Como
diria Winston Churchill: "A democracia é a pior forma de
governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de
tempos em tempos".
Talvez ele tenha razão, é possível que não haja uma forma de governo testada melhor do que a democracia. Fato este observado, principalmente, nas causas que levaram à Segunda Guerra Mundial, que fora o descrédito com o liberalismo político e ascenção do fascismo como teoria política sobreposta a democracia.
Talvez ele tenha razão, é possível que não haja uma forma de governo testada melhor do que a democracia. Fato este observado, principalmente, nas causas que levaram à Segunda Guerra Mundial, que fora o descrédito com o liberalismo político e ascenção do fascismo como teoria política sobreposta a democracia.
Tendo este aspecto do fascismo realçado, qualquer crítica ao sistema democrático é apontada como fascista. Esta atitude “fascista” dos democratas não permite que a democracia seja questionada nem, muito menos, de que novas formas de governo sejam testadas.
A lógica democrática é mesmo interessante. No livro “AK-47 – A arma que transformou a guerra”, no seu capítulo 4, conta a história de Charles Taylor, um soldado paramilitar que combatia as forças liberianas e acabou sendo preso em prisão americana. Depois de uma espetacular fuga cinematográfica de uma das prisões, ele volta à Libéria e continua a sua guerra ao governo. Neste interim, Taylor usa crianças como soldados em seus grupos milicianos e as alicia dando em troca um carrinho de brinquedo e uma AK-47. Com esta arma em mãos, associado ao tráfico internacional de armas e apoio da indústria bélica soviética, Taylor impõe uma economia no qual a AK-47 se torna moeda de troca para muitas coisas na Libéria. E assim, como o próprio título do capítulo propõe, a arma se torna quase que um “cartão de crédito” no direito a adquirir bens materiais.
Acontece
que, entre 1997-2003, ele foi presidente da Libéria eleito com uma
média de 75% dos votos. Primeiramente, a porcentagem tão alta não
demonstra a capacidade da população liberiana em escolher um grande
líder, senão ao poder militar que ele representava no país e o
medo que ele impunha a população. Não bastando ele ter sido
eleito, as potências Ocidentais reconheceram o caráter democrático
das eleições e a legitimidade de Taylor. Pronto, estava feito a
cagada.
Taylor
não só promoveu uma chacina em seu Estado e na Serra Leoa, matando
homens, mulheres, crianças e idosos, sendo condenado pela Corte
Especial para Serra Leoa, como também liberou passaportes
diplomáticos e vistos para dezenas ou centenas de criminosos
traficantes de pessoas, diamantes, armas e drogas em seu país. Ainda
assim, em nenhum momento ele foi deposto ou poderia ter sido
enfrentado pelo seu próprio povo – que não tinha nem instrução
nem poder bélico para isso.
Levando-se
em consideração outro exemplo, a Constituição cubana é um forte
indício da confusão que há no conceito democrático. Para os
socialistas e comunistas não há exemplo mais forte de democracia do
que Cuba. Ela não só ressalta isso em sua Constituição, como
também possui grandes centros em que as pessoas podem debater
política, interesses públicos, gestão de recursos, etc. Acontece
que, para boa parte do mundo ocidental, Cuba é considerada uma
ditadura; não só pelo caráter “monarquista” ou “ditador”
de seu líder, como também pela perseguição aos jornalistas,
emigrantes e também aos propagadores contrários ao regime. No
entanto, logo no seu primeiro artigo, a Constituição já se
proclama como uma república democrática.
“artículo
1o.- Cuba es un Estado socialista de trabajadores, independiente y
soberano, organizado con todos y para el bien de todos, como
República unitaria y democrática,
para el disfrute de la libertad política, la justicia social, el
bienestar individual y colectivo y la solidaridad humana.”
E para terminar esta
questão de democracia, nada melhor do que a Constituição
venezuelana. Entre os constituicionalistas, esta é uma das
constituições mais democráticas do mundo. Ela abre espaço para
diversos setores, participação popular através de plebiscitos e
referendos, demarcação de territórios indígenas, etc. No entanto,
quando se faz uma análise da política tradicional chavista, o que
se percebe é um governo que constantemente precisa trocar os seus
Ministros, pois não consegue satisfazer as necessidades econômicas
mais básicas do seu povo, faltando até mesmo papel higiênico nas
prateleiras dos supermercados, um controle absurdo das pessoas, no
qual o último foi estabelecer um decreto exigindo um leitor
biométrico em todos os supermercados e constantes conflitos com a
oposição, levando jovens cada vez mais insatisfeitos às ruas e
passeatas cobrando, cada vez mais, posturas diferentes do governo.
Ainda assim, é um governo “superdemocrático”, no qual também
persegue jornalistas, não aceita discurso da oposição e tenta, até
mesmo, beatificar o ex-presidente Hugo Chávez.
Tudo bem então, onde está
"mancando" a democracia?
Em muitos aspectos, mas os
que vou destacar são no fato de que não há um consenso sobre qual
é a melhor forma e interpretação sobre o que é a democracia e, em
segundo, que é considerar que todos os cidadãos sejam politizados e
interessados em política.
A primeira questão
levantada é bem relativa. A democracia, por si só, permite diversas
interpretações, adaptação e contextualização do local em que
ela se insere. Tanto o é que em muitos Estados se optam por um
regime Parlamentar e em outros Republicanos. Em uns o
Primeiro-Ministro tem mais força que o Presidente, em outros nem
Primeiro-Ministro tem, e por ai vai. Neste sentido, há o fator
negativo de não se ter uma definição exata de democracia mas há
um fator positivo que se sobressai ao anterior, que é a liberdade de
um Estado formar aquilo que terá mais a ver com o seu
desenvolvimento, cultura e população.
Já
com relação a segunda questão, acho ela mais grave. Primeiramente,
é uma utopia achar que todos seremos politizados simplesmente pelo
fato de que nem todos se interessam ou gostam de política. Neste
sentido, o regime democrático acaba sendo uma imposição de ideias
daqueles que “melhor vendem o seu peixe” e não daqueles que
efetivamente planejam desenvolver um Estado, trazer justiça e
melhores oportunidades para todos. Exemplo bem simples de entender
isto é uma reunião de um Colegiado de um curso de faculdade. Embora
todos no curso tenham representatividade e seja aberto para emitir
opiniões, muitos não vão as reuniões porque não gostam, não
querem, não estão afim, não tem tempo...enfim, não vão. Dos que
vão, nem todos vão emitir opiniões, seja por serem tímidos, não
concordarem com o que está sendo dito e ficarem com medo de se
expor, seja por estarem ali só observando e ouvindo ou, até mesmo,
porque só foram ali por causa de uma amizade. Por fim, irá falar e
ser eleita a pessoa mais ousada, descolada, interessada e empenhada.
A pessoa que se põe a frente é alguém que “abraça a causa” e
vai em busca daquilo que considera melhor para o seu curso. Isso, de
fato, possui algo intrisicamente positivo pois esta pessoa estará
lutando pela melhoria da qualidade do curso e de questões
relacionadas a ele. Afinal de contas, tirando algumas questões
pontuais, todos querem estudar em um curso melhor e, se estão ali
naquele curso, é porque possuem algumas ideias em comum. Mas, ainda
assim, muitas das ideias que esta pessoa defende não representam o
que todos pensam, senão aqueles que venceram a votação.
Agora
leve esta questão para termos de cidade, estado ou país. Imagine
quantas pessoas não são interessadas em políticas, não querem ir,
não possuem estudo
ou
se enquadram em alguma das outras situações citadas. Ao contrário
do Colegiado, aqui ganha não o que está mais engajado ou tem boas
intenções, mas os que possuem os maiores recursos para propagarem
suas ideias, os que estão mais dispostos a “ceder” para
interesses escusos (que vão apoiá-los) ou que são mais conhecidos
pela população, seja por suas ideias ou pela propagação de sua
imagem. Não só bastando isso, entra também um grande “marketing”
que propaga a imagem do candidato ideal interferindo em fatores
extrasensoriais tais como apelando para o emocional do ser a ideia de
ser o melhor candidato, o mais preparado, o que tem mais “boas
intenções” ou que é o melhor articulista. Por fim, o que irá
ganhar não será o que tem o melhor plano de governo (pode até ser
que sim) necessariamente, mas o que conseguir melhor passar isso para
o seu eleitorado – seja através da violência, como fez Taylor ou
da supressão de liberdade individuais, como em Cuba, ou simplesmente
através do marketing, financiamento e propagação da imagem do
candidato.
Para finalizar, nem todos
os seres humanos são interessados em política, nem nunca todos vão
ser. Algumas pessoas são apaixonados por artes e, jamais,
assistiram, sequer, um debate político - não por ignorância, mas
porque não gostam. Outros não possuem conhecimento suficiente para
saber o que vai ser melhor para as suas vidas e votam naqueles que
melhor passam a mensagem de que serão melhores para eles. Outros
ainda são apaixonados por política, estudam, assistem todos os
debates, mas são pautados por suas ideologias na hora de votar, o
que não permite a escolha, algumas vezes, de candidatos que seriam
eficientes (pode ser até o meu caso algumas vezes). E neste caso,
deixo aqui como exemplo o candidato a presidência brasileira Eduardo
Jorge do PV que, por mais que tenha boas intenções e demonstre
firmeza em algumas falas, jamais seria escolhido pelo eleitorado
simplesmente por não maquear os seus discursos, não ter
financiamento para propagar sua imagem e nem utilizar-se de palavras
prontas ou discursos de impacto psicológico para conquistar o
eleito. Isso não significa que votarei nele, mas apenas que, mesmo
que ele fosse o melhor candidato do planeta Terra, ainda assim não
seria o escolhido por não fazer a imagem de melhor “enganador” o
qual a democracia propõe.
Ainda tem muito para se
falar sobre isso, mas encerro por aqui por hoje.
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