sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Mundo em crise – estamos indo em direção ao precipício?

O sistema internacional nunca possuiu tantos mecanismos de se evitar um conflito em escala mundial. Seja através do comércio internacional, do direito internacional ou dos acordos entre os Estados, não houve nenhum outro momento na história com tantos arranjos e tentativas de conciliação ou aproximação entre os Estados.

Isto, de certa forma, alivia a pressão de um grande conflito entre as grandes potências ou guerras maiores que possam vir a influenciar todo o sistema, acarretando em um conflito de proporções mundiais.

No entanto, analisando o contexto do momento, parece que alguém resolveu reacender o pavio de uma grande bomba que pode pôr todos esses acordos e arranjos pelos ares. A começar pelo fato de que se tornou comum confrontar a hegemonia, ou o domínio de poder, americano. Seja através da economia, como veio fazendo a China ao longo dos últimos anos, ou militar, como fez a Rússia impedindo os americanos de entrar na Síria, ou ideologicamente, como faz o Estado Islâmico propagando o ódio contra o Ocidente e querendo implantar um novo Estado em pleno Oriente Médio; os EUA já não apresentam o mesmo poder estratégico que possuíam antes do 11 de setembro de 2001.

Além de tudo isso, temos uma economia européia em recuperação, um conflito militar ocorrendo em território ucraniano, um dos vírus mais mortais existente atualmente se disseminando pela África – o Ebola –, o conflito entre Israel e Palestinos (se repetindo), uma guerra civil com mais de 200 mil civis mortos na Síria, uma crise de Estado no Iraque e, o pior pesadelo do Ocidente, um novo grupo terrorista que mais parece uma Empresa Terrorista, causando terror e atrocidades por onde passa na Síria e no Iraque.

Tudo isto seriam eventos normais não fosse por um pequeno detalhe, todos eles possuem, de alguma maneira, o envolvimento dos maiores “players” do cenário internacional. O conflito na Ucrânia possui envolvimentos claros e cada vez mais evidentes da relação direta da Rússia com os rebeldes. Acontece que a região é uma importante transportadora de petróleo para a Europa. O fornecimento dele é russo, mas os mais importantes oleodutos passam por território ucraniano. Novamente, isto não deveria ser um grande problema, já que a Rússia, mesmo se fosse o caso de tomar o território ucraniano, poderia continuar fornecendo petróleo para a Europa. O problema aqui é que ultrapassa o significado econômico e passa a entrar na questão do direito internacional de soberania.

Desde que Putin assumiu o comando do país russo, ele tem demonstrado interesses expansionista na região, seja ele em forma de ampliar os acordos comerciais formando um bloco russo-asiático, ou invadindo outros Estados, como a Geórgia e a Criméia, e ampliando a sua influência e território. Tudo isso, eleva o temor dos Estados europeus de que eles sejam os próximos alvos, perpassando os interesses econômicos e se tornando um interesse territorial. Esta história tem levado a incansáveis brigas retóricas que tem deixado a situação na região cada vez mais instáveis.

Na África, o inimigo é outro, invisível a olho nu e não possui fronteiras, é o Ebola. Ele já matou mais de 2 mil pessoas e a OMS já o classificou como um problema de risco mundial. Não bastando isso, novas estatísticas demonstram que podem haver entre 20-30 mil pessoas infectadas e o risco de se espalhar por outros países é grande. O pior de tudo foi no início deste mês, homens armados invadiram uma enfermaria onde havia pacientes com Ebola, fizeram escapar, aproximadamente, 20 deles que estavam em quarentena e roubaram roupas de cama de pacientes infectados. Até agora não se sabe o destino final destes pacientes nem das roupas de cama que usavam.

No Oriente Médio, o caos está generalizado. São os Estados que tentam se recuperar de uma “Primavera Árabe” que se tornou um “Inverno Árabe”, é o conflito interminável entre palestinos e israelenses, uma guerra civil na Síria, a instabilidade no Iraque e, por fim, a mais nova ameaça ao Ocidente – o Estado Islâmico.

Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo tem acabado com as noites de sono do Presidente americano, o senhor temporário da maior potência militar e econômica do planeta. O Presidente Barack Obama perdeu as suas férias para cuidar de assuntos que vão desde a segurança nacional até internacional e, ainda assim, não tem sido suficiente para trazer solução para os conflitos que ocorrem no mundo.

A instabilidade do momento é reflexo da queda de poder americana, que não consegue mais administrar o mundo tentando estar presente em cada conflito ou problema que ocorre. E o mais perigoso disso tudo é que tudo isto acontece em um momento em que, ao mesmo tempo que o sistema internacional cobra uma posição enérgica dos Estados Unidos perante o que ocorre, cobra também explicações dos motivos pelos quais os americanos vigiavam o mundo inteiro e utilizavam estas informações a seu favor.

Por mais que os arranjos e acordos internacionais permitam que o mundo goze de uma certa “estabilidade” de um conflito mundial, eles parecem não ser mais suficientes para impedir que, pouco a pouco, apareçam elementos que desafiem esta lógica de acordos entre os Estados. Pouco a pouco, a economia globalizada, como é o caso do petróleo passando pela Ucrânia para chegar à Europa, se torna insuficiente para segurar conflitos regionais.

Diante deste cenário estranho a pergunta que se faz é: estamos a beira do precipício?

Um dos motivos que foram precursores para a Segunda Guerra Mundial foi o argumento de Hitler ao invadir a Polônia dizendo que estava salvando os seus compatriotas – argumento nada diferente do usado por Putin ao invadir a Criméia e agora o Leste da Ucrânia. Para início da Primeira Guerra, além de todos os problemas que ocorriam naquele momento entre os Estado, apenas a morte do arque-duque Ferdinando foi suficiente para deflagrar em um grande conflito. Quando a primeira guerra terminou, ocorreu uma das maiores epidemias do planeta, a gripe espanhola. Ela já existia, mas em sua forma latente. Com os conflitos, a transação de muitos militares por outros territórios e a insalubridade decorrente da guerra, a doença se tornou mais fácil de se propagar em território europeu. E um cenário de guerra agora seria a porta de entrada para uma grande propagação do Ebola.

Ainda temos elementos dos quais não citei, como Edward Snowden, Julian Assange, Coreia do Norte, conflito entre Japão e China (sul do mar do Japão) e por ai vai...

A questão grand-finale que ficará para o tempo responder é: será o sistema internacional suficiente para dar conta de todos estes problemas e se sustentar sem um enfrentamento direto entre as potências? Nossos acordos multilaterais, diretos e bilaterais serão suficientes para segurar a vontade de guerrear? Conseguiremos passar por mais esta “Guerra Fria” sem que o mundo se acabe em ogivas nucleares?

Somente o futuro nos responderá. E espero estar vivo para contar como passamos sufoco neste momento e que tudo não passou de um susto e mal entendido.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A questão da natureza humana e o conflito entre Israel e Palestina



É muito comum ouvirmos alguém perguntar o porquê de tanta maldade no mundo. Porém, iniciarei este artigo com uma retórica diferente. Por que existem tantas pessoas que fazem o bem neste mundo? O que leva tantos muçulmanos diante de um mundo no qual acredita que em sua maioria eles são extremistas (o que não é verdade) a realizar obras de caridade e ajudar o próximo? Como pode uma pessoa ajudar outro ser estando em um território em que acontece a guerra, fome e morte? Como podem tantos judeus ou maçons, que são tidos por muitos como o mal do mundo e a hegemonia do poder bancário e financeiro, doarem milhões de dólares todos os anos para a caridade? Mais ainda, como pode você, diante de um mundo em que as notícias mostram pais matando filhos, irmãos e amigos se traindo, brigas de transito levando a mortes, bandidos assaltando a todo o momento e, ainda assim, querer se tornar alguém melhor ajudando o próximo e a si mesmo?

A questão da natureza humana é bastante profunda. Em se tratando deste assunto você verá opiniões bastante embasadas e diferentes uma das outras. Eu vou apresentar a minha opinião e percepção sobre ela dialogando com o pouco que tenho aprendido nos últimos anos de estudos pessoais e faculdade.

A natureza humana sempre foi alvo da análise de grandes pensadores. Isso pode ser observado desde Sócrates e Platão até os homens da ciência nos dias atuais debatendo sobre ela através das influências biológicas e cosmológicas. E neste ponto de embate, há sempre os que são extremamente idealistas, ao ponto de acreditar que ela é muito boa e também, extremamente “realista”, ao ponto de acharem que ela é completamente má. Neste quesito, discordo de ambas as opiniões e fico com as ciências biológicas, na qual realçam a natureza animal do ser humano e seus instintos (não sendo eles bons ou ruins); ainda assim, esta ciência não é suficiente para explicar em profundidade a essência humana de existir e, principalmente, querer fazer o bem.

Nos conflitos internacionais, é rotineira a análise do contexto que envolve o tradicional problema. Neste caso, há milhares de especialistas em tudo o que se possa imaginar, trazendo a tona toda a causa e efeito do que se passa. Porém, mesmo que o contexto seja levado em consideração, dificilmente a abordagem sobre a natureza humana será levantada em um debate. Tudo isto ocorre porque ao se analisar um contexto amplo, como, por exemplo, o conflito Palestina x Israel, será considerado todo o interesse econômico, financeiro, armamentício, militar, histórico, geográfico e geopolítico por trás do conflito e não o que está por trás destes motivos. E embora muitas dessas análises sejam todas muito bem fundamentadas, elas costumam se garantir somente em suas análises e informações ignorando o outro lado. Tudo isso leva a um grande conflito de ideias no qual a disputa principal se torna a de “quem está correto” e o debate, por fim, acaba se tornando aquele no qual o mais dramático ou o mais fundamentado argumentativamente (naquele momento), ganha.

Passado este parágrafo de reflexão, o que diriam os grandes contribuidores do pensamento político do mundo? Bom, a maioria deles abordou, mesmo que de forma singela – ou não – a questão da natureza humana. E assim fez Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Thomas Hobbes, John Locke, Rousseau, Maquiavel, Kant e outros. Todos eles, de sua maneira, abordaram a questão da natureza humana e com isso desenvolveram suas teorias sobre a Política, o Homem, a disputa de poder e o mundo. Um exemplo rápido disso é que a compreensão do pensamento dos autores realistas em Relações Internacionais, a qual é acompanhada pela crença na disputa de poder entre os Estados, da maldade na natureza humana e da vida antes do Estado (estado de natureza), vinda do autor Thomas Hobbes. Assim como para o materialismo e capitalismo, John Locke foi um grande produtor de teorias que justificassem a atitudes do sistema tendo em vista a criação divina do homem e sua posterior “rebelião”.

Seja qual for a teoria, percebe-se que antes que chegássemos a toda esta complexidade que existe hoje de teorias tentando justificar, compreender e culpar os acontecimentos no mundo, o homem foi objeto de análise em algum momento, mesmo que tenha sido no princípio destas.

Precisei falar um pouco dessas questões para abordar o que penso sobre o tema. Acredito que na formação dessas teorias sobre o homem não havia a ajuda de um setor que hoje está muito mais avançado – o científico. Ainda assim, mesmo com este avanço científico e que pode identificar a origem da natureza humana, ele não é suficiente para identificar a essência humana ou a razão do viver, o que simplesmente dá o fôlego de vida, responde as questões mais transcendentais e faz com que o ser humano faça o bem e queira o progresso. E isto está, justamente, relacionado ao espírito humano e não as respostas científicas (embora os mais materialistas vão encontrar respostas para tal, utilizando-se da genética, psicologia ou outras fontes).

O ser humano possui uma natureza animal devido a sua evolução biológica ao longo dos milhões de anos de adaptação. Mesmo assim, somos a única espécie no planeta dotada de razão, poder de escolha e capacidade de adaptar os meios para nós, ao invés de somente nos adaptarmos ao meio – como os animais. Esta capacidade do ser humano o torna único na face da terra, levando-nos até a civilização em que temos em nossos dias atuais. No entanto, embora tenhamos a capacidade de refletir sobre o que fazemos e tomarmos escolhas sobre nossas atitudes, é a natureza animal que continua prevalecendo em nós ao invés da espiritual.

O avanço científico nos permitiu e permite vislumbrar tudo o que podemos construir e o que queremos ser, mas, ao mesmo tempo, não permite uma revolução interna no ser humano. Quando um conflito é analisado tal como o de Israel e Palestina, muitos culpados são procurados, desde o Hamas até Israel. Com isso, alguns aproveitam o momento para culpar o capitalismo, assim como o sistema financeiro internacional, os americanos, a ONU, os judeus, o Hamas, etc. Em todo este contexto, é analisada a realidade histórica da região, o crescimento demográfico, o desenvolvimento econômico e até mesmo as religiões ali presentes, no entanto, fica esquecido completamente quem é o responsável por construir tudo isto, desde o sistema econômico até a realidade histórica – o próprio ser humano.

Neste sentido, aparecem cada vez mais culpados e tudo se acumula. Primeiro, porque nem todo o conhecimento do mundo pode ser absorvido. Isto significa que, nem tudo o que um analista estudou será o que o outro analista estudou; afinal, eles não vivem juntos em uma mesma mentalidade e pesquisa. Por fim, a briga entre dois analistas torna-se uma disputa de quem convence melhor e de quem argumenta mais, mas não o de encontrar uma solução efetiva para o caso. E assim, a realidade daquele que é responsável por aquilo – todos nós –, é cada vez mais deixada de lado.

O ser humano, na tentativa de compreender a sua real natureza, conseguiu fazê-la através das Ciências, porém não soube o que fazer com essas informações que vem descobrindo. Ele conseguiu entender as nuances da sua formação material e, inclusive, entender algumas de suas emoções, como o faz a psicologia. Construiu diferentes áreas do saber, tornou complexa a relação entre os seres, expandiu a tecnologia, mas, muitas vezes se esquece dele mesmo – da sua própria capacidade de transformação e adaptação perante a realidade.

Com isso eu retorno a pergunta que fiz no início deste texto: como pode alguém fazer o bem no meio de toda esta confusão? Como podem existir tantas pessoas boas no mundo? (elas são maioria, por mais que não ache) O que leva um ser humano a realizar um bem no meio a tanto mal? E nisto entramos na questão do bem e mal e da espiritualidade humana.

Não se tratando aqui de qualquer religião que seja, mas levando-se em consideração todas elas, somente o investimento no espírito humano – seu caráter, sua moral e sua identidade – pode mudar a realidade de Israel, Palestina e qualquer outro conflito no mundo. Por mais que medidas importantes como a criação do Estado da Palestina, a retirada dos embargos por Israel, a retirada de todo armamento do Hamas da região da Faixa de Gaza e, utopicamente, até mesmo uma união entre os povos palestinos e israelenses, ainda assim, não seria o suficiente para trazer uma completa paz.

Por exemplo, você saberia me dizer como se encontra a situação da Alemanha recentemente? Bem, não é? Agora, pode se lembrar do que ela fez há, aproximadamente, 70 anos atrás com os judeus, ciganos, maçons, negros, etc? E qual o motivo de ainda existirem neonazistas no mundo? Será que o que ela fez não foi suficiente para mostrar o mundo o mal que o nazismo fez e é? Será que o que Hitler fez não foi trágico o suficiente para revelar ao mundo o mal que podemos fazer odiando o próximo? Pois então. Todas essas perguntas foram utilizadas para mostrar que uma resolução no campo material não resolve uma questão no campo interior do ser humano – no aspecto da moral, do caráter e da evolução espiritual. A Alemanha é hoje um país exemplar para o mundo, a começar pelo comportamento dos jogadores alemães na Copa do Mundo. Ela alcançou um avanço e autonomia que poucos países europeus possuem, e mesmo assim, muitos neonazistas buscam na história trágica dela – nazismo – a resposta para os problemas da humanidade.

Assim, o ser humano segue buscando, cada vez mais, culpados para o que ocorre aqui ou ali. Não estou dizendo para deixar de buscar os culpados, informações, contextos ou motivos, mas que simplesmente reflita sobre onde está a culpa, de fato.

E quando me refiro a espiritualidade, não falo sobre a busca de uma religião em si, tenho um amigo que é ateu e é uma das pessoas mais espirituais que conheço. A forma como ele trata os seres humanos, com amor, carinho e compaixão, faz dele muito mais espiritual do que qualquer judeu (ganancioso), muçulmano (radical) ou evangélico (hipócrita). Eu mesmo posso me revelar como cheio de falhas e imperfeições na qual minha natureza prevalece em muitas situações e este meu amigo se revela muito mais espiritual que eu – mesmo eu acreditando em Deus e ele não. Não são poucos os momentos em que tomo uma atitude e percebo que não era somente a minha vontade, mas o desejo de satisfação dos meus instintos que estavam por trás de alguma das minhas atitudes.

Assim como eu, a humanidade continua ainda com seus instintos básicos do reino animal quando toma muitas de suas atitudes, e é exatamente a luta contra esta natureza que fazem tantas pessoas realizarem o bem. A natureza animal é totalmente instintiva. Em nosso processo de evolução, o importante era garantir a nossa sobrevivência, a sobrevivência do grupo e a transmissão dos genes. Para isto, características como a força, o vigor, o poder, a destruição, a rapidez, a destreza e a sagacidade, eram atributos muito mais importantes para manter-se vivo, ser o líder do grupo, defender o grupo e matar as ameaças do que a compreensão, o entendimento, o acordo ou a diplomacia.

Neste processo de evolução humana, fazer o bem nada mais era do que uma necessidade de salvar o grupo ou um instinto materno/paterno com relação a prole. Junto com esta raça humana, o que interessava era a sobrevivência da espécie e sua reprodução, passando por tudo e por todos que fossem necessários. Ainda assim, ao longo da evolução humana, encontraremos pessoas como Sócrates, que deram a vida para divulgar a verdade. Buda, que abandonou a riqueza para viver com os pobres e atingir o nirvana. Jesus Cristo, que na sua humildade, ensinou um novo modo de se viver ao ser humano, quebrando a antiga lei judaica de “olho por olho e dente por dente”. Mahatma Gandhi, que venceu o poder da Inglaterra com humildade e sem pegar em armas. E você, que, vez ou outra, se pega dando uma moeda ou ajudando um desconhecido. Eu lhe pergunto, que tem isso a ver com a natureza humana?

A natureza humana se fez necessária para nos mantermos como espécie e chegarmos até o patamar de evolução que atingimos recentemente. Mas, esta mesma natureza, pode ser responsável pela nossa extinção nos próximos anos. O que todos esses Mestres, acreditando você em religião ou não, vieram nos ensinar foi que nós não necessitamos nos curvar a nossa natureza para VIVER. O próprio Maomé pregou contra a natureza da população árabe de seu tempo em adorar muitos deuses. Por mais que seja difícil demais, e eu reconheço essa dificuldade, somente superando a natureza do ser humano é que podemos nos tornar um mundo melhor. Com ela veio o nosso egoísmo (capacidade de manter o alimento para sobrevivermos), a inveja (capacidade de construir condições melhores para nós), o orgulho (capacidade de acreditarmos em nós mesmo e assim nos mantermos vivos e seguir em frente) e muitos outros atributos que fizeram nos chegar até aqui e que nos serviram muito bem em nossa evolução, mas que, neste momento estão nos destruindo.

Quando você para e analisa um conflito como o de Israel e Palestina, encontra muitos elementos ali presentes. Dentre eles encontrará uma explicação religiosa, que lhe mostrará desde a Bíblia, em Genesis, no qual alguns teólogos definem como o começo da divisão entre árabes e judeus. E para os que não sabem, esta é a mesma história que encontra-se na Torah (livro dos judeus) e, acredito eu, deve haver algum elemento neste sentido no Alcorão.

Além desta análise religiosa, você encontrará também uma análise geopolítica e econômica. Neste tipo de análise, as pessoas irão se concentrar na questão de que o Estado de Israel foi criado com o intuito de manter o domínio Ocidental – e ai você encontrará de tudo –, na região do Oriente Médio. Aqui você encontrará, inclusive, Teorias da Conspiração de que o Estado de Israel foi criado em conluio com o governo inglês e de que tudo era uma intenção de privilegiar o controle dos ocidentais as jazidas de petróleo e, também, impedir a expansão do antigo Bloco Soviético.

Além destas duas, há também uma análise mais sociológica e histórica. O mais influente dela é o autor Edward Said, que fundamentará os seus conhecimentos na ideia de que a questão oriental vem sendo uma construção europeia desde os tempos remotos a Idade Média. Além disso, nesta teoria é destrinchada também a concepção de que a expansão do Estado de Israel, somado aos constantes desentendimentos entre os vizinhos e ao apoio dos grandes países ocidentais, torna Israel um Estado muito superior em todos os sentidos ao que seria o Estado Palestino. Com isso, justifica o crescimento dos movimentos radicais e a forma como eles combatem o Estado de Israel. Aqui também é considerado a forma como Israel trata a Faixa de Gaza de sua forma histórica. Eles consideram que o tratamento dado por Israel ao local é desumano e que justificaria também o levante dos movimentos fundamentalistas como o Hamas.

Existem também outras teorias que abordam esta questão, mas por mais que eu tenha sido superficial e somente tenha demonstrado uma pequena parte delas a vocês, nenhuma delas considera a questão que abordei acima.

Sendo a natureza humana algo intrínseco a todos nós, todas essas questões englobam dentro deste tema. É natural dos povos árabes e judeus – assim como de qualquer povo – defenderem o que são seus, justamente por isto fazer parte de nossa natureza. No entanto, esta natureza que tanto nos ajudou, hoje prejudica que os palestinos, israelenses e o mundo possa admitir que a terra estava ali antes deles mesmos nascerem ou seus povos terem surgido. O orgulho que os ajudou a manter a religião e os seus alicerces espirituais ao longo dos séculos, e que também fazem muitos judeus, cristãos e muçulmanos realizarem a caridade pelo mundo, é o mesmo que hoje os impede de admitir que o que a religião deles os revelou no passado, valeu para aquele momento e hoje o mundo mudou em muitos sentidos. O egoísmo que fez aquela terra ser parte de árabes e judeus até os dias de hoje, também não os permite compartilha-la por igual entre si, pois cada um de seu “Deus” a conclamou para si. Por fim, a inveja prevalece entre os dois povos, no qual nenhum dos dois aceita que o outro tenha parte da terra.

Portanto, para finalizar, você verá muitas análises diferentes sobre o que acontece naquela região. Mas somente a capacidade de mudança interior dos homens poderá alterar, de fato, o que ocorre ali. Os judeus e palestinos, com essas três características anteriores, jamais sairão de lá. E se um deles for expulso ou perderem terreno para o outro, eles voltarão em um futuro para retomar a terra, ocorrendo um ciclo eterno de disputas e conflitos. Somente a aceitabilidade de que possuímos uma natureza espiritual em comum, de que possuímos os mesmos direitos e que somente a união, fraternidade e amor podem evoluir o homem, é que eles conseguirão mudar a face daquela região. E tenha certeza, o dia que eles conseguirem isso, todos nós conseguiremos.