É muito comum
ouvirmos alguém perguntar o porquê de tanta maldade no mundo. Porém, iniciarei
este artigo com uma retórica diferente. Por que existem tantas pessoas que
fazem o bem neste mundo? O que leva tantos muçulmanos diante de um mundo no
qual acredita que em sua maioria eles são extremistas (o que não é verdade) a
realizar obras de caridade e ajudar o próximo? Como pode uma pessoa ajudar outro
ser estando em um território em que acontece a guerra, fome e morte? Como podem
tantos judeus ou maçons, que são tidos por muitos como o mal do mundo e a
hegemonia do poder bancário e financeiro, doarem milhões de dólares todos os
anos para a caridade? Mais ainda, como pode você, diante de um mundo em que as
notícias mostram pais matando filhos, irmãos e amigos se traindo, brigas de
transito levando a mortes, bandidos assaltando a todo o momento e, ainda assim,
querer se tornar alguém melhor ajudando o próximo e a si mesmo?
A questão da
natureza humana é bastante profunda. Em se tratando deste assunto você verá
opiniões bastante embasadas e diferentes uma das outras. Eu vou apresentar a
minha opinião e percepção sobre ela dialogando com o pouco que tenho aprendido
nos últimos anos de estudos pessoais e faculdade.
A natureza
humana sempre foi alvo da análise de grandes pensadores. Isso pode ser
observado desde Sócrates e Platão até os homens da ciência nos dias atuais
debatendo sobre ela através das influências biológicas e cosmológicas. E neste
ponto de embate, há sempre os que são extremamente idealistas, ao ponto de
acreditar que ela é muito boa e também, extremamente “realista”, ao ponto de
acharem que ela é completamente má. Neste quesito, discordo de ambas as
opiniões e fico com as ciências biológicas, na qual realçam a natureza animal
do ser humano e seus instintos (não sendo eles bons ou ruins); ainda assim,
esta ciência não é suficiente para explicar em profundidade a essência humana
de existir e, principalmente, querer fazer o bem.
Nos conflitos internacionais,
é rotineira a análise do contexto que envolve o tradicional problema. Neste
caso, há milhares de especialistas em tudo o que se possa imaginar, trazendo a
tona toda a causa e efeito do que se passa. Porém, mesmo que o contexto seja
levado em consideração, dificilmente a abordagem sobre a natureza humana será
levantada em um debate. Tudo isto ocorre porque ao se analisar um contexto
amplo, como, por exemplo, o conflito Palestina x Israel, será considerado todo
o interesse econômico, financeiro, armamentício, militar, histórico, geográfico
e geopolítico por trás do conflito e não o que está por trás destes motivos. E
embora muitas dessas análises sejam todas muito bem fundamentadas, elas costumam
se garantir somente em suas análises e informações ignorando o outro lado. Tudo
isso leva a um grande conflito de ideias no qual a disputa principal se torna a
de “quem está correto” e o debate, por fim, acaba se tornando aquele no qual o
mais dramático ou o mais fundamentado argumentativamente (naquele momento),
ganha.
Passado este
parágrafo de reflexão, o que diriam os grandes contribuidores do pensamento
político do mundo? Bom, a maioria deles abordou, mesmo que de forma singela –
ou não – a questão da natureza humana. E assim fez Platão, Aristóteles, Santo
Agostinho, Thomas Hobbes, John Locke, Rousseau, Maquiavel, Kant e outros. Todos
eles, de sua maneira, abordaram a questão da natureza humana e com isso
desenvolveram suas teorias sobre a Política, o Homem, a disputa de poder e o
mundo. Um exemplo rápido disso é que a compreensão do pensamento dos autores
realistas em Relações Internacionais, a qual é acompanhada pela crença na
disputa de poder entre os Estados, da maldade na natureza humana e da vida
antes do Estado (estado de natureza), vinda do autor Thomas Hobbes. Assim como para
o materialismo e capitalismo, John Locke foi um grande produtor de teorias que
justificassem a atitudes do sistema tendo em vista a criação divina do homem e
sua posterior “rebelião”.
Seja qual for a
teoria, percebe-se que antes que chegássemos a toda esta complexidade que
existe hoje de teorias tentando justificar, compreender e culpar os
acontecimentos no mundo, o homem foi objeto de análise em algum momento, mesmo
que tenha sido no princípio destas.
Precisei falar
um pouco dessas questões para abordar o que penso sobre o tema. Acredito que na
formação dessas teorias sobre o homem não havia a ajuda de um setor que hoje
está muito mais avançado – o científico. Ainda assim, mesmo com este avanço
científico e que pode identificar a origem da natureza humana, ele não é
suficiente para identificar a essência humana ou a razão do viver, o que
simplesmente dá o fôlego de vida, responde as questões mais transcendentais e
faz com que o ser humano faça o bem e queira o progresso. E isto está,
justamente, relacionado ao espírito humano e não as respostas científicas
(embora os mais materialistas vão encontrar respostas para tal, utilizando-se
da genética, psicologia ou outras fontes).
O ser humano
possui uma natureza animal devido a sua evolução biológica ao longo dos milhões
de anos de adaptação. Mesmo assim, somos a única espécie no planeta dotada de
razão, poder de escolha e capacidade de adaptar os meios para nós, ao invés de
somente nos adaptarmos ao meio – como os animais. Esta capacidade do ser humano
o torna único na face da terra, levando-nos até a civilização em que temos em
nossos dias atuais. No entanto, embora tenhamos a capacidade de refletir sobre
o que fazemos e tomarmos escolhas sobre nossas atitudes, é a natureza animal
que continua prevalecendo em nós ao invés da espiritual.
O avanço
científico nos permitiu e permite vislumbrar tudo o que podemos construir e o
que queremos ser, mas, ao mesmo tempo, não permite uma revolução interna no ser
humano. Quando um conflito é analisado tal como o de Israel e Palestina, muitos
culpados são procurados, desde o Hamas até Israel. Com isso, alguns aproveitam
o momento para culpar o capitalismo, assim como o sistema financeiro internacional,
os americanos, a ONU, os judeus, o Hamas, etc. Em todo este contexto, é
analisada a realidade histórica da região, o crescimento demográfico, o
desenvolvimento econômico e até mesmo as religiões ali presentes, no entanto,
fica esquecido completamente quem é o responsável por construir tudo isto,
desde o sistema econômico até a realidade histórica – o próprio ser humano.
Neste sentido,
aparecem cada vez mais culpados e tudo se acumula. Primeiro, porque nem todo o
conhecimento do mundo pode ser absorvido. Isto significa que, nem tudo o que um
analista estudou será o que o outro analista estudou; afinal, eles não vivem
juntos em uma mesma mentalidade e pesquisa. Por fim, a briga entre dois
analistas torna-se uma disputa de quem convence melhor e de quem argumenta
mais, mas não o de encontrar uma solução efetiva para o caso. E assim, a
realidade daquele que é responsável por aquilo – todos nós –, é cada vez mais
deixada de lado.
O ser humano,
na tentativa de compreender a sua real natureza, conseguiu fazê-la através das
Ciências, porém não soube o que fazer com essas informações que vem descobrindo.
Ele conseguiu entender as nuances da sua formação material e, inclusive,
entender algumas de suas emoções, como o faz a psicologia. Construiu diferentes
áreas do saber, tornou complexa a relação entre os seres, expandiu a
tecnologia, mas, muitas vezes se esquece dele mesmo – da sua própria capacidade
de transformação e adaptação perante a realidade.
Com isso eu
retorno a pergunta que fiz no início deste texto: como pode alguém fazer o bem
no meio de toda esta confusão? Como podem existir tantas pessoas boas no mundo?
(elas são maioria, por mais que não ache) O que leva um ser humano a realizar
um bem no meio a tanto mal? E nisto entramos na questão do bem e mal e da
espiritualidade humana.
Não se tratando
aqui de qualquer religião que seja, mas levando-se em consideração todas elas,
somente o investimento no espírito humano – seu caráter, sua moral e sua
identidade – pode mudar a realidade de Israel, Palestina e qualquer outro
conflito no mundo. Por mais que medidas importantes como a criação do Estado da
Palestina, a retirada dos embargos por Israel, a retirada de todo armamento do
Hamas da região da Faixa de Gaza e, utopicamente, até mesmo uma união entre os
povos palestinos e israelenses, ainda assim, não seria o suficiente para trazer
uma completa paz.
Por exemplo,
você saberia me dizer como se encontra a situação da Alemanha recentemente?
Bem, não é? Agora, pode se lembrar do que ela fez há, aproximadamente, 70 anos
atrás com os judeus, ciganos, maçons, negros, etc? E qual o motivo de ainda
existirem neonazistas no mundo? Será que o que ela fez não foi suficiente para
mostrar o mundo o mal que o nazismo fez e é? Será que o que Hitler fez não foi
trágico o suficiente para revelar ao mundo o mal que podemos fazer odiando o
próximo? Pois então. Todas essas perguntas foram utilizadas para mostrar que
uma resolução no campo material não resolve uma questão no campo interior do
ser humano – no aspecto da moral, do caráter e da evolução espiritual. A
Alemanha é hoje um país exemplar para o mundo, a começar pelo comportamento dos
jogadores alemães na Copa do Mundo. Ela alcançou um avanço e autonomia que
poucos países europeus possuem, e mesmo assim, muitos neonazistas buscam na
história trágica dela – nazismo – a resposta para os problemas da humanidade.
Assim, o ser
humano segue buscando, cada vez mais, culpados para o que ocorre aqui ou ali.
Não estou dizendo para deixar de buscar os culpados, informações, contextos ou
motivos, mas que simplesmente reflita sobre onde está a culpa, de fato.
E quando me
refiro a espiritualidade, não falo sobre a busca de uma religião em si, tenho
um amigo que é ateu e é uma das pessoas mais espirituais que conheço. A forma como
ele trata os seres humanos, com amor, carinho e compaixão, faz dele muito mais
espiritual do que qualquer judeu (ganancioso), muçulmano (radical) ou
evangélico (hipócrita). Eu mesmo posso me revelar como cheio de falhas e
imperfeições na qual minha natureza prevalece em muitas situações e este meu
amigo se revela muito mais espiritual que eu – mesmo eu acreditando em Deus e
ele não. Não são poucos os momentos em que tomo uma atitude e percebo que não
era somente a minha vontade, mas o desejo de satisfação dos meus instintos que
estavam por trás de alguma das minhas atitudes.
Assim como eu,
a humanidade continua ainda com seus instintos básicos do reino animal quando toma
muitas de suas atitudes, e é exatamente a luta contra esta natureza que fazem
tantas pessoas realizarem o bem. A natureza animal é totalmente instintiva. Em
nosso processo de evolução, o importante era garantir a nossa sobrevivência, a
sobrevivência do grupo e a transmissão dos genes. Para isto, características
como a força, o vigor, o poder, a destruição, a rapidez, a destreza e a
sagacidade, eram atributos muito mais importantes para manter-se vivo, ser o
líder do grupo, defender o grupo e matar as ameaças do que a compreensão, o
entendimento, o acordo ou a diplomacia.
Neste processo
de evolução humana, fazer o bem nada mais era do que uma necessidade de salvar
o grupo ou um instinto materno/paterno com relação a prole. Junto com esta raça
humana, o que interessava era a sobrevivência da espécie e sua reprodução,
passando por tudo e por todos que fossem necessários. Ainda assim, ao longo da
evolução humana, encontraremos pessoas como Sócrates, que deram a vida para
divulgar a verdade. Buda, que abandonou a riqueza para viver com os pobres e
atingir o nirvana. Jesus Cristo, que na sua humildade, ensinou um novo modo de
se viver ao ser humano, quebrando a antiga lei judaica de “olho por olho e
dente por dente”. Mahatma Gandhi, que venceu o poder da Inglaterra com
humildade e sem pegar em armas. E você, que, vez ou outra, se pega dando uma
moeda ou ajudando um desconhecido. Eu lhe pergunto, que tem isso a ver com a
natureza humana?
A natureza
humana se fez necessária para nos mantermos como espécie e chegarmos até o
patamar de evolução que atingimos recentemente. Mas, esta mesma natureza, pode
ser responsável pela nossa extinção nos próximos anos. O que todos esses
Mestres, acreditando você em religião ou não, vieram nos ensinar foi que nós
não necessitamos nos curvar a nossa natureza para VIVER. O próprio Maomé pregou
contra a natureza da população árabe de seu tempo em adorar muitos deuses. Por
mais que seja difícil demais, e eu reconheço essa dificuldade, somente
superando a natureza do ser humano é que podemos nos tornar um mundo melhor.
Com ela veio o nosso egoísmo (capacidade de manter o alimento para
sobrevivermos), a inveja (capacidade de construir condições melhores para nós),
o orgulho (capacidade de acreditarmos em nós mesmo e assim nos mantermos vivos
e seguir em frente) e muitos outros atributos que fizeram nos chegar até aqui e
que nos serviram muito bem em nossa evolução, mas que, neste momento estão nos
destruindo.
Quando você
para e analisa um conflito como o de Israel e Palestina, encontra muitos
elementos ali presentes. Dentre eles encontrará uma explicação religiosa, que
lhe mostrará desde a Bíblia, em Genesis, no qual alguns teólogos definem como o
começo da divisão entre árabes e judeus. E para os que não sabem, esta é a
mesma história que encontra-se na Torah (livro dos judeus) e, acredito eu, deve
haver algum elemento neste sentido no Alcorão.
Além desta
análise religiosa, você encontrará também uma análise geopolítica e econômica.
Neste tipo de análise, as pessoas irão se concentrar na questão de que o Estado
de Israel foi criado com o intuito de manter o domínio Ocidental – e ai você
encontrará de tudo –, na região do Oriente Médio. Aqui você encontrará,
inclusive, Teorias da Conspiração de que o Estado de Israel foi criado em
conluio com o governo inglês e de que tudo era uma intenção de privilegiar o
controle dos ocidentais as jazidas de petróleo e, também, impedir a expansão do
antigo Bloco Soviético.
Além destas
duas, há também uma análise mais sociológica e histórica. O mais influente dela
é o autor Edward Said, que fundamentará os seus conhecimentos na ideia de que a
questão oriental vem sendo uma construção europeia desde os tempos remotos a
Idade Média. Além disso, nesta teoria é destrinchada também a concepção de que
a expansão do Estado de Israel, somado aos constantes desentendimentos entre os
vizinhos e ao apoio dos grandes países ocidentais, torna Israel um Estado muito
superior em todos os sentidos ao que seria o Estado Palestino. Com isso,
justifica o crescimento dos movimentos radicais e a forma como eles combatem o
Estado de Israel. Aqui também é considerado a forma como Israel trata a Faixa
de Gaza de sua forma histórica. Eles consideram que o tratamento dado por
Israel ao local é desumano e que justificaria também o levante dos movimentos
fundamentalistas como o Hamas.
Existem também
outras teorias que abordam esta questão, mas por mais que eu tenha sido
superficial e somente tenha demonstrado uma pequena parte delas a vocês,
nenhuma delas considera a questão que abordei acima.
Sendo a
natureza humana algo intrínseco a todos nós, todas essas questões englobam
dentro deste tema. É natural dos povos árabes e judeus – assim como de qualquer
povo – defenderem o que são seus, justamente por isto fazer parte de nossa
natureza. No entanto, esta natureza que tanto nos ajudou, hoje prejudica que os
palestinos, israelenses e o mundo possa admitir que a terra estava ali antes
deles mesmos nascerem ou seus povos terem surgido. O orgulho que os ajudou a
manter a religião e os seus alicerces espirituais ao longo dos séculos, e que
também fazem muitos judeus, cristãos e muçulmanos realizarem a caridade pelo mundo,
é o mesmo que hoje os impede de admitir que o que a religião deles os revelou no
passado, valeu para aquele momento e hoje o mundo mudou em muitos sentidos. O
egoísmo que fez aquela terra ser parte de árabes e judeus até os dias de hoje,
também não os permite compartilha-la por igual entre si, pois cada um de seu
“Deus” a conclamou para si. Por fim, a inveja prevalece entre os dois povos, no
qual nenhum dos dois aceita que o outro tenha parte da terra.
Portanto, para
finalizar, você verá muitas análises diferentes sobre o que acontece naquela
região. Mas somente a capacidade de mudança interior dos homens poderá alterar,
de fato, o que ocorre ali. Os judeus e palestinos, com essas três
características anteriores, jamais sairão de lá. E se um deles for expulso ou
perderem terreno para o outro, eles voltarão em um futuro para retomar a terra,
ocorrendo um ciclo eterno de disputas e conflitos. Somente a aceitabilidade de
que possuímos uma natureza espiritual em comum, de que possuímos os mesmos
direitos e que somente a união, fraternidade e amor podem evoluir o homem, é
que eles conseguirão mudar a face daquela região. E tenha certeza, o dia que
eles conseguirem isso, todos nós conseguiremos.