cima daqueles a quem eles tem como inimigos. A diferença de poder gritante, porém, não é necessária para se defender ou ganhar uma guerra, vide ai a derrota da Alemanha na 2ª Guerra Mundial, dos EUA no Vietnam na Guerra Fria e da Rússia na guerra entre eles e os japoneses.

Israel recebe ataques todos os dias de mísseis lançados pelo Hamas, mas não sofrem nenhum tipo de baixa ou destruição graças a seu escudo antimísseis chamado “Cúpula de Ferro”, desenvolvido pela indústria de armas israelense e que necessita de enviar 2 projéteis de $50.000,00 cada, para cada míssil enviado contra Israel. Neste ponto, quem sai ganhando é a indústria de armas israelense que precisa trabalhar a todo o vapor para desenvolver defesas ainda mais eficientes e, agora, ataques ainda mais precisos.

Acontece que, a região que está sendo atacada, nada mais é do que uma das regiões mais povoadas do planeta em termos de metro quadrado. Isso significa que, mesmo que ela esteja rodeada de pessoas inocentes e grupos interessados em atacar Israel, a possibilidade de um contragolpe de Israel atingir civis inocentes é quase que total. Isto acarreta a Israel uma tarefa de desenvolver uma grande defesa, mas que, tendo em vista o Direito Internacional e Direitos Humanos, também a “obrigação” de não retaliar, considerando que isso ameaçaria a vida de pessoas inocentes. Quando, porém, é o limite entre receber tapas e não retribuir em uma lei que ainda considera o “olho por olho e dente por dente”?

Israel vive pressionado entre o Direito do não dever e o Direito de se defender e retaliar contra um inimigo que é representado por pequenos grupos que atuam contra aquele Estado. E então, o que fazer no lugar de Israel? Atacar ou não atacar? Eis a questão.

Levando-se em conta que Israel possui um governo radical e que quer defender suas posses de qualquer maneira, garantindo a segurança e o bem estar de “sua família” e que o adversário não possui uma centralidade, é dividido e integrado por grupos que não aceitam, de maneira pacífica, a sua estadia naquele local, como então resolver esta questão?

Para muitos é simples, afinal, devolve “a praia conquistada” ao espaço a que era destinada, se resolve com a população local, desenvolve uma vida para eles ali e, pronto, estará tudo resolvido. Por que então isso não aconteceu agora?

Tenho meus palpites, que vão além da simples economia e política. A disputa territorial naquela região ultrapassa as barreiras físicas e embarca na questão ideológica. Palestinos e judeus são presos a questão territorial e ambos desejam quase a mesma parcela local. A menos que eles encontrassem uma maneira de conviverem pacificamente (o que seria muito difícil nos moldes atuais), somente ceder território aos palestinos não resolveria a questão da palestina, tendo em vista que este conflito, como minha concepção interpreta, é muito maior do que meramente político, econômico ou físico.

O poder econômico e político, que não é bobo nem nada, sabe muito bem disso e se aproveita para jogar palestinos e judeus uns contra os outros. É possível encontrar nas histórias da Torah ou do Alcorão passagens que irão dividir aqueles povos; e usar isso contra eles é, justamente, o que atende aos interesses de grupos como o Hamas e os políticos radicais de Israel. Nesta história não existem santos, sejam eles israelenses ou palestinos, todos são culpados pelo o que acontece na região; e se trata muito mais de uma questão de ego e falta de humildade do que política e econômica, afinal, ninguém quer ceder nada para o outro e a convivência pacífica em um mesmo território está fora de cogitação por ambos.

A história nos demonstra que árabes e judeus já viveram muitas vezes pacificamente, porém o que acontece hoje nada mais é do que utilizar a própria crença religiosa deles contra eles mesmos e não a história. Enquanto as mídias tomam seus partidos, do lado dos palestinos ou judeus, pessoas inocentes morrem na Faixa de Gaza e somente Israel é o culpado, sem se lembrarem que, não fosse a defesa aérea e territorial israelense, eles já teriam sido riscados do mapa por parte da “população local” (grupos que não desejam a existência Israel). Israel se defende de um inimigo perigoso pois luta não contra um Estado em específico, mas contra grupos locais. E os palestinos lutam com um grupo mais perigoso ainda pois não possuem defesa e não lutam contra um grupo, mas contra um Estado.

Neste ponto, acaba que toda a responsabilidade recai sobre Israel tendo em vista o seu poder, influência e riqueza. Porém, o quanto é dito sobre os palestinos que não desejam acordo pacífico com Israel? E as centenas de mísseis que são lançados contra Israel? Pode a arrogância nacionalista israelense ser culpada pela morte de todos estes inocentes ou o conflito é muito mais abrangente que isto?

Pessoas inocentes não devem morrer em lugar nenhum, nem mesmo as não inocentes. Pessoas não devem morrer, esta é a questão, não importa se sejam elas judias, negras, brancas ou palestinas. Se algum cidadão judeu morresse por um míssil lançado da Faixa de Gaza, ele não seria um culpado morto em conflito, mas seria mais um inocente, mais uma pessoa morte. A questão da culpa de Israel porém é tomada, unicamente, porque estes se defendem contra um inimigo que não é um Estado e, mais que isso, que não representa um todo da sociedade palestina. Mas e então, o que fazer contra um inimigo que se mistura à população entre crianças, mulheres e jovens? Como identificar um inimigo que possui a mesma fisionomia e mora no mesmo local dos inocentes? Infelizmente, não há como.

As escolhas, embora arrogantes – do outro lado também – são poucas. De um ponto de vista somente de Defesa, o Estado israelense poderia somente manter-se defendendo eternamente ou atacar o inimigo para desmantelar as suas forças.

Ainda assim, seja o ataque por parte de Israel ou dos grupos rebeldes palestinos, nenhum deles age de uma maneira sensata a resolução do conflito. Como disse acima, estes dois grupos – o governo israelense e os grupos rebeldes palestinos – aproveitam-se da revolta do povo e da fragilidade da região para ampliarem seus poderes e aumentarem o conflito no local, usando as crenças ideológicas e religiosas para jogar uns contra os outros e trazerem mais pessoas à causa – mas só Israel sai como culpado. E assim, entram-se anos e passam-se anos e a região continua sendo uma das mais conflituosas do mundo. Em Israel a população acorda com sirenes e correndo para abrigos antibombas enquanto que na Faixa de Gaza elas acordam, literalmente, com explosões de bombas na sua própria casa.

Tudo isto, nada mais é do que um reflexo do próprio egoísmo humano, seja ele por parte dos israelenses, que não aceitam negociar com grupos como o Hamas e não cedem às exigências palestinas, e dos próprios palestinos, principalmente os mais radicais, que não aceitam a presença de Israel na região e apelam para o uso da força, o que fortalece ainda mais os israelense e distancia ainda mais uma resolução pacífica para a região.

Observando de uma forma puramente idealista, o conflito naquela região jamais se resolverá cedendo ou não cedendo território, os cidadãos locais precisariam reconhecer que eles têm que conviver em harmonia uns com os outros – sim, é idealista. De uma análise mais prática, a comunidade internacional teria que ser mais enérgica contra Israel e, também, contra os palestinos. Devolver os territórios tomados por Israel, criar o Estado da Palestina, criar um acordo internacional de não agressão entre eles, tornar Jerusalém uma capital comum entre Israel e a Palestina, fazer com que a Palestina criasse leis duras contra grupos radicais e terroristas e, por fim, ajudar no desenvolvimento daquele país.

O problema todo é que, ao contrário da estória que inventei acima, o Direito Internacional não possui uma entidade máxima que faça valer a sua força e sua intenção. Por mais que todos os Estados do mundo acordem sobre os problemas na região – o que é quase impossível –, para que o Direito Internacional possa valer, é necessário que exista o Estado da Palestina e que Israel aceite a interferência externa em seus assuntos pessoais.

Este é um problema complexo e que não pretendo resolvê-lo com esta postagem, mas que, justamente, gostaria de apresentar uma ideia de que, tanto Israel quanto os grupos rebeldes são culpados e não somente os israelenses como se apregoa pela mídia. 

domingo, 4 de maio de 2014

Você é racista?


Antes de mais nada, escrevo este texto ouvindo a música de "Gabriel O Pensador - Racismo é burrice", ouça também e faça suas próprias críticas.

Esta semana aconteceu algo comigo que me abalou muito. Sempre soube da minha personalidade forte e os meus debates calorosos, mas jamais havia perdido uma amizade em uma discussão até então com uma pessoa que eu admirava e respeitava. Isso mexeu com a minha estrutura e eu estou definitivamente decidido a controlar essa parte da minha personalidade depois disso. Mas afinal, como tudo isso começou?

Tudo começou por causa dessa maldita banana. Sim, eu defendi a banana e o somos todos macacos, mas não, isso não significa que eu esteja certo, muito menos que minha percepção seja absoluta e que eu não mude de opinião. Mas acredito que um mínimo de sensibilidade ao ser humano, para saber como se fala com o outro é essencial para a construção de bons relacionamentos.

Então, partindo desta banana, resolvo fazer a seguinte pergunta para você responder para si mesmo, você é racista? Afinal, o que é o racismo?

De acordo com os seguintes dicionários, trata-se de:


  • Minidicionário Luft: "1.Doutrina dos que pregam a superioridade de certas raças humanas. 2. Ação ou qualidade de indivíduo partidário dessa doutrina"
  •  Priberam online: "1. Teoria que defende a superioridade de um grupo sobre outros, baseada num conceito de raça, preconizando, particularmente, a separação destes dentro de um país (segregação racial) ou mesmo visando o extermínio de uma minoria. 2. Atitude hostil ou discriminatória em relação a um grupo de pessoas com características diferentes, notadamente etnia, religião, cultura, etc"
  • Michaelis online: "1 Teoria que afirma a superioridade de certas raças humanas sobre as demais. 2 Caracteres físicos, morais e intelectuais que distinguem determinada raça. 3 Ação ou qualidade de indivíduo racista. 4 Apego à raça."
Para quem não se lembra dos horrores da Segunda Guerra Mundial, o que Hitler cometeu com os judeus, maçons, ciganos, negros e "não-arianos" (de acordo com os termos do nazismo), foi a maior prática de racismo dos tempos modernos. Ali morreram não somente judeus, mas muitos outros povos e raças que possuíam suas culturas e particularidades das quais Hitler e sua ideologia abominavam. Em qualquer um dos três dicionários acima você pode ver a definição de racismo aplicado às práticas de Hitler.

Acontece que, na sociedade brasileira, por séculos, os negros foram subjugados a vontade dos brancos e, por isto, criou-se uma comunidade negra muito mais pobre e com menos direitos. É fácil entrar em uma universidade e ver as salas de aula lotadas de branquinhos como eu. Ainda assim, vou contar um pouco mais do que aconteceu comigo e qual foi a minha atitude.

Na discussão, eu fui chamado de racista (contra os negros). Não vou ficar aqui falando sobre ela pois não há um espaço para a pessoa que discutiu comigo se defender, portanto, não é justo. Mas isto já vai servir para a construção do que quero continuar desenvolvendo aqui...

Como eu havia falado acima, não só a atitude de ter me chamado de racista me incomodou, mas a forma como ele se expressou ao falar comigo, simplesmente me senti um racista...
Pensando nisso, nada melhor do que conversar com uma terceira pessoa que não estivesse envolvida com a história...

Ao chegar no local em que trabalho, a minha frente sentou uma pessoa negra. Nervoso por ter sido chamado de racista e ansioso ao perguntar a opinião daquela pessoa, não exitei um minuto ao falar...
- Desculpa, mas eu preciso de sua opinião em algo muito importante para mim...

Expliquei para ele a história, o que eu tinha falado para ter sido chamado de racista e o que ele achava daquilo, até que ele começou a me contar a sua história pessoal:
"Nasci em um lugar pobre, mas muito pobre mesmo, a única coisa que não faltavam eram escolas públicas, haviam 10 na região. Independentemente de como o ensino era, posso dizer que oportunidade de estudar eu tive. Meu pai se separou da minha mãe quando eu tinha uns 8 anos de idade. Podia faltar o que fosse dentro de casa, mas minha mãe nunca deixava de faltar um caderno, um livro e um lápis para mim e meu irmão. Hoje, X anos depois disso tudo, estou aqui trabalhando com você mas sou formado em Direito pela Universidade Y, já trabalhei em várias multinacionais, viajei para a Europa, conheci o mundo, etc. Já meu irmão, sabe qual foi a escolha dele? Não ter nem o Ensino Fundamental Completo."

Ao ouvir esta história, confesso que não esperava por uma riqueza de detalhes tão grande. Ali percebi uma história que, de fato, não esperava ouvir. A pessoa me relatou as suas viagens a Europa e, diante deste caso que ocorreu com o Daniel Alves, embora afirmasse que lá realmente este tipo de ideologia seja mais intensa, disse que se sentiu menos discriminado lá do que aqui. O que ele me afirmava é que não sabia se as pessoas o respeitava por ser negro ou ser brasileiro, se o respeitava pela nacionalidade ou por quem era, mas que de fato o respeitava.

Com isso, aproveitei o embalo da conversa e perguntei sobre temas mais polêmicos, tais como cotas - E ai, o que você acha disso. Perguntei.

"Posso afirmar que realmente a minha escola teve defasagem em relação a uma particular. Por exemplo, enquanto em uma particular as aulas de química ocorriam normalmente, eu não tive. Além disso, tivemos várias greves, o que atrapalhava bastante no rendimento da aula. Tudo isso nos atrapalhava no vestibular. Poderíamos até disputar, por exemplo, em Português e Matemática, mas em outras matérias, estávamos muito defasados. Porém, antes de tudo, sou contra cotas para negros. Na minha sala de aula haviam brancos que também eram pobres, estavam ali sem opção. Também foram prejudicados no vestibular por terem estudado naquele tipo de Colégio. Qual o motivo então de eu ter este tipo de vantagem e ele não? Intelectualmente somos semelhantes, não há nada que nos diferencie quanto a isto. Por isso, então acredito que a cota deveria ser para quem estudou em Colégios Públicos por X tempos e não somente para negros."

E esta foi a opinião dele, que também seria a minha, com a única diferença que eu sou branco (ou melhor, mestiço) e isto seria encarado como uma discriminação racial.

Como podemos ver na letra da música de Gabriel O Pensador:
"Não seja um imbecil  
Não seja um ignorante 
Não se importe com a origem ou a cor do seu semelhante 
O que que importa se ele é nordestino e você não? 
O quê que importa se ele é preto e você é branco? 
Aliás, branco no Brasil é difícil 
Porque no Brasil somos todos mestiços (...)
Tinha índio, branco, amarelo, preto 
Nascemos da mistura, então por que o preconceito?"
 A ideia que levou a toda esta discussão, que me levou a perder uma amizade e a realizar esta série de perguntas ao meu colega de trabalho, foi que, simplesmente, eu percebo o branco, índio ou negro como sendo iguais e não diferentes. Este tipo de pensamento me leva a crer que, seja você negro ou seja você branco, será a sua individualidade que definirá os caminhos que irá tomar. Ainda assim, nada disso nega os fatores sociais, as dificuldades do dia a dia e tudo que irá ter que enfrentar para se superar, muito menos que terá que parar de lutar pelos seus direitos, porém, ainda assim, a sua dificuldade ou fragilidade não pode ser tratada como uma desculpa para não alcançar os seus objetivos e metas, e foi isto que esta história pôde me mostrar.

Meu colega de trabalho me demonstrou, através de sua própria vida, que duas pessoas criadas no mesmo lugar atingiram destinos completamente diferentes. Um formado em Direito e o outro nem ao menos havia terminado o Ensino Fundamental (ou Médio, ele ficou na dúvida). Ele disse que isto não tornava o irmão dele uma pessoa que não sabia falar, ou que falava errado, mas que nas escolhas para a vida deles, não foi uma série de facilidades que decidiu isto, mas a sua própria luta pessoa. Ou seja, a culpa pode ter sido do sistema, mas a responsabilidade foi de cada um.

Eu fui criado em uma rua com pessoas negras, das quais muitas delas eu passo hoje e me reconhecem, me abraçam, falam comigo, riem e me cumprimentam, mas também na qual, alguns dos meninos que moravam na mesma localidade que eu, me discriminavam por ser branco. Na verdade, isto nunca foi um impedimento para que eu pudesse sair às ruas e brincar, muito menos causo-me algum tipo de trauma do qual eu sentisse raiva de um negro, muito pelo contrário. Mas me lembro muito bem das piadas e músicas que inventavam para mim ou mesmo das vezes que já apanhei por isto, MAS QUE FORAM CASOS ISOLADOS e não me impediam de brincar e ter grandes amigos negros. Porém, lembro-me também, do quanto eu era ameaçado quando morava em outro bairro no qual, ao comprar pão para a minha mãe, falava para ela o quanto os outros garotos me olhavam atravessado e eu não gostava de passar por lá por me sentir diferente.

Desde então, nunca tive problemas com pessoas negras, pelo contrário. Muitos dos meus grandes amigos ou são negros ou tem traços com negros. Nunca tive nenhum tipo de repulsa ou apoiei qualquer violência, seja ela verbal ou física, contra qualquer tipo de pessoa por causa de sua cor. Posso sim ter discriminado uma pessoa por outros motivos, mas não este. 

Perceba isto, a discriminação contra negros no Brasil é uma realidade latente muito maior do que a realidade isolada e minúscula que vivi. Em nenhum momento estou fazendo aqui um estímulo de preconceito contra nenhum tipo de raça, cor, credo ou religião, mas é inegável que, por exemplo, esses brancos e pobres que estejam cursando um colégio público estariam também tendo os seus direitos privados caso a cota fosse somente para negros (há cotas para os Colégios Públicos e pobres atualmente). É só imaginar um caso hipotético de uma mãe que tenha tido um filho negro e outro branco. A mesma criação, o mesmo ambiente, porém oportunidades de escolhas diferentes.

Conforme demonstrado pelo "Ministério da Justiça", a situação dos presídios é a seguinte:




Como podem ver no gráfico, a situação dos negros é a mais grave. Agora eu lhe pergunto, será mesmo que somente uma política de cotas resolverá esta situação? Como estão sendo tratados os presidiários? Como será que as políticas de segurança pública é educada? Como estão ensinando as crianças nas escolas? Qual é o estímulo para o estudante hoje ir estudar? Qual é o diferencial entre a rua e a sala de aula? Qual é o valor do professor dentro de classe? Vamos mudar tudo isto somente com medidas paliativas?

A minha opinião é a seguinte: enquanto continuarem tratando o negro como negro e o branco como branco, não haverá uma coisa só chamada povo, integridade ou humanidade. Alguns chamam isso de utopia, ao meu ver se chama Justiça. Passamos séculos tratando os negros como indigentes, os índios como selvagens, os "brancos" como intelectuais e desenvolvidos (visão eurocêntrica) e o que ganhamos com isso? Quando foi que passamos a criar medidas eficientes para se incutir a mentalidade de que uma criança negra não tem diferença nenhuma, a não ser na cor, perante uma criança branca ou parda? Ou que uma criança palestina não tem nenhum diferença perante uma judaica?


A humanidade cria rótulos, dentre os quais incluem-se os negros, os brancos, os pardos, os mulatos, os africanos, os brasileiros, os europeus, (...) , quando, na verdade, somos todos evoluídos de um ancestral em comum ao macaco (ou seja, #NÃOsomostodosmacacos, #somotodosancestralemcomumaomacaco), possuímos todos os mesmos órgãos, o mesmo cérebro, moramos na mesma Terra, compartilhamos os mesmos recursos e dependemos de todos ao nosso redor.

Por mais distante e utópico que possa parecer meu pensamento, acredito, fundamentalmente que, enquanto não tratarmos todos os seres humanos dotados da mesma capacidade, responsabilidade e DANDO A TODOS a mesma oportunidade inicial, sem discriminação de raça, cor, credo ou religião, então nunca seremos livres de que hoje o racismo seja contra o negro, amanhã contra o nordestino, depois de amanhã contra o homossexual, depois de depois de amanhã contra o branco e em seguida contra tudo e todos, pois sempre estaremos achando contra quem depositar a nossa culpa, sem trazer para nós a responsabilidade de mudança de tudo o que há por ai.

"Então que morra o preconceito e viva a união racial"





segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Nota sobre a Síria

Não, eu não sou contra uma intervenção militar na Síria, eu sou contra uma intervenção OCIDENTE na Síria. Ainda assim, o caso do uso de armas químicas não pode ser tão relevante quanto a morte de milhares de civis ao longo de todo o conflito. Quanto ao próprio uso das armas químicas, deveriam ser, fidedignamente, comprovados o envolvimento das tropas de Assad. E por que não os rebeldes?

Se há alguém que tenha que estar incomodado com o que acontece lá é a Liga Árabe e os seus componentes. Se eles não tomam uma atitude física contundente contra o território sírio é porque eles próprios não reconhecem, de fato, que há provas contra Assad.

Assad não é nem nunca foi nenhum santinho, assim como Sadam Hussein, mas uma intervenção militar de uma potência externa da região pode trazer males catastróficos não só para a população local como também para as relações externas entre países da região. Dez anos depois da invasão ao Iraque a população ainda se pergunta por que tem que conviver com tropas americanas naquele território, eles simplesmente perderam toda a administração local, de acordo com a Resolução obtida no Conselho de Segurança da ONU, para um país externo. Alguns teóricos chegam a afirmar, categoricamente, que se trata de um novo caso de colonialismo, tendo em vista que a administração local de empresas de petróleo e empreiteiras tornaram-se muito mais ocidente do revertidas em riqueza para a população local.

Encontramo-nos em um momento de graves problemas econômicos mundiais, revoltas acontecem até mesmo em territórios "desenvolvidos" europeus. Uma guerra movimenta a economia não para quem está na base, mas para quem está no topo da pirâmide financeira. Bancos lucram através de seus empréstimos gerando crédito para que a máquina militar possa ser alimentada, as empresas de petróleo também aumentam suas riquezas pois todos os veículos militares dependem de algum combustível derivado dele, as empreiteiras lucram por aumentarem as construções civis e os governos aumentam sua influencia de poder conquistando a atenção internacional e o poder em uma determinada região.

Não se iluda com essa história da Síria, não há santinhos ali. A Rússia tem interesse pois possui naquele território um setor estratégico de saída para mares quentes, assim como veem uma potencial ameaça territorial com o aumento da influencia americana no território. A China também reconhece a ameaça e se junta ao Irã, que já não é simpático ao governo ocidental. Israel terá um aliado importante próximo de si e o mundo Árabe, mais uma vez, entrará em um possível caos com o aumento dos números de atentados terroristas pois eles não aceitaram ninguém intervindo na região.

O jogo internacional é baseado no interesse, a partir do momento que se apoia um lado A ou lado B, escolhe-se o seu amigo e o seu inimigo. Não se iluda com essa de interesse humanitário na região pois, de fato, não há.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O dia em que conheci meu herói

Quando falamos de heróis logo nos remetemos a personagens comuns como os de histórias em quadrinhos, alguém que fez algo por nós, pai e mãe ou até mesmo aquele cara que salvou alguém em uma piscina se afogando. Na verdade, existem muitos tipos de heróis.

Meus pais são heróis pelo tanto que lutam na vida e me ajudam a me erguer, o personagem Jack Bauer pelas tantas vezes que se sacrificou por seu país, o vilão Mercúrio, de X-men, por ser o cara mais veloz do mundo ou Jean Gray pela capacidade de mover tudo com o poder da mente. Cada um, desses heróis da vida real ou de histórias em quadrinhos me fazem refletir como seria se eu tivesse o poder deles ou a capacidade que eles tem, mas foi um que mais mexeu comigo, uma pessoa que eu conheceria 8 anos após estar morta e que me faria refletir mais sobre a vida e o que eu posso de fato fazer para ser, também, um herói.

No ano de 2011, eu e alguns amigos estávamos na Bienal do Livro no Rio Centro andando de um lado para o outro olhando os livros. Naquele dia eu sairia de lá com uma sacola cheia de livros mas quase todos dados por alguma editora, somente um comprado. Foi então que eu entrei em uma Stand e fui dar uma olhada nas promoções e lá estava ele me esperando. Com 50% de desconto (que maravilha!), o livro que iria revelar o cara que não estaria mais em histórias em quadrinhos ou filmes e que eu poderia de fato me espelhar para um mundo melhor. A capa já dizia “O homem que queria salvar o mundo” e eu logo me interessei. Quando olhei os comentários atrás, somado a oferta e ao estilo de vida do cara eu falei “é esse”; e de fato foi.

Sendo sincero, eu abandonei o livro na metade (já voltei a lê-lo), mas não porque era chato mas porque entre provas, enrolações e mudanças na minha vida acabei deixando ele de lado – assim como muitos outros –, sem nunca esquecer quem foi Sérgio Vieira de Mello. Logo nas primeiras páginas eu morri de raiva, o cara que eu já estava admirando antes de conhecer havia morrido em um ataque terrorista em uma embaixada em Bagdá. Mas até sua morte foi admirável, contam alguns sobreviventes que ele fora uma das primeiras pessoas a serem atendidas mas que logo recusou e pediu aos médicos para que atendesse as demais pessoas – típico de um herói. Por mais que seja um relato daqueles que faz livros e artigos serem lidos, não é de se duvidar que seja verdade. Sérgio era um cara de nome simples, humilde e sincero. Dizem seus amigos que “Sérgio conseguia penetrar em todos os mundos possíveis. Com Kabila (ex-presidente do Zaire/Congo), era um homem de uma ex-colônia pobre do mundo em desenvolvimento. E com os diplomatas europeus, era o dignitário educado na Sorbonne”.

Em alguns episódios que recordo do livro, ele foi capaz de se infiltrar em uma das piores organizações genocidas do mundo, o Khmer Vermelho, um antigo partido comunista do Camboja conhecido também como Kampuchea e conversar com o seu líder a respeito dos refugiados. Estratégias eram traçadas de maneira que quem não tivesse nada a ver com a história de disputa pudesse, no mínimo, sobreviver. Sérgio lutou contra a ditadura no Brasil e antes dela já almejou ser da Marinha, inclusive dizia que se fosse chegaria a almirante, talvez pela sua forma de fazer política. Não seguiu carreira no Itamaraty pois seu pai, um também diplomata, havia sido aposentado forçadamente por não concordar com as políticas dos militares. Por isso ele saiu da UFRJ e foi para França estudar em Sorbonne.

Lá ele fez Filosofia, construiu teses complicadíssimas e cresceu sua carreira no ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados). Assumiu muitos postos de comando mas sua carreira, basicamente, cresceu devido as suas posições em tomar atitudes arriscadas em momentos de delicadeza. Ele errou algumas vezes, acertou muitas outras, sofria duras críticas e não foi um pai/marido muito perfeito. Profissionalmente todos gostavam de estar ao seu lado, mas ele passou por muito altos e baixos, sofrendo, algumas vezes, até  pequenos casos de depressão.

Sérgio não se tornou um herói para mim por causa de sua vitória na vida, mas pelo exemplo que ele passava para os outros. Em meio ao caos ele era a serenidade, em meio a diversidade ele era a certeza e em meio a tantas opções ele era a escolha. Mesmo estando sempre em meio a problemas, através de sua imagem ele passava um ar de calma para as pessoas. E quando tinha uma opinião? Discutia inclusive com grandes amigos para defendê-las, não dava o braço a torcer.


Ele me ensinou até mesmo a ter mais fé, mesmo sendo ateu. De acordo com a autora, ele não tinha religião e ela chegou até mesmo a intitulá-lo como ateu, mesmo assim ele nunca deixou de respeitar a fé de alguém ou de não acreditar na humanidade. Ele estava nos piores lugares do mundo, vendo mulheres estupradas, homicídios por disputas políticas e pessoas morrendo por fome, ainda assim se utilizava até mesmo de pequenas atitudes para poder ajudar o próximo, mesmo não tendo uma religião ou uma crença religiosa imbuída.

Além de tudo isso, ele lembra meu pai quando mais novo fisicamente..rs

Esse é o cara que passei a admirar e ontem fez 10 anos de memória a sua partida. Em 2003 ele morreu em um atentado terrorista mas a sua memória não foi apagada. Seus amigos fazem qualquer um se emocionar com as suas mensagens e exemplos de perseverança. Ele não era um cara perfeito, era cheio de defeitos como eu e você, mas, no fundo, ele sabia de algo que, muitas vezes, eu e você não acreditamos – a humanidade ainda tem jeito.


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Cara ou Coroa?

Este artigo foi escrito por mim em março de 2013, assim como o próximo, ainda assim são válidos para este momento ou qualquer outro.

Ultimamente, com a intensificação dos protestos contra o pastor/presidente da Comissão de Direitos Humanos Marco Feliciano e umas discussões que tive no facebook a respeito de Ciência, venho passando a perceber um aspecto do mundo que vem me incomodando.

Provavelmente você já ouviu aquela frase “ame o próximo como a ti mesmo”, não já? Pois então, se não ouviu, saiba que, quase a totalidade das religiões presentes no mundo possuem esta frase de uma maneira similar. Porém quando estudamos Ciência Política, começa-se a entender que o que rege o mundo na verdade, não são as visões religiosas dele, mas as visões políticas.

A nossa sociedade é coberta por opiniões do tipo “respeitar ao próximo”, “respeitar os Direitos Humanos”, “não emitir opiniões vulgares sobre alguém”, etc, porém sabemos que nem tudo é como se deseja ser.

Cresce no mundo, cada vez mais, uma falsa sensação de liberdade. Podemos emitir opiniões, “falar o quanto queremos sobre o que quisermos”, mas se em algum momento emitirmos uma opinião que vá contra o senso comum da sociedade ou o que se tem, falsamente, chamado de liberdade, então somos taxados como idiotas, imbecis, desprovidos de inteligência, de direita, sem cultura ou o que mais desejar acrescentar a este vasto vocabulário.

Mas você deve estar se perguntando: “Tudo bem, mas por que você está falando isso?”

Porque é o seguinte, estão tirando o Direito das pessoas emitirem opiniões contrárias ao que a maioria da sociedade diz ou acredita, e isto é uma forma de manipulação. Mais radicalmente se dizendo, pode-se cogitar que é uma ditadura de opinião. Vejamos o porquê de eu achar isso e por que acho que ter opinião é diferente de respeito.

No Estado Nazista de Hitler ou na União Soviética, se você tivesse uma opinião contrária ao senso comum do Estado, ou você era morto, recluso ou preso. Em um Estado democrático, o mínimo que deveria existir era o Direito de emitir a sua opinião, seja ela qual fosse: defender os homossexuais ou não, acreditar em Deus ou não, seguir o método tradicional científico ou não, e assim sucessivamente.

Na sociedade pós-moderna vivemos um momento que eu chamaria de desequilíbrio de opinião, como assim? Simplesmente as opiniões são equilibradas pelas suas oposições, e aquele que vence essa disputa de poder ou se torna mais dominante terá mais privilégios em emitir mais as suas ideias do que o lado oposto.


Imagine por um momento uma balança de pratos. De um lado temos cientistas que acham que qualquer pesquisa que saia do campo tradicional do método científico é inválida. Do outro lado, temos aqueles que, ousando ir contra o mar de opiniões contrárias, seguem um outro viés de pesquisa, ou até mesmo seguem o método científico porém tentando descobrir questões fora da Ciência tradicional, e são minoria

Com a balança na qual citei, o lado científico tradicional vence e qualquer tentativa de se mudar essa tradicionalidade perde. Assim podemos também trazer isto para o campo político, social ou qualquer outro.

A democracia, diz-se ela, diferencia-se dos outros regimes pela liberdade de opinião de uma pessoa. Se ela, por sua crença pessoal ou não, acredita que o mundo não é esférico – deformado, oval, que seja –, só tem uma maneira de mudar a opinião dela, que é através da Educação, sem mais. Se você simplesmente chega e cria uma lei dizendo: “qualquer pessoa que pregue que o mundo não é redondo está passível de prisão e sua pena poderá pegar de 2 a 3 anos de cadeia ou serviços comunitários.”, cria-se somente mais ódio, raiva e rancor contra a opinião: “o mundo é esférico” pelo simples fato da pessoa que não acredita pensar: “Por que não posso acreditar o contrário? Quem são eles para me privarem de minha crença?”

Cristãos morreram queimados e arrastados no Império Romano, Judeus – eles são um povo, não uma religião – foram assassinados na 2ª Guerra Mundial, Muçulmanos e Islâmicos foram assassinados por cristãos na Idade Média, homossexuais morreram por defenderem sua opção sexual, negros morreram por defenderem sua liberdade...entendem onde quero chegar?

As pessoas dão a vida por suas crenças! Se uma pessoa é um SkinRed que vai sair por ai matando negros, mendigos e homossexuais e ainda assim perseguirem ela, ela vai continuar com as suas crenças, pois as crenças individuais não são formadas da noite para o dia mas com um processo longo de aprendizagem, opinião, influência da vida e da sociedade.

Quando criei este artigo não espera escrever tanto, mas realmente este tema vem me preocupando. O que realmente tem que importar no mundo são os maus-tratos, a violência e a punição física, não valores internalizados.

Se nós temos negros, homossexuais, crianças ou o que mais for em nossa sociedade sendo perseguido, não temos que impedir as pessoas de terem opiniões contrárias mas sim criar leis para impedir que as pessoas façam algo que vá ferir ou machucar o próximo, como é o caso da lei Maria da Penha, que defende as mulheres de abusos sexuais e violências físicas.

Um dos fatores que me levaram a escrever este artigo é que eu já sofri muito preconceito em minha vida e nunca tive uma lei para me defender, nem por isso me tornei uma pessoa violenta ou pior pelo que aconteceu comigo, pelo contrário. Enfrentei as diversidades e preconceitos, dei a volta por cima e hoje faço a minha parte seguindo a minha vida. Assim foi comigo e com diversas pessoas que conheço.

Sinceramente, se opinião pessoal fosse motivo para tornar o mundo melhor, então a nossa política deveria ser a melhor do mundo. Quantos deputados, senadores, vereadores, prefeitos, presidentes ou quaisquer outros políticos não defendem o direito de todos e do povo? Quantos deles são corruptos e não fazem nada para o povo? Pois é...a opinião que eles mostram não é denotada pela atitude que eles tomam no dia a dia.