terça-feira, 16 de setembro de 2014

A lógica socialista e o espírito do fundamentalismo protestante

Alguém já conversou com um fundamentalista religioso ou protestante? Se não, vou dizer para você com base no que eu mesmo já fui.

O fundamentalismo religioso se baseia, principalmente, na premissa dos seus principais mestres, dogmas e ideologias. É basicamente assim "se você não conhece a Bíblia então você não sabe de nada sobre Deus, e se você conhece e não pensa como nós, então Deus (Espírito Santo) não habita em você".

O problema deste argumento são dois, "quem somos nós? E como nós pensamos?". E desta maneira você vê a polarização da religião protestante, sendo abertas várias igrejas com ideologias diferentes. Ainda assim, a maioria delas possui alguns preceitos em comum, tal como aceitar a trindade (Espírito Santo, Jesus Cristo e Deus) como sendo somente um, o batismo nas águas e o confessar Jesus como único e suficiente salvador.

Mas e ai, qual é a lógica disso se comparado ao socialismo? Uma ideologia totalmente adversa, com muitos pensadores ateus e contrários a religião? Vejamos.

O socialista, embora existam muitas correntes (Lenista, Stalinista, Maoísta, etc) segue, basicamente, os fundamentos de Marx (mesmo que não tenha sido ele o fundador do socialismo). Marx escreveu a Bíblia dos socialistas, "O Capital", o qual sem o mínimo conhecimento dele você não pode ser considerado um socialista de verdade. Além disso, os socialistas tomaram o monopólio da esquerda, ou seja, se você é pró-mercado, livre-comércio e coisas deste tipo, então você é de direita, reaça, essas coisas (mesmo que defenda o direito de escolha do aborto, a legalização da maconha, a não intervenção, etc). Conquistaram também o monopólio do altruísmo, dizendo que 'capitalistas' que fazem 'doações', na verdade, dão esmolas, e só o Estado pode salvar as pessoas da grande opressão do Capital. Tal qual aqueles que acreditam na salvação única de Jesus Cristo, eles acreditam na única salvação através do socialismo de se livrarem do "capital especulativo", "interesses privados" e "ganância do rico". E, dentro da própria esquerda, alguns tomaram o monopólio de Marx, portanto, como a Luciana Genro dando fora no Danilo Gentili pedindo para ele estudar, esta parte da esquerda não reconhece a influencia de Marx em regimes Stalinistas, Maoístas ou como o praticado pela Coréia do Norte.

Assim como aquela pessoa que culpa o "Diabo" por todos os problemas no mundo e o "demônio" por todos os problemas na sua vida, o socialista culpa o capitalistasmo, o livre mercado e os interesses dos grandes capitais por todos os pobres no planeta, por todas as pessoas que passam fome, pela desigualdade social e pelo controle do capital por 1% da população.

Neste momento fico pensando em como o mundo deveria ser mais interessante sem uma Revolução Francesa, uma Revolução Industrial, o avião, o computador, a internet, o WiFi. Talvez devêssemos viver em algum tipo de feudalismo, presos aos encantos de nossos senhores e devendo toda a sorte de bens à eles e assim conseguiríamos respirar a liberdade de não ter interesses bancários sobre as nossas cabeças.

Embora eu tenha um coração libertário, sei reconhecer alguns papis do Estados em nossas vidas e, por isso, acho que ele deva existir para garantir os fatores mais básicos de nossa existência. Mesmo assim, um socialista dificilmente se curva ou reconhece as deficiências de um Estado, para ele o mal da sociedade está no capital. Isso é fácil de se perceber até no desenvolvimento de grandes estudiosoa. Um grande historiador como Erick Hobsbawn quando narra o estilo de vida na Revolução Industrial, só consegue se prender a questões como a quantidade de pessoas nas ruas, a precariedade da vida nos centros urbanos e da "hipocrisia" da burguesia no seu estilo de vida. Na 2° Guerra Mundial, um movimento como o fascismo, que possui características tanto de esquerda como de direita, é taxado como direita para isentar a esquerda de sua cooperação, mesmo que ideológica. Em se tratando de contemporaneidade, poucos reconhecem os genocídios cometidos pela União Soviética ou a China de Mao - e quando reconhecem dizem que aquilo não é ou foi socialismo -, mas em se tratando de culpar os americanos, não se importam em enumerar as mais de 500 invasões ou violações a soberania. Não pensam que fazem isso porque eles querem "ajudar" o mundo, mas porque os americanos são um dos maiores exemplos de capitalismo (embora não tanto liberal). Assim como o fundamentalista religioso, o socialista tem uma dificuldade em reconhecer os seus principais erros. Para ele, o mundo se centra em sua teoria e assim tudo se justifica.

Escrevo este artigo andando de trem e acabo de passar por um conjunto de casas feitas de papelão, pessoas sem saneamento básico, luz e vivendo em situação insalubre. Vejo também pessoas usando crack e sentadas próximas aos trilhos. A análise socialista olha para essas pessoas e pensa "capitalismo maldito" e esquece que o mesmo Estado que ela tanto defende esqueceu aquelas pessoas. Se estivesse no poder, o socialista pensaria "vou destinar os dinheiros aos pobres, vou salvar a vida deles e taxar os ricos" e esquece de que os "ricos" são os maiores detentores das oportunidades de trabalho para aqueles pobres. Para resolver isso o socialista diz "se o rico não quer dar trabalho, vou criar obras sociais, expandir o Estado" e assim vai construindo um Estado socialista, passando por cima dos interesses individuais e se achando "Deus" ao ponto de matar o Diabo (Capital) e resolver todas as mazelas do mundo e problemas do mundo. O socialista acha que só ele defende os Direitos Humanos, as minorias e pobres, seria o "Jesus" dos pobres. Que o diga Hugo Chávez, que fizeram uma oração do pai nosso para ele.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Democracia – o deus que ainda manca

Como diria Winston Churchill: "A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos".

Talvez ele tenha razão, é possível que não haja uma forma de governo testada melhor do que a democracia. Fato este observado, principalmente, nas causas que levaram à Segunda Guerra Mundial, que fora o descrédito com o liberalismo político e ascenção do fascismo como teoria política sobreposta a democracia.

Tendo este aspecto do fascismo realçado, qualquer crítica ao sistema democrático é apontada como fascista. Esta atitude “fascista” dos democratas não permite que a democracia seja questionada nem, muito menos, de que novas formas de governo sejam testadas.

A lógica democrática é mesmo interessante. No livro “AK-47 – A arma que transformou a guerra”, no seu capítulo 4, conta a história de Charles Taylor, um soldado paramilitar que combatia as forças liberianas e acabou sendo preso em prisão americana. Depois de uma espetacular fuga cinematográfica de uma das prisões, ele volta à Libéria e continua a sua guerra ao governo. Neste interim, Taylor usa crianças como soldados em seus grupos milicianos e as alicia dando em troca um carrinho de brinquedo e uma AK-47. Com esta arma em mãos, associado ao tráfico internacional de armas e apoio da indústria bélica soviética, Taylor impõe uma economia no qual a AK-47 se torna moeda de troca para muitas coisas na Libéria. E assim, como o próprio título do capítulo propõe, a arma se torna quase que um “cartão de crédito” no direito a adquirir bens materiais.

Acontece que, entre 1997-2003, ele foi presidente da Libéria eleito com uma média de 75% dos votos. Primeiramente, a porcentagem tão alta não demonstra a capacidade da população liberiana em escolher um grande líder, senão ao poder militar que ele representava no país e o medo que ele impunha a população. Não bastando ele ter sido eleito, as potências Ocidentais reconheceram o caráter democrático das eleições e a legitimidade de Taylor. Pronto, estava feito a cagada.

Taylor não só promoveu uma chacina em seu Estado e na Serra Leoa, matando homens, mulheres, crianças e idosos, sendo condenado pela Corte Especial para Serra Leoa, como também liberou passaportes diplomáticos e vistos para dezenas ou centenas de criminosos traficantes de pessoas, diamantes, armas e drogas em seu país. Ainda assim, em nenhum momento ele foi deposto ou poderia ter sido enfrentado pelo seu próprio povo – que não tinha nem instrução nem poder bélico para isso.

Levando-se em consideração outro exemplo, a Constituição cubana é um forte indício da confusão que há no conceito democrático. Para os socialistas e comunistas não há exemplo mais forte de democracia do que Cuba. Ela não só ressalta isso em sua Constituição, como também possui grandes centros em que as pessoas podem debater política, interesses públicos, gestão de recursos, etc. Acontece que, para boa parte do mundo ocidental, Cuba é considerada uma ditadura; não só pelo caráter “monarquista” ou “ditador” de seu líder, como também pela perseguição aos jornalistas, emigrantes e também aos propagadores contrários ao regime. No entanto, logo no seu primeiro artigo, a Constituição já se proclama como uma república democrática.

artículo 1o.- Cuba es un Estado socialista de trabajadores, independiente y soberano, organizado con todos y para el bien de todos, como República unitaria y democrática, para el disfrute de la libertad política, la justicia social, el bienestar individual y colectivo y la solidaridad humana.”

E para terminar esta questão de democracia, nada melhor do que a Constituição venezuelana. Entre os constituicionalistas, esta é uma das constituições mais democráticas do mundo. Ela abre espaço para diversos setores, participação popular através de plebiscitos e referendos, demarcação de territórios indígenas, etc. No entanto, quando se faz uma análise da política tradicional chavista, o que se percebe é um governo que constantemente precisa trocar os seus Ministros, pois não consegue satisfazer as necessidades econômicas mais básicas do seu povo, faltando até mesmo papel higiênico nas prateleiras dos supermercados, um controle absurdo das pessoas, no qual o último foi estabelecer um decreto exigindo um leitor biométrico em todos os supermercados e constantes conflitos com a oposição, levando jovens cada vez mais insatisfeitos às ruas e passeatas cobrando, cada vez mais, posturas diferentes do governo. Ainda assim, é um governo “superdemocrático”, no qual também persegue jornalistas, não aceita discurso da oposição e tenta, até mesmo, beatificar o ex-presidente Hugo Chávez.

Tudo bem então, onde está "mancando" a democracia?

Em muitos aspectos, mas os que vou destacar são no fato de que não há um consenso sobre qual é a melhor forma e interpretação sobre o que é a democracia e, em segundo, que é considerar que todos os cidadãos sejam politizados e interessados em política.

A primeira questão levantada é bem relativa. A democracia, por si só, permite diversas interpretações, adaptação e contextualização do local em que ela se insere. Tanto o é que em muitos Estados se optam por um regime Parlamentar e em outros Republicanos. Em uns o Primeiro-Ministro tem mais força que o Presidente, em outros nem Primeiro-Ministro tem, e por ai vai. Neste sentido, há o fator negativo de não se ter uma definição exata de democracia mas há um fator positivo que se sobressai ao anterior, que é a liberdade de um Estado formar aquilo que terá mais a ver com o seu desenvolvimento, cultura e população.

Já com relação a segunda questão, acho ela mais grave. Primeiramente, é uma utopia achar que todos seremos politizados simplesmente pelo fato de que nem todos se interessam ou gostam de política. Neste sentido, o regime democrático acaba sendo uma imposição de ideias daqueles que “melhor vendem o seu peixe” e não daqueles que efetivamente planejam desenvolver um Estado, trazer justiça e melhores oportunidades para todos. Exemplo bem simples de entender isto é uma reunião de um Colegiado de um curso de faculdade. Embora todos no curso tenham representatividade e seja aberto para emitir opiniões, muitos não vão as reuniões porque não gostam, não querem, não estão afim, não tem tempo...enfim, não vão. Dos que vão, nem todos vão emitir opiniões, seja por serem tímidos, não concordarem com o que está sendo dito e ficarem com medo de se expor, seja por estarem ali só observando e ouvindo ou, até mesmo, porque só foram ali por causa de uma amizade. Por fim, irá falar e ser eleita a pessoa mais ousada, descolada, interessada e empenhada. A pessoa que se põe a frente é alguém que “abraça a causa” e vai em busca daquilo que considera melhor para o seu curso. Isso, de fato, possui algo intrisicamente positivo pois esta pessoa estará lutando pela melhoria da qualidade do curso e de questões relacionadas a ele. Afinal de contas, tirando algumas questões pontuais, todos querem estudar em um curso melhor e, se estão ali naquele curso, é porque possuem algumas ideias em comum. Mas, ainda assim, muitas das ideias que esta pessoa defende não representam o que todos pensam, senão aqueles que venceram a votação.

Agora leve esta questão para termos de cidade, estado ou país. Imagine quantas pessoas não são interessadas em políticas, não querem ir, não possuem estudo ou se enquadram em alguma das outras situações citadas. Ao contrário do Colegiado, aqui ganha não o que está mais engajado ou tem boas intenções, mas os que possuem os maiores recursos para propagarem suas ideias, os que estão mais dispostos a “ceder” para interesses escusos (que vão apoiá-los) ou que são mais conhecidos pela população, seja por suas ideias ou pela propagação de sua imagem. Não só bastando isso, entra também um grande “marketing” que propaga a imagem do candidato ideal interferindo em fatores extrasensoriais tais como apelando para o emocional do ser a ideia de ser o melhor candidato, o mais preparado, o que tem mais “boas intenções” ou que é o melhor articulista. Por fim, o que irá ganhar não será o que tem o melhor plano de governo (pode até ser que sim) necessariamente, mas o que conseguir melhor passar isso para o seu eleitorado – seja através da violência, como fez Taylor ou da supressão de liberdade individuais, como em Cuba, ou simplesmente através do marketing, financiamento e propagação da imagem do candidato.

Para finalizar, nem todos os seres humanos são interessados em política, nem nunca todos vão ser. Algumas pessoas são apaixonados por artes e, jamais, assistiram, sequer, um debate político - não por ignorância, mas porque não gostam. Outros não possuem conhecimento suficiente para saber o que vai ser melhor para as suas vidas e votam naqueles que melhor passam a mensagem de que serão melhores para eles. Outros ainda são apaixonados por política, estudam, assistem todos os debates, mas são pautados por suas ideologias na hora de votar, o que não permite a escolha, algumas vezes, de candidatos que seriam eficientes (pode ser até o meu caso algumas vezes). E neste caso, deixo aqui como exemplo o candidato a presidência brasileira Eduardo Jorge do PV que, por mais que tenha boas intenções e demonstre firmeza em algumas falas, jamais seria escolhido pelo eleitorado simplesmente por não maquear os seus discursos, não ter financiamento para propagar sua imagem e nem utilizar-se de palavras prontas ou discursos de impacto psicológico para conquistar o eleito. Isso não significa que votarei nele, mas apenas que, mesmo que ele fosse o melhor candidato do planeta Terra, ainda assim não seria o escolhido por não fazer a imagem de melhor “enganador” o qual a democracia propõe.

Ainda tem muito para se falar sobre isso, mas encerro por aqui por hoje. 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Quanto mais Estado, menos eficiência


Por que um Estado forte e grande dificilmente será eficiente?

A resposta para esta pergunta é mais simples do que parece. Ele simplesmente não será eficiente porque ele não é onipotente, onisciente nem onipresente.

O Estado é uma figura interessante. Retratado como o grande Leviatã (figura mitológica relacionada a um monstro marítimo) por Thomas Hobbes, ele sempre foi tido como o defensor do cidadão - conceito este que também se modificou ao longo dos séculos. O real propósito do Estado era proteger os seus cidadãos do que seria o "estado de natureza"do homem, uma condição na qual a humanidade seria rebelde, doentia, assassina e conflituosa. Com isso, este propósito do Estado o tornou um apaziguador de problemas, ele estaria aqui para nos proteger de nós mesmos e do mal que seria a vida sem a sua existência. A partir dai, vai se desenvolver o debate de até onde deve ir o Estado, suas formas de governo e o que seria melhor para um povo.

Entretanto, na sua natural evolução política, o Estado encontrou uma forma que é endeusada pelo Ocidente e conhecida como democracia. Regime encontrado pela primeira vez nos registros históricos grego, ele dava a oportunidade dos cidadãos escolherem os seus representantes e a partir deles seriam delegadas as funções, leis e ajustes para melhor administrar o Estado.O problema, já apontado por Platão - séculos antes de Cristo -, deste tipo de regime, era que os mais pobres não tinham tempo para participar das assembléias e debates para decidir quais seriam as melhores decisões a serem tomadas e que seriam positivas para toda a sociedade, eles teriam que estar trabalhando para se sustentarem ao invés de discutir política. Neste sentido, a democracia grega se tornou uma concentração de poder na mão das elites gregas, que utilizavam o aparato democrático para que as decisões tomadas viessem não a favorecer o povo,mas a eles mesmos.

O regime democrático morreu durante séculos e voltou a renascer a partir dos eventos subsequentes a Revolução Francesa. A partir de então, começaram a cair os regimes imperiais e monárquicos para dar lugar ao direito de voto e participação cidadã através do republicanismo. Neste processo, a Revolução Industrial modificou o mundo, as cidades urbanas se expandiram, a democracia se fortaleceu e o papel do voto e da representatividade passaram a fazer maior parte da vida das pessoas.

No entanto, a característica inicial do Estado permaneceu. Assim como um deus mitológico, ou um demônio dos mares, o Estado permaneceu como sendo o principal ator em defesa do seu povo, de seus cidadãos e dos seus interesses. O que, no entanto, é um pouco contraditório, é como que diversas opiniões e divergências dentro de um Estado seriam responsáveis pela sua eficiência e, ao mesmo tempo, fortalecimento da democracia. A figura do Estado tal qual ela continua estabelecida faz com que ele se torne o responsável por todas as soluções dos problemas que ocorrem dentro dele e, muitas vezes, fora através da Política Externa - algo materialmente impossível.

O Estado é administrado por homens que possuem a função de vigiá-lo, regulá-lo e administrar, da melhor maneira possível, todos os recursos do qual ele possui e arrecada. O problema, além dos já apontados no começo, também volta a aparecer quando perguntas simples são levantadas, tais como "A quem se destinarão os recursos obtidos pelo Estado?", "Como serão obtidos os recursos do Estado?", "Quem administrará esses recursos?". E com essas perguntas, voltamos não só a dilemas atuais, mas àqueles apresentados por Platão há mais de 2 milênios atrás.

O Estado tem a peculiaridade de aparentar uma aparência altruísta. Afinal, imagine que um grupo de pessoas que morem juntas precisem de uma máquina de lavar roupas para as ajudar no dia a dia. Levando-se em consideração que todas elas possuem algum tipo de renda, o que seria mais fácil e justo; alguma delas comprar a máquina sozinha para o uso de todos ou que cada um contribuísse com uma quantia para que todos pudessem usar? Partindo somente desta hipótese, sairia muito mais em conta se cada um pudesse ajudar com uma pequena quantia. De maneira bem simples, assim também deveria ser o Estado através do que se convencionou chamar de impostos, porém não o é.

Dentro de um Estado existem, nos dias atuais, milhões de seres humanos, cada um com um pensamento sobre a vida e o mundo e com necessidades pessoais e diferentes. Como poderia então uma entidade estatal estabelecer o que é melhor ou pior para cada uma delas? Como pode o Estado saber a quantidade de veículos, comida, vestimenta ou lazer que cada um quer ou precisa? É simplesmente impossível, ainda que o Estado fosse uma super máquina de computador. Ainda assim, na tentativa de minimizar esta realidade, tentou-se dividí-lo em federações, que por fim, foram divididas em regiões, estados cidades e municípios.

Comparando este ente a uma empresa, fica mais fácil de entender a real natureza do problema. Vamos pegar a Coca-Cola, que possui um futuramente que bate o PIB de muitos Estados pelo mundo. Quando a Coca-Cola resolve agir sobre um determinado problema, qual é o foco dela? O cliente. Tudo bem, mas, teoricamente, qual é o carro chefe deste cliente? O refrigerante de cola. A partir desta pequeníssima análise de mercado, percebe-se que a demanda principal dos clientes de Coca-Cola é o refrigerante. Logo, qualquer problema de insatisfação com a empresa será focado, principalmente, neste produto.

Passado este pequeníssimo exemplo de uma grande marca, qual é o cliente do Estado? Quem é ou deveria ser o maior beneficiado do Estado? Existe algum tipo de cliente específico? Não! Todos nós somos os clientes. Todos os cidadãos merecem ser atendidos. Todos os cidadãos merecem ter seus direitos básicos atendidos. Todos deveríamos ser beneficiados. A questão é, somos mesmo todos atendidos? Temos todas as nossas demandas resolvidas? A propósito, possuem todas as pessoas o mesmo direito, a mesma renda ou as mesmas oportunidades? Concede o Estado esta vida plena e bela que nos oferece? Deixo você mesmo pensar na resposta.

Com a tentativa de se chegar a este consenso comum, diversas teorias políticas surgiram na prática. Dentre elas o comunismo, o fascismo, o socialismo, a monarquia, a ditadura, o conservadorismo, o liberalismo,etc. E, embora algumas delas tentam afirmar que diminuem o Estado, poucas ou nenhuma, de fato, fez isso até hoje.


No momento em que um grupo que se diz liberal econômico empodera uma classe de pessoas proveitando-se dos mecanismos estatais, a minimização do Estado já deixou de existir e se torna uma realidade distante. Assim que um Estado entra em guerra com os demais, a ideia de ser mínimo se torna também distante pois é necessário que ele se torne cada vez mais forte militarmente para defendera si mesmo e atacar os demais. Desta forma, se percebe que fortalecer o Estado não é senão uma ideia que entra em contradição com a questão da eficiência. Se assim o é, por que, cada vez mais, as pessoas cobram um Estado eficiente e representativo? Não seria uma contradição?

O argumento trazido por aqueles que defendem tal situação, tem a ver com o fato de que a divisão de rendas não é igualitária e que, por isso, o Estado deveria agir na tentativa de minimizar esta realidade. Mas, pensando bem, voltando a Platão, como seria possível isto tendo em vista que os que estão no poder representam o poder daqueles que são da "elite"? Como fazer isso se eles defendem os interesses daquele grupo? Não seria melhor então fazer com que os mais pobres pudessem participar deste debate e pudessem também escolher o que seria melhor para eles? E aqui entramos em um ciclo sem fim do que seria melhor para cada um.

Pensando neste problema, Platão indicou um regime no qual um grande sábio governasse a sociedade. Este se torna também uma utopia, porque, por fim, este sábio não teria os mesmos poderes dos quais falei no começo deste artigo. Já Aristóteles, aluno de Platão, propõe um regime conhecido como "Politéia", no qual o povo seria o seu próprio "guia". Mas, afinal, sabe o povo o que é melhor para o próprio povo? Pode, por exemplo, um consumidor exclusivo de motos saber o que é melhor para um consumidor exclusivo de carros? Ou um heterossexual saber o que é melhor para um homossexual? Ou um Estado saber o que é melhor para você ou outros Estados? A resposta, novamente, é não, não há como.

E assim, ao longo da história, se convencionou que apoderar este ente, seja dando privilégios a uma elite comercial, militar, monarca, republicana, empresarial, civil ou, até mesmo, trabalhadora, seria o mais convencional e prático para tentar resolver os problemas. Poucos pensaram ou pensam na real natureza ineficiente e imprecisa do Estado, já que este, como um ser sobrenatural e acima de todos, teria, teoricamente, o poder de afastar todos os maus e trazer todos os bens para a sociedade.

O Estado, por natureza, beneficiará a uma elite ou um grupo. Pode assumir qualquer grupo ou pessoa que, mais cedo ou mais tarde, uma elite se beneficiará - por mais que traga resultados, como hoje é o caso da China. Para isso, existem dois caminhos, no qual um deles é empoderar o Estado de tal maneira que as suas decisões não possam ser questionadas de maneira alguma, e ai teremos Estados como a China, que priva a liberdade de seus cidadãos em detrimento a um desenvolvimento ou aos Estados Unidos, que promovem uma liberdade relativa aos seus cidadãos, mas privam ou limitam muitos outros ao redor do mundo. De um lado temos uma elite que se fortalece com a mão de ferro dentro do seu Estado e, do outro, que se fortalece fora de seu Estado.


Seja qual for o lado, para dentro ou para fora, se seremos governados por um sábio ou por um grupo, se teremos democracia direta ou uma ditadura sem limites, algo é certo.Quanto mais se apodera este ente divino chamado Estado, menos eficiência temos na vida e mais um grupo se declara defensor disso ou daquilo para defender os seus interesses. Na tentativa de se solucionar e remediar este problema, somente a diminuição do Estado ao ponto de que ele não interfira na decisão de pequenos grupos e indivíduos, de forma que o Estado não tenha forças para apoderar um ou outro grupo, só assim alcançarem os as nossas maiores demandas, que é um mundo de paz, desenvolvimento e justiça. Mas a solução, não deixo para que eu desenvolva, mas cada um que tenha a capacidade de saber o que é melhor para si e para o seu próximo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Mundo em crise – estamos indo em direção ao precipício?

O sistema internacional nunca possuiu tantos mecanismos de se evitar um conflito em escala mundial. Seja através do comércio internacional, do direito internacional ou dos acordos entre os Estados, não houve nenhum outro momento na história com tantos arranjos e tentativas de conciliação ou aproximação entre os Estados.

Isto, de certa forma, alivia a pressão de um grande conflito entre as grandes potências ou guerras maiores que possam vir a influenciar todo o sistema, acarretando em um conflito de proporções mundiais.

No entanto, analisando o contexto do momento, parece que alguém resolveu reacender o pavio de uma grande bomba que pode pôr todos esses acordos e arranjos pelos ares. A começar pelo fato de que se tornou comum confrontar a hegemonia, ou o domínio de poder, americano. Seja através da economia, como veio fazendo a China ao longo dos últimos anos, ou militar, como fez a Rússia impedindo os americanos de entrar na Síria, ou ideologicamente, como faz o Estado Islâmico propagando o ódio contra o Ocidente e querendo implantar um novo Estado em pleno Oriente Médio; os EUA já não apresentam o mesmo poder estratégico que possuíam antes do 11 de setembro de 2001.

Além de tudo isso, temos uma economia européia em recuperação, um conflito militar ocorrendo em território ucraniano, um dos vírus mais mortais existente atualmente se disseminando pela África – o Ebola –, o conflito entre Israel e Palestinos (se repetindo), uma guerra civil com mais de 200 mil civis mortos na Síria, uma crise de Estado no Iraque e, o pior pesadelo do Ocidente, um novo grupo terrorista que mais parece uma Empresa Terrorista, causando terror e atrocidades por onde passa na Síria e no Iraque.

Tudo isto seriam eventos normais não fosse por um pequeno detalhe, todos eles possuem, de alguma maneira, o envolvimento dos maiores “players” do cenário internacional. O conflito na Ucrânia possui envolvimentos claros e cada vez mais evidentes da relação direta da Rússia com os rebeldes. Acontece que a região é uma importante transportadora de petróleo para a Europa. O fornecimento dele é russo, mas os mais importantes oleodutos passam por território ucraniano. Novamente, isto não deveria ser um grande problema, já que a Rússia, mesmo se fosse o caso de tomar o território ucraniano, poderia continuar fornecendo petróleo para a Europa. O problema aqui é que ultrapassa o significado econômico e passa a entrar na questão do direito internacional de soberania.

Desde que Putin assumiu o comando do país russo, ele tem demonstrado interesses expansionista na região, seja ele em forma de ampliar os acordos comerciais formando um bloco russo-asiático, ou invadindo outros Estados, como a Geórgia e a Criméia, e ampliando a sua influência e território. Tudo isso, eleva o temor dos Estados europeus de que eles sejam os próximos alvos, perpassando os interesses econômicos e se tornando um interesse territorial. Esta história tem levado a incansáveis brigas retóricas que tem deixado a situação na região cada vez mais instáveis.

Na África, o inimigo é outro, invisível a olho nu e não possui fronteiras, é o Ebola. Ele já matou mais de 2 mil pessoas e a OMS já o classificou como um problema de risco mundial. Não bastando isso, novas estatísticas demonstram que podem haver entre 20-30 mil pessoas infectadas e o risco de se espalhar por outros países é grande. O pior de tudo foi no início deste mês, homens armados invadiram uma enfermaria onde havia pacientes com Ebola, fizeram escapar, aproximadamente, 20 deles que estavam em quarentena e roubaram roupas de cama de pacientes infectados. Até agora não se sabe o destino final destes pacientes nem das roupas de cama que usavam.

No Oriente Médio, o caos está generalizado. São os Estados que tentam se recuperar de uma “Primavera Árabe” que se tornou um “Inverno Árabe”, é o conflito interminável entre palestinos e israelenses, uma guerra civil na Síria, a instabilidade no Iraque e, por fim, a mais nova ameaça ao Ocidente – o Estado Islâmico.

Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo tem acabado com as noites de sono do Presidente americano, o senhor temporário da maior potência militar e econômica do planeta. O Presidente Barack Obama perdeu as suas férias para cuidar de assuntos que vão desde a segurança nacional até internacional e, ainda assim, não tem sido suficiente para trazer solução para os conflitos que ocorrem no mundo.

A instabilidade do momento é reflexo da queda de poder americana, que não consegue mais administrar o mundo tentando estar presente em cada conflito ou problema que ocorre. E o mais perigoso disso tudo é que tudo isto acontece em um momento em que, ao mesmo tempo que o sistema internacional cobra uma posição enérgica dos Estados Unidos perante o que ocorre, cobra também explicações dos motivos pelos quais os americanos vigiavam o mundo inteiro e utilizavam estas informações a seu favor.

Por mais que os arranjos e acordos internacionais permitam que o mundo goze de uma certa “estabilidade” de um conflito mundial, eles parecem não ser mais suficientes para impedir que, pouco a pouco, apareçam elementos que desafiem esta lógica de acordos entre os Estados. Pouco a pouco, a economia globalizada, como é o caso do petróleo passando pela Ucrânia para chegar à Europa, se torna insuficiente para segurar conflitos regionais.

Diante deste cenário estranho a pergunta que se faz é: estamos a beira do precipício?

Um dos motivos que foram precursores para a Segunda Guerra Mundial foi o argumento de Hitler ao invadir a Polônia dizendo que estava salvando os seus compatriotas – argumento nada diferente do usado por Putin ao invadir a Criméia e agora o Leste da Ucrânia. Para início da Primeira Guerra, além de todos os problemas que ocorriam naquele momento entre os Estado, apenas a morte do arque-duque Ferdinando foi suficiente para deflagrar em um grande conflito. Quando a primeira guerra terminou, ocorreu uma das maiores epidemias do planeta, a gripe espanhola. Ela já existia, mas em sua forma latente. Com os conflitos, a transação de muitos militares por outros territórios e a insalubridade decorrente da guerra, a doença se tornou mais fácil de se propagar em território europeu. E um cenário de guerra agora seria a porta de entrada para uma grande propagação do Ebola.

Ainda temos elementos dos quais não citei, como Edward Snowden, Julian Assange, Coreia do Norte, conflito entre Japão e China (sul do mar do Japão) e por ai vai...

A questão grand-finale que ficará para o tempo responder é: será o sistema internacional suficiente para dar conta de todos estes problemas e se sustentar sem um enfrentamento direto entre as potências? Nossos acordos multilaterais, diretos e bilaterais serão suficientes para segurar a vontade de guerrear? Conseguiremos passar por mais esta “Guerra Fria” sem que o mundo se acabe em ogivas nucleares?

Somente o futuro nos responderá. E espero estar vivo para contar como passamos sufoco neste momento e que tudo não passou de um susto e mal entendido.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A questão da natureza humana e o conflito entre Israel e Palestina



É muito comum ouvirmos alguém perguntar o porquê de tanta maldade no mundo. Porém, iniciarei este artigo com uma retórica diferente. Por que existem tantas pessoas que fazem o bem neste mundo? O que leva tantos muçulmanos diante de um mundo no qual acredita que em sua maioria eles são extremistas (o que não é verdade) a realizar obras de caridade e ajudar o próximo? Como pode uma pessoa ajudar outro ser estando em um território em que acontece a guerra, fome e morte? Como podem tantos judeus ou maçons, que são tidos por muitos como o mal do mundo e a hegemonia do poder bancário e financeiro, doarem milhões de dólares todos os anos para a caridade? Mais ainda, como pode você, diante de um mundo em que as notícias mostram pais matando filhos, irmãos e amigos se traindo, brigas de transito levando a mortes, bandidos assaltando a todo o momento e, ainda assim, querer se tornar alguém melhor ajudando o próximo e a si mesmo?

A questão da natureza humana é bastante profunda. Em se tratando deste assunto você verá opiniões bastante embasadas e diferentes uma das outras. Eu vou apresentar a minha opinião e percepção sobre ela dialogando com o pouco que tenho aprendido nos últimos anos de estudos pessoais e faculdade.

A natureza humana sempre foi alvo da análise de grandes pensadores. Isso pode ser observado desde Sócrates e Platão até os homens da ciência nos dias atuais debatendo sobre ela através das influências biológicas e cosmológicas. E neste ponto de embate, há sempre os que são extremamente idealistas, ao ponto de acreditar que ela é muito boa e também, extremamente “realista”, ao ponto de acharem que ela é completamente má. Neste quesito, discordo de ambas as opiniões e fico com as ciências biológicas, na qual realçam a natureza animal do ser humano e seus instintos (não sendo eles bons ou ruins); ainda assim, esta ciência não é suficiente para explicar em profundidade a essência humana de existir e, principalmente, querer fazer o bem.

Nos conflitos internacionais, é rotineira a análise do contexto que envolve o tradicional problema. Neste caso, há milhares de especialistas em tudo o que se possa imaginar, trazendo a tona toda a causa e efeito do que se passa. Porém, mesmo que o contexto seja levado em consideração, dificilmente a abordagem sobre a natureza humana será levantada em um debate. Tudo isto ocorre porque ao se analisar um contexto amplo, como, por exemplo, o conflito Palestina x Israel, será considerado todo o interesse econômico, financeiro, armamentício, militar, histórico, geográfico e geopolítico por trás do conflito e não o que está por trás destes motivos. E embora muitas dessas análises sejam todas muito bem fundamentadas, elas costumam se garantir somente em suas análises e informações ignorando o outro lado. Tudo isso leva a um grande conflito de ideias no qual a disputa principal se torna a de “quem está correto” e o debate, por fim, acaba se tornando aquele no qual o mais dramático ou o mais fundamentado argumentativamente (naquele momento), ganha.

Passado este parágrafo de reflexão, o que diriam os grandes contribuidores do pensamento político do mundo? Bom, a maioria deles abordou, mesmo que de forma singela – ou não – a questão da natureza humana. E assim fez Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Thomas Hobbes, John Locke, Rousseau, Maquiavel, Kant e outros. Todos eles, de sua maneira, abordaram a questão da natureza humana e com isso desenvolveram suas teorias sobre a Política, o Homem, a disputa de poder e o mundo. Um exemplo rápido disso é que a compreensão do pensamento dos autores realistas em Relações Internacionais, a qual é acompanhada pela crença na disputa de poder entre os Estados, da maldade na natureza humana e da vida antes do Estado (estado de natureza), vinda do autor Thomas Hobbes. Assim como para o materialismo e capitalismo, John Locke foi um grande produtor de teorias que justificassem a atitudes do sistema tendo em vista a criação divina do homem e sua posterior “rebelião”.

Seja qual for a teoria, percebe-se que antes que chegássemos a toda esta complexidade que existe hoje de teorias tentando justificar, compreender e culpar os acontecimentos no mundo, o homem foi objeto de análise em algum momento, mesmo que tenha sido no princípio destas.

Precisei falar um pouco dessas questões para abordar o que penso sobre o tema. Acredito que na formação dessas teorias sobre o homem não havia a ajuda de um setor que hoje está muito mais avançado – o científico. Ainda assim, mesmo com este avanço científico e que pode identificar a origem da natureza humana, ele não é suficiente para identificar a essência humana ou a razão do viver, o que simplesmente dá o fôlego de vida, responde as questões mais transcendentais e faz com que o ser humano faça o bem e queira o progresso. E isto está, justamente, relacionado ao espírito humano e não as respostas científicas (embora os mais materialistas vão encontrar respostas para tal, utilizando-se da genética, psicologia ou outras fontes).

O ser humano possui uma natureza animal devido a sua evolução biológica ao longo dos milhões de anos de adaptação. Mesmo assim, somos a única espécie no planeta dotada de razão, poder de escolha e capacidade de adaptar os meios para nós, ao invés de somente nos adaptarmos ao meio – como os animais. Esta capacidade do ser humano o torna único na face da terra, levando-nos até a civilização em que temos em nossos dias atuais. No entanto, embora tenhamos a capacidade de refletir sobre o que fazemos e tomarmos escolhas sobre nossas atitudes, é a natureza animal que continua prevalecendo em nós ao invés da espiritual.

O avanço científico nos permitiu e permite vislumbrar tudo o que podemos construir e o que queremos ser, mas, ao mesmo tempo, não permite uma revolução interna no ser humano. Quando um conflito é analisado tal como o de Israel e Palestina, muitos culpados são procurados, desde o Hamas até Israel. Com isso, alguns aproveitam o momento para culpar o capitalismo, assim como o sistema financeiro internacional, os americanos, a ONU, os judeus, o Hamas, etc. Em todo este contexto, é analisada a realidade histórica da região, o crescimento demográfico, o desenvolvimento econômico e até mesmo as religiões ali presentes, no entanto, fica esquecido completamente quem é o responsável por construir tudo isto, desde o sistema econômico até a realidade histórica – o próprio ser humano.

Neste sentido, aparecem cada vez mais culpados e tudo se acumula. Primeiro, porque nem todo o conhecimento do mundo pode ser absorvido. Isto significa que, nem tudo o que um analista estudou será o que o outro analista estudou; afinal, eles não vivem juntos em uma mesma mentalidade e pesquisa. Por fim, a briga entre dois analistas torna-se uma disputa de quem convence melhor e de quem argumenta mais, mas não o de encontrar uma solução efetiva para o caso. E assim, a realidade daquele que é responsável por aquilo – todos nós –, é cada vez mais deixada de lado.

O ser humano, na tentativa de compreender a sua real natureza, conseguiu fazê-la através das Ciências, porém não soube o que fazer com essas informações que vem descobrindo. Ele conseguiu entender as nuances da sua formação material e, inclusive, entender algumas de suas emoções, como o faz a psicologia. Construiu diferentes áreas do saber, tornou complexa a relação entre os seres, expandiu a tecnologia, mas, muitas vezes se esquece dele mesmo – da sua própria capacidade de transformação e adaptação perante a realidade.

Com isso eu retorno a pergunta que fiz no início deste texto: como pode alguém fazer o bem no meio de toda esta confusão? Como podem existir tantas pessoas boas no mundo? (elas são maioria, por mais que não ache) O que leva um ser humano a realizar um bem no meio a tanto mal? E nisto entramos na questão do bem e mal e da espiritualidade humana.

Não se tratando aqui de qualquer religião que seja, mas levando-se em consideração todas elas, somente o investimento no espírito humano – seu caráter, sua moral e sua identidade – pode mudar a realidade de Israel, Palestina e qualquer outro conflito no mundo. Por mais que medidas importantes como a criação do Estado da Palestina, a retirada dos embargos por Israel, a retirada de todo armamento do Hamas da região da Faixa de Gaza e, utopicamente, até mesmo uma união entre os povos palestinos e israelenses, ainda assim, não seria o suficiente para trazer uma completa paz.

Por exemplo, você saberia me dizer como se encontra a situação da Alemanha recentemente? Bem, não é? Agora, pode se lembrar do que ela fez há, aproximadamente, 70 anos atrás com os judeus, ciganos, maçons, negros, etc? E qual o motivo de ainda existirem neonazistas no mundo? Será que o que ela fez não foi suficiente para mostrar o mundo o mal que o nazismo fez e é? Será que o que Hitler fez não foi trágico o suficiente para revelar ao mundo o mal que podemos fazer odiando o próximo? Pois então. Todas essas perguntas foram utilizadas para mostrar que uma resolução no campo material não resolve uma questão no campo interior do ser humano – no aspecto da moral, do caráter e da evolução espiritual. A Alemanha é hoje um país exemplar para o mundo, a começar pelo comportamento dos jogadores alemães na Copa do Mundo. Ela alcançou um avanço e autonomia que poucos países europeus possuem, e mesmo assim, muitos neonazistas buscam na história trágica dela – nazismo – a resposta para os problemas da humanidade.

Assim, o ser humano segue buscando, cada vez mais, culpados para o que ocorre aqui ou ali. Não estou dizendo para deixar de buscar os culpados, informações, contextos ou motivos, mas que simplesmente reflita sobre onde está a culpa, de fato.

E quando me refiro a espiritualidade, não falo sobre a busca de uma religião em si, tenho um amigo que é ateu e é uma das pessoas mais espirituais que conheço. A forma como ele trata os seres humanos, com amor, carinho e compaixão, faz dele muito mais espiritual do que qualquer judeu (ganancioso), muçulmano (radical) ou evangélico (hipócrita). Eu mesmo posso me revelar como cheio de falhas e imperfeições na qual minha natureza prevalece em muitas situações e este meu amigo se revela muito mais espiritual que eu – mesmo eu acreditando em Deus e ele não. Não são poucos os momentos em que tomo uma atitude e percebo que não era somente a minha vontade, mas o desejo de satisfação dos meus instintos que estavam por trás de alguma das minhas atitudes.

Assim como eu, a humanidade continua ainda com seus instintos básicos do reino animal quando toma muitas de suas atitudes, e é exatamente a luta contra esta natureza que fazem tantas pessoas realizarem o bem. A natureza animal é totalmente instintiva. Em nosso processo de evolução, o importante era garantir a nossa sobrevivência, a sobrevivência do grupo e a transmissão dos genes. Para isto, características como a força, o vigor, o poder, a destruição, a rapidez, a destreza e a sagacidade, eram atributos muito mais importantes para manter-se vivo, ser o líder do grupo, defender o grupo e matar as ameaças do que a compreensão, o entendimento, o acordo ou a diplomacia.

Neste processo de evolução humana, fazer o bem nada mais era do que uma necessidade de salvar o grupo ou um instinto materno/paterno com relação a prole. Junto com esta raça humana, o que interessava era a sobrevivência da espécie e sua reprodução, passando por tudo e por todos que fossem necessários. Ainda assim, ao longo da evolução humana, encontraremos pessoas como Sócrates, que deram a vida para divulgar a verdade. Buda, que abandonou a riqueza para viver com os pobres e atingir o nirvana. Jesus Cristo, que na sua humildade, ensinou um novo modo de se viver ao ser humano, quebrando a antiga lei judaica de “olho por olho e dente por dente”. Mahatma Gandhi, que venceu o poder da Inglaterra com humildade e sem pegar em armas. E você, que, vez ou outra, se pega dando uma moeda ou ajudando um desconhecido. Eu lhe pergunto, que tem isso a ver com a natureza humana?

A natureza humana se fez necessária para nos mantermos como espécie e chegarmos até o patamar de evolução que atingimos recentemente. Mas, esta mesma natureza, pode ser responsável pela nossa extinção nos próximos anos. O que todos esses Mestres, acreditando você em religião ou não, vieram nos ensinar foi que nós não necessitamos nos curvar a nossa natureza para VIVER. O próprio Maomé pregou contra a natureza da população árabe de seu tempo em adorar muitos deuses. Por mais que seja difícil demais, e eu reconheço essa dificuldade, somente superando a natureza do ser humano é que podemos nos tornar um mundo melhor. Com ela veio o nosso egoísmo (capacidade de manter o alimento para sobrevivermos), a inveja (capacidade de construir condições melhores para nós), o orgulho (capacidade de acreditarmos em nós mesmo e assim nos mantermos vivos e seguir em frente) e muitos outros atributos que fizeram nos chegar até aqui e que nos serviram muito bem em nossa evolução, mas que, neste momento estão nos destruindo.

Quando você para e analisa um conflito como o de Israel e Palestina, encontra muitos elementos ali presentes. Dentre eles encontrará uma explicação religiosa, que lhe mostrará desde a Bíblia, em Genesis, no qual alguns teólogos definem como o começo da divisão entre árabes e judeus. E para os que não sabem, esta é a mesma história que encontra-se na Torah (livro dos judeus) e, acredito eu, deve haver algum elemento neste sentido no Alcorão.

Além desta análise religiosa, você encontrará também uma análise geopolítica e econômica. Neste tipo de análise, as pessoas irão se concentrar na questão de que o Estado de Israel foi criado com o intuito de manter o domínio Ocidental – e ai você encontrará de tudo –, na região do Oriente Médio. Aqui você encontrará, inclusive, Teorias da Conspiração de que o Estado de Israel foi criado em conluio com o governo inglês e de que tudo era uma intenção de privilegiar o controle dos ocidentais as jazidas de petróleo e, também, impedir a expansão do antigo Bloco Soviético.

Além destas duas, há também uma análise mais sociológica e histórica. O mais influente dela é o autor Edward Said, que fundamentará os seus conhecimentos na ideia de que a questão oriental vem sendo uma construção europeia desde os tempos remotos a Idade Média. Além disso, nesta teoria é destrinchada também a concepção de que a expansão do Estado de Israel, somado aos constantes desentendimentos entre os vizinhos e ao apoio dos grandes países ocidentais, torna Israel um Estado muito superior em todos os sentidos ao que seria o Estado Palestino. Com isso, justifica o crescimento dos movimentos radicais e a forma como eles combatem o Estado de Israel. Aqui também é considerado a forma como Israel trata a Faixa de Gaza de sua forma histórica. Eles consideram que o tratamento dado por Israel ao local é desumano e que justificaria também o levante dos movimentos fundamentalistas como o Hamas.

Existem também outras teorias que abordam esta questão, mas por mais que eu tenha sido superficial e somente tenha demonstrado uma pequena parte delas a vocês, nenhuma delas considera a questão que abordei acima.

Sendo a natureza humana algo intrínseco a todos nós, todas essas questões englobam dentro deste tema. É natural dos povos árabes e judeus – assim como de qualquer povo – defenderem o que são seus, justamente por isto fazer parte de nossa natureza. No entanto, esta natureza que tanto nos ajudou, hoje prejudica que os palestinos, israelenses e o mundo possa admitir que a terra estava ali antes deles mesmos nascerem ou seus povos terem surgido. O orgulho que os ajudou a manter a religião e os seus alicerces espirituais ao longo dos séculos, e que também fazem muitos judeus, cristãos e muçulmanos realizarem a caridade pelo mundo, é o mesmo que hoje os impede de admitir que o que a religião deles os revelou no passado, valeu para aquele momento e hoje o mundo mudou em muitos sentidos. O egoísmo que fez aquela terra ser parte de árabes e judeus até os dias de hoje, também não os permite compartilha-la por igual entre si, pois cada um de seu “Deus” a conclamou para si. Por fim, a inveja prevalece entre os dois povos, no qual nenhum dos dois aceita que o outro tenha parte da terra.

Portanto, para finalizar, você verá muitas análises diferentes sobre o que acontece naquela região. Mas somente a capacidade de mudança interior dos homens poderá alterar, de fato, o que ocorre ali. Os judeus e palestinos, com essas três características anteriores, jamais sairão de lá. E se um deles for expulso ou perderem terreno para o outro, eles voltarão em um futuro para retomar a terra, ocorrendo um ciclo eterno de disputas e conflitos. Somente a aceitabilidade de que possuímos uma natureza espiritual em comum, de que possuímos os mesmos direitos e que somente a união, fraternidade e amor podem evoluir o homem, é que eles conseguirão mudar a face daquela região. E tenha certeza, o dia que eles conseguirem isso, todos nós conseguiremos.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Quando todos estão errados, mas só um lado gera comoção


(Israel, Palestina, Faixa de Gaza, Conflitos)

Imagine que você seja alguém muito rico e que more em um país X. Comprou uma linda casa em frente a praia e construiu uma grande fortaleza, afinal, sua família é bastante visada e ameaçada fora dali. Sua casa é linda e de causar inveja a muitos que passam por ali, só que tem um problema, você não pensou antes de construir o seu império em um lugar pouco policiado e rodeado por uma sociedade mais pobre e com muitos problemas sociais.

Com o entra e sai da sua casa, você acaba se tornando visado também pela população local, que começa a sentir raiva por você ter uma vida melhor do que a deles. Assim, você e sua família começam a ser ameaçados e alguém lhe envia um recado de que é melhor vocês saírem dali porque aquela terra os pertence e você está incomodando a população local. Primeiramente você informa aquilo às autoridades competentes, mas eles nada fazem, já que a localidade é distante e fora da jurisdição deles. Eles não podem simplesmente colocar ali uma patrulha pois faltam verbas ao Estado para gerir aquela localidade e por mais que você apele, eles não vão lhe ajudar. O problema é que, assim como a população local, você é alguém que se apegou muito ao local e não quer abandoná-lo, sente como se ali fosse parte de sua vida e tudo o que queria era viver em paz.

Para tanto, você, como tem muito dinheiro, resolve colocar cercas elétricas, câmeras de segurança e seguranças armados – a legislação deste país fictício permite isso. Como a jurisdição local é fraca e você também se acha dono do mundo, resolve expandir a área de sua casa também para a areia da praia e utiliza o argumento de que também deseja utilizar a praia mas não pode mais fazer isso diante de tantas ameaças, desta maneira amplia o seu território, violando a jurisdição local e o direito da população daquele lugar de utilizar melhor a praia.

Os órgãos jurídicos são acionados e entram com ações contra você e sua família, mas o seu poder e riqueza os impede de fazer alguma coisa. Você alega que sua família só quer viver em paz e que a ampliação de território nada mais é do que o que vocês podem fazer para viver melhor. Chegando a este ponto, a população local começa a querer invadir a casa das mais diversas maneiras, até mesmo escavando túneis para uma invasão por baixo da casa. Tudo isso leva a você investir mais ainda o seu dinheiro em segurança e passa agora a armar os seus seguranças com armas letais e fuzis de longo alcance.

(Perceba que tudo isso não é nada mais do que uma disputa de egos, você por não querer sair dali, pois se acha poderoso e cheio da grana, e a população local por não aceitarem que a sua situação de vida é melhor do que a deles e que você tem o direito, por lei, de ter aquela casa)

A briga se torna mais intensa, e o que era local passa a se tornar objeto de discussão nacional, depois que uma das pessoas que tentava invadir a sua casa morre com um tiro na cabeça, por um tiro disparado de um dos seus seguranças. E na movimentação, um dos seguranças atinge outro dos invasores na perna e uma bala perdida acerta uma criança que estava passando pelo local no momento, que morre logo em seguida.
(...)

Poderia continuar esta história mas vou parar por aqui. Por mais que os elementos jurídicos, locais e políticos possam variar, trouxe esta história para poder trazer à tona a questão do que vem acontecendo na Faixa de Gaza neste momento entre Israel e a população daquele local.

As violações de Direitos Humanos por parte de Israel são inúmeras, desde os assentamentos ilegais em território palestino até a morte de crianças inocentes. A questão a qual me trouxe esta reflexão é, por qual motivo decisões pacíficas não são tomadas? O mundo inteiro está contra Israel neste momento, mas até que ponto as decisões de Israel são meras defesas do próprio direito e ataque aos de terceiros?

Esta minha interpretação parte do ponto de vista de que os únicos inocentes da situação são os cidadãos da Faixa de Gaza e de Israel, mas que somente os da Faixa de Gaza geram comoção por causa das mortes de inocentes. Acontece que, assim como o exemplo que dei acima, Israel poderia ficar somente dentro de sua “própria casa” esperando ser atacado, ou partir pra cima daqueles a quem eles tem como inimigos. A diferença de poder gritante, porém, não é necessária para se defender ou ganhar uma guerra, vide ai a derrota da Alemanha na 2ª Guerra Mundial, dos EUA no Vietnam na Guerra Fria e da Rússia na guerra entre eles e os japoneses.

Israel recebe ataques todos os dias de mísseis lançados pelo Hamas, mas não sofrem nenhum tipo de baixa ou destruição graças a seu escudo antimísseis chamado “Cúpula de Ferro”, desenvolvido pela indústria de armas israelense e que necessita de enviar 2 projéteis de $50.000,00 cada, para cada míssil enviado contra Israel. Neste ponto, quem sai ganhando é a indústria de armas israelense que precisa trabalhar a todo o vapor para desenvolver defesas ainda mais eficientes e, agora, ataques ainda mais precisos.

Acontece que, a região que está sendo atacada, nada mais é do que uma das regiões mais povoadas do planeta em termos de metro quadrado. Isso significa que, mesmo que ela esteja rodeada de pessoas inocentes e grupos interessados em atacar Israel, a possibilidade de um contragolpe de Israel atingir civis inocentes é quase que total. Isto acarreta a Israel uma tarefa de desenvolver uma grande defesa, mas que, tendo em vista o Direito Internacional e Direitos Humanos, também a “obrigação” de não retaliar, considerando que isso ameaçaria a vida de pessoas inocentes. Quando, porém, é o limite entre receber tapas e não retribuir em uma lei que ainda considera o “olho por olho e dente por dente”?

Israel vive pressionado entre o Direito do não dever e o Direito de se defender e retaliar contra um inimigo que é representado por pequenos grupos que atuam contra aquele Estado. E então, o que fazer no lugar de Israel? Atacar ou não atacar? Eis a questão.

Levando-se em conta que Israel possui um governo radical e que quer defender suas posses de qualquer maneira, garantindo a segurança e o bem estar de “sua família” e que o adversário não possui uma centralidade, é dividido e integrado por grupos que não aceitam, de maneira pacífica, a sua estadia naquele local, como então resolver esta questão?

Para muitos é simples, afinal, devolve “a praia conquistada” ao espaço a que era destinada, se resolve com a população local, desenvolve uma vida para eles ali e, pronto, estará tudo resolvido. Por que então isso não aconteceu agora?

Tenho meus palpites, que vão além da simples economia e política. A disputa territorial naquela região ultrapassa as barreiras físicas e embarca na questão ideológica. Palestinos e judeus são presos a questão territorial e ambos desejam quase a mesma parcela local. A menos que eles encontrassem uma maneira de conviverem pacificamente (o que seria muito difícil nos moldes atuais), somente ceder território aos palestinos não resolveria a questão da palestina, tendo em vista que este conflito, como minha concepção interpreta, é muito maior do que meramente político, econômico ou físico.

O poder econômico e político, que não é bobo nem nada, sabe muito bem disso e se aproveita para jogar palestinos e judeus uns contra os outros. É possível encontrar nas histórias da Torah ou do Alcorão passagens que irão dividir aqueles povos; e usar isso contra eles é, justamente, o que atende aos interesses de grupos como o Hamas e os políticos radicais de Israel. Nesta história não existem santos, sejam eles israelenses ou palestinos, todos são culpados pelo o que acontece na região; e se trata muito mais de uma questão de ego e falta de humildade do que política e econômica, afinal, ninguém quer ceder nada para o outro e a convivência pacífica em um mesmo território está fora de cogitação por ambos.

A história nos demonstra que árabes e judeus já viveram muitas vezes pacificamente, porém o que acontece hoje nada mais é do que utilizar a própria crença religiosa deles contra eles mesmos e não a história. Enquanto as mídias tomam seus partidos, do lado dos palestinos ou judeus, pessoas inocentes morrem na Faixa de Gaza e somente Israel é o culpado, sem se lembrarem que, não fosse a defesa aérea e territorial israelense, eles já teriam sido riscados do mapa por parte da “população local” (grupos que não desejam a existência Israel). Israel se defende de um inimigo perigoso pois luta não contra um Estado em específico, mas contra grupos locais. E os palestinos lutam com um grupo mais perigoso ainda pois não possuem defesa e não lutam contra um grupo, mas contra um Estado.

Neste ponto, acaba que toda a responsabilidade recai sobre Israel tendo em vista o seu poder, influência e riqueza. Porém, o quanto é dito sobre os palestinos que não desejam acordo pacífico com Israel? E as centenas de mísseis que são lançados contra Israel? Pode a arrogância nacionalista israelense ser culpada pela morte de todos estes inocentes ou o conflito é muito mais abrangente que isto?

Pessoas inocentes não devem morrer em lugar nenhum, nem mesmo as não inocentes. Pessoas não devem morrer, esta é a questão, não importa se sejam elas judias, negras, brancas ou palestinas. Se algum cidadão judeu morresse por um míssil lançado da Faixa de Gaza, ele não seria um culpado morto em conflito, mas seria mais um inocente, mais uma pessoa morte. A questão da culpa de Israel porém é tomada, unicamente, porque estes se defendem contra um inimigo que não é um Estado e, mais que isso, que não representa um todo da sociedade palestina. Mas e então, o que fazer contra um inimigo que se mistura à população entre crianças, mulheres e jovens? Como identificar um inimigo que possui a mesma fisionomia e mora no mesmo local dos inocentes? Infelizmente, não há como.

As escolhas, embora arrogantes – do outro lado também – são poucas. De um ponto de vista somente de Defesa, o Estado israelense poderia somente manter-se defendendo eternamente ou atacar o inimigo para desmantelar as suas forças.

Ainda assim, seja o ataque por parte de Israel ou dos grupos rebeldes palestinos, nenhum deles age de uma maneira sensata a resolução do conflito. Como disse acima, estes dois grupos – o governo israelense e os grupos rebeldes palestinos – aproveitam-se da revolta do povo e da fragilidade da região para ampliarem seus poderes e aumentarem o conflito no local, usando as crenças ideológicas e religiosas para jogar uns contra os outros e trazerem mais pessoas à causa – mas só Israel sai como culpado. E assim, entram-se anos e passam-se anos e a região continua sendo uma das mais conflituosas do mundo. Em Israel a população acorda com sirenes e correndo para abrigos antibombas enquanto que na Faixa de Gaza elas acordam, literalmente, com explosões de bombas na sua própria casa.

Tudo isto, nada mais é do que um reflexo do próprio egoísmo humano, seja ele por parte dos israelenses, que não aceitam negociar com grupos como o Hamas e não cedem às exigências palestinas, e dos próprios palestinos, principalmente os mais radicais, que não aceitam a presença de Israel na região e apelam para o uso da força, o que fortalece ainda mais os israelense e distancia ainda mais uma resolução pacífica para a região.

Observando de uma forma puramente idealista, o conflito naquela região jamais se resolverá cedendo ou não cedendo território, os cidadãos locais precisariam reconhecer que eles têm que conviver em harmonia uns com os outros – sim, é idealista. De uma análise mais prática, a comunidade internacional teria que ser mais enérgica contra Israel e, também, contra os palestinos. Devolver os territórios tomados por Israel, criar o Estado da Palestina, criar um acordo internacional de não agressão entre eles, tornar Jerusalém uma capital comum entre Israel e a Palestina, fazer com que a Palestina criasse leis duras contra grupos radicais e terroristas e, por fim, ajudar no desenvolvimento daquele país.

O problema todo é que, ao contrário da estória que inventei acima, o Direito Internacional não possui uma entidade máxima que faça valer a sua força e sua intenção. Por mais que todos os Estados do mundo acordem sobre os problemas na região – o que é quase impossível –, para que o Direito Internacional possa valer, é necessário que exista o Estado da Palestina e que Israel aceite a interferência externa em seus assuntos pessoais.

Este é um problema complexo e que não pretendo resolvê-lo com esta postagem, mas que, justamente, gostaria de apresentar uma ideia de que, tanto Israel quanto os grupos rebeldes são culpados e não somente os israelenses como se apregoa pela mídia. 

domingo, 4 de maio de 2014

Você é racista?


Antes de mais nada, escrevo este texto ouvindo a música de "Gabriel O Pensador - Racismo é burrice", ouça também e faça suas próprias críticas.

Esta semana aconteceu algo comigo que me abalou muito. Sempre soube da minha personalidade forte e os meus debates calorosos, mas jamais havia perdido uma amizade em uma discussão até então com uma pessoa que eu admirava e respeitava. Isso mexeu com a minha estrutura e eu estou definitivamente decidido a controlar essa parte da minha personalidade depois disso. Mas afinal, como tudo isso começou?

Tudo começou por causa dessa maldita banana. Sim, eu defendi a banana e o somos todos macacos, mas não, isso não significa que eu esteja certo, muito menos que minha percepção seja absoluta e que eu não mude de opinião. Mas acredito que um mínimo de sensibilidade ao ser humano, para saber como se fala com o outro é essencial para a construção de bons relacionamentos.

Então, partindo desta banana, resolvo fazer a seguinte pergunta para você responder para si mesmo, você é racista? Afinal, o que é o racismo?

De acordo com os seguintes dicionários, trata-se de:


  • Minidicionário Luft: "1.Doutrina dos que pregam a superioridade de certas raças humanas. 2. Ação ou qualidade de indivíduo partidário dessa doutrina"
  •  Priberam online: "1. Teoria que defende a superioridade de um grupo sobre outros, baseada num conceito de raça, preconizando, particularmente, a separação destes dentro de um país (segregação racial) ou mesmo visando o extermínio de uma minoria. 2. Atitude hostil ou discriminatória em relação a um grupo de pessoas com características diferentes, notadamente etnia, religião, cultura, etc"
  • Michaelis online: "1 Teoria que afirma a superioridade de certas raças humanas sobre as demais. 2 Caracteres físicos, morais e intelectuais que distinguem determinada raça. 3 Ação ou qualidade de indivíduo racista. 4 Apego à raça."
Para quem não se lembra dos horrores da Segunda Guerra Mundial, o que Hitler cometeu com os judeus, maçons, ciganos, negros e "não-arianos" (de acordo com os termos do nazismo), foi a maior prática de racismo dos tempos modernos. Ali morreram não somente judeus, mas muitos outros povos e raças que possuíam suas culturas e particularidades das quais Hitler e sua ideologia abominavam. Em qualquer um dos três dicionários acima você pode ver a definição de racismo aplicado às práticas de Hitler.

Acontece que, na sociedade brasileira, por séculos, os negros foram subjugados a vontade dos brancos e, por isto, criou-se uma comunidade negra muito mais pobre e com menos direitos. É fácil entrar em uma universidade e ver as salas de aula lotadas de branquinhos como eu. Ainda assim, vou contar um pouco mais do que aconteceu comigo e qual foi a minha atitude.

Na discussão, eu fui chamado de racista (contra os negros). Não vou ficar aqui falando sobre ela pois não há um espaço para a pessoa que discutiu comigo se defender, portanto, não é justo. Mas isto já vai servir para a construção do que quero continuar desenvolvendo aqui...

Como eu havia falado acima, não só a atitude de ter me chamado de racista me incomodou, mas a forma como ele se expressou ao falar comigo, simplesmente me senti um racista...
Pensando nisso, nada melhor do que conversar com uma terceira pessoa que não estivesse envolvida com a história...

Ao chegar no local em que trabalho, a minha frente sentou uma pessoa negra. Nervoso por ter sido chamado de racista e ansioso ao perguntar a opinião daquela pessoa, não exitei um minuto ao falar...
- Desculpa, mas eu preciso de sua opinião em algo muito importante para mim...

Expliquei para ele a história, o que eu tinha falado para ter sido chamado de racista e o que ele achava daquilo, até que ele começou a me contar a sua história pessoal:
"Nasci em um lugar pobre, mas muito pobre mesmo, a única coisa que não faltavam eram escolas públicas, haviam 10 na região. Independentemente de como o ensino era, posso dizer que oportunidade de estudar eu tive. Meu pai se separou da minha mãe quando eu tinha uns 8 anos de idade. Podia faltar o que fosse dentro de casa, mas minha mãe nunca deixava de faltar um caderno, um livro e um lápis para mim e meu irmão. Hoje, X anos depois disso tudo, estou aqui trabalhando com você mas sou formado em Direito pela Universidade Y, já trabalhei em várias multinacionais, viajei para a Europa, conheci o mundo, etc. Já meu irmão, sabe qual foi a escolha dele? Não ter nem o Ensino Fundamental Completo."

Ao ouvir esta história, confesso que não esperava por uma riqueza de detalhes tão grande. Ali percebi uma história que, de fato, não esperava ouvir. A pessoa me relatou as suas viagens a Europa e, diante deste caso que ocorreu com o Daniel Alves, embora afirmasse que lá realmente este tipo de ideologia seja mais intensa, disse que se sentiu menos discriminado lá do que aqui. O que ele me afirmava é que não sabia se as pessoas o respeitava por ser negro ou ser brasileiro, se o respeitava pela nacionalidade ou por quem era, mas que de fato o respeitava.

Com isso, aproveitei o embalo da conversa e perguntei sobre temas mais polêmicos, tais como cotas - E ai, o que você acha disso. Perguntei.

"Posso afirmar que realmente a minha escola teve defasagem em relação a uma particular. Por exemplo, enquanto em uma particular as aulas de química ocorriam normalmente, eu não tive. Além disso, tivemos várias greves, o que atrapalhava bastante no rendimento da aula. Tudo isso nos atrapalhava no vestibular. Poderíamos até disputar, por exemplo, em Português e Matemática, mas em outras matérias, estávamos muito defasados. Porém, antes de tudo, sou contra cotas para negros. Na minha sala de aula haviam brancos que também eram pobres, estavam ali sem opção. Também foram prejudicados no vestibular por terem estudado naquele tipo de Colégio. Qual o motivo então de eu ter este tipo de vantagem e ele não? Intelectualmente somos semelhantes, não há nada que nos diferencie quanto a isto. Por isso, então acredito que a cota deveria ser para quem estudou em Colégios Públicos por X tempos e não somente para negros."

E esta foi a opinião dele, que também seria a minha, com a única diferença que eu sou branco (ou melhor, mestiço) e isto seria encarado como uma discriminação racial.

Como podemos ver na letra da música de Gabriel O Pensador:
"Não seja um imbecil  
Não seja um ignorante 
Não se importe com a origem ou a cor do seu semelhante 
O que que importa se ele é nordestino e você não? 
O quê que importa se ele é preto e você é branco? 
Aliás, branco no Brasil é difícil 
Porque no Brasil somos todos mestiços (...)
Tinha índio, branco, amarelo, preto 
Nascemos da mistura, então por que o preconceito?"
 A ideia que levou a toda esta discussão, que me levou a perder uma amizade e a realizar esta série de perguntas ao meu colega de trabalho, foi que, simplesmente, eu percebo o branco, índio ou negro como sendo iguais e não diferentes. Este tipo de pensamento me leva a crer que, seja você negro ou seja você branco, será a sua individualidade que definirá os caminhos que irá tomar. Ainda assim, nada disso nega os fatores sociais, as dificuldades do dia a dia e tudo que irá ter que enfrentar para se superar, muito menos que terá que parar de lutar pelos seus direitos, porém, ainda assim, a sua dificuldade ou fragilidade não pode ser tratada como uma desculpa para não alcançar os seus objetivos e metas, e foi isto que esta história pôde me mostrar.

Meu colega de trabalho me demonstrou, através de sua própria vida, que duas pessoas criadas no mesmo lugar atingiram destinos completamente diferentes. Um formado em Direito e o outro nem ao menos havia terminado o Ensino Fundamental (ou Médio, ele ficou na dúvida). Ele disse que isto não tornava o irmão dele uma pessoa que não sabia falar, ou que falava errado, mas que nas escolhas para a vida deles, não foi uma série de facilidades que decidiu isto, mas a sua própria luta pessoa. Ou seja, a culpa pode ter sido do sistema, mas a responsabilidade foi de cada um.

Eu fui criado em uma rua com pessoas negras, das quais muitas delas eu passo hoje e me reconhecem, me abraçam, falam comigo, riem e me cumprimentam, mas também na qual, alguns dos meninos que moravam na mesma localidade que eu, me discriminavam por ser branco. Na verdade, isto nunca foi um impedimento para que eu pudesse sair às ruas e brincar, muito menos causo-me algum tipo de trauma do qual eu sentisse raiva de um negro, muito pelo contrário. Mas me lembro muito bem das piadas e músicas que inventavam para mim ou mesmo das vezes que já apanhei por isto, MAS QUE FORAM CASOS ISOLADOS e não me impediam de brincar e ter grandes amigos negros. Porém, lembro-me também, do quanto eu era ameaçado quando morava em outro bairro no qual, ao comprar pão para a minha mãe, falava para ela o quanto os outros garotos me olhavam atravessado e eu não gostava de passar por lá por me sentir diferente.

Desde então, nunca tive problemas com pessoas negras, pelo contrário. Muitos dos meus grandes amigos ou são negros ou tem traços com negros. Nunca tive nenhum tipo de repulsa ou apoiei qualquer violência, seja ela verbal ou física, contra qualquer tipo de pessoa por causa de sua cor. Posso sim ter discriminado uma pessoa por outros motivos, mas não este. 

Perceba isto, a discriminação contra negros no Brasil é uma realidade latente muito maior do que a realidade isolada e minúscula que vivi. Em nenhum momento estou fazendo aqui um estímulo de preconceito contra nenhum tipo de raça, cor, credo ou religião, mas é inegável que, por exemplo, esses brancos e pobres que estejam cursando um colégio público estariam também tendo os seus direitos privados caso a cota fosse somente para negros (há cotas para os Colégios Públicos e pobres atualmente). É só imaginar um caso hipotético de uma mãe que tenha tido um filho negro e outro branco. A mesma criação, o mesmo ambiente, porém oportunidades de escolhas diferentes.

Conforme demonstrado pelo "Ministério da Justiça", a situação dos presídios é a seguinte:




Como podem ver no gráfico, a situação dos negros é a mais grave. Agora eu lhe pergunto, será mesmo que somente uma política de cotas resolverá esta situação? Como estão sendo tratados os presidiários? Como será que as políticas de segurança pública é educada? Como estão ensinando as crianças nas escolas? Qual é o estímulo para o estudante hoje ir estudar? Qual é o diferencial entre a rua e a sala de aula? Qual é o valor do professor dentro de classe? Vamos mudar tudo isto somente com medidas paliativas?

A minha opinião é a seguinte: enquanto continuarem tratando o negro como negro e o branco como branco, não haverá uma coisa só chamada povo, integridade ou humanidade. Alguns chamam isso de utopia, ao meu ver se chama Justiça. Passamos séculos tratando os negros como indigentes, os índios como selvagens, os "brancos" como intelectuais e desenvolvidos (visão eurocêntrica) e o que ganhamos com isso? Quando foi que passamos a criar medidas eficientes para se incutir a mentalidade de que uma criança negra não tem diferença nenhuma, a não ser na cor, perante uma criança branca ou parda? Ou que uma criança palestina não tem nenhum diferença perante uma judaica?


A humanidade cria rótulos, dentre os quais incluem-se os negros, os brancos, os pardos, os mulatos, os africanos, os brasileiros, os europeus, (...) , quando, na verdade, somos todos evoluídos de um ancestral em comum ao macaco (ou seja, #NÃOsomostodosmacacos, #somotodosancestralemcomumaomacaco), possuímos todos os mesmos órgãos, o mesmo cérebro, moramos na mesma Terra, compartilhamos os mesmos recursos e dependemos de todos ao nosso redor.

Por mais distante e utópico que possa parecer meu pensamento, acredito, fundamentalmente que, enquanto não tratarmos todos os seres humanos dotados da mesma capacidade, responsabilidade e DANDO A TODOS a mesma oportunidade inicial, sem discriminação de raça, cor, credo ou religião, então nunca seremos livres de que hoje o racismo seja contra o negro, amanhã contra o nordestino, depois de amanhã contra o homossexual, depois de depois de amanhã contra o branco e em seguida contra tudo e todos, pois sempre estaremos achando contra quem depositar a nossa culpa, sem trazer para nós a responsabilidade de mudança de tudo o que há por ai.

"Então que morra o preconceito e viva a união racial"