O sistema internacional nunca
possuiu tantos mecanismos de se evitar um conflito em escala mundial. Seja
através do comércio internacional, do direito internacional ou dos acordos
entre os Estados, não houve nenhum outro momento na história com tantos
arranjos e tentativas de conciliação ou aproximação entre os Estados.
Isto, de certa forma, alivia a
pressão de um grande conflito entre as grandes potências ou guerras maiores que
possam vir a influenciar todo o sistema, acarretando em um conflito de
proporções mundiais.
No entanto, analisando o contexto
do momento, parece que alguém resolveu reacender o pavio de uma grande bomba
que pode pôr todos esses acordos e arranjos pelos ares. A começar pelo fato de
que se tornou comum confrontar a hegemonia, ou o domínio de poder, americano.
Seja através da economia, como veio fazendo a China ao longo dos últimos anos,
ou militar, como fez a Rússia impedindo os americanos de entrar na Síria, ou
ideologicamente, como faz o Estado Islâmico propagando o ódio contra o Ocidente
e querendo implantar um novo Estado em pleno Oriente Médio; os EUA já não
apresentam o mesmo poder estratégico que possuíam antes do 11 de setembro de
2001.
Além de tudo isso, temos uma
economia européia em recuperação, um conflito militar ocorrendo em território
ucraniano, um dos vírus mais mortais existente atualmente se disseminando pela
África – o Ebola –, o conflito entre Israel e Palestinos (se repetindo), uma
guerra civil com mais de 200 mil civis mortos na Síria, uma crise de Estado no
Iraque e, o pior pesadelo do Ocidente, um novo grupo terrorista que mais parece
uma Empresa Terrorista, causando terror e atrocidades por onde passa na Síria e
no Iraque.
Tudo isto seriam eventos normais
não fosse por um pequeno detalhe, todos eles possuem, de alguma maneira, o
envolvimento dos maiores “players” do cenário internacional. O conflito na
Ucrânia possui envolvimentos claros e cada vez mais evidentes da relação direta
da Rússia com os rebeldes. Acontece que a região é uma importante
transportadora de petróleo para a Europa. O fornecimento dele é russo, mas os
mais importantes oleodutos passam por território ucraniano. Novamente, isto não
deveria ser um grande problema, já que a Rússia, mesmo se fosse o caso de tomar
o território ucraniano, poderia continuar fornecendo petróleo para a Europa. O
problema aqui é que ultrapassa o significado econômico e passa a entrar na
questão do direito internacional de soberania.
Desde que Putin assumiu o comando
do país russo, ele tem demonstrado interesses expansionista na região, seja ele
em forma de ampliar os acordos comerciais formando um bloco russo-asiático, ou
invadindo outros Estados, como a Geórgia e a Criméia, e ampliando a sua influência
e território. Tudo isso, eleva o temor dos Estados europeus de que eles sejam
os próximos alvos, perpassando os interesses econômicos e se tornando um
interesse territorial. Esta história tem levado a incansáveis brigas retóricas
que tem deixado a situação na região cada vez mais instáveis.
Na África, o inimigo é outro, invisível
a olho nu e não possui fronteiras, é o Ebola. Ele já matou mais de 2 mil
pessoas e a OMS já o classificou como um problema de risco mundial. Não
bastando isso, novas estatísticas demonstram que podem haver entre 20-30 mil
pessoas infectadas e o risco de se espalhar por outros países é grande. O pior
de tudo foi no início deste mês, homens armados invadiram uma enfermaria onde
havia pacientes com Ebola, fizeram escapar, aproximadamente, 20 deles que
estavam em quarentena e roubaram roupas de cama de pacientes infectados. Até
agora não se sabe o destino final destes pacientes nem das roupas de cama que
usavam.
No Oriente Médio, o caos está
generalizado. São os Estados que tentam se recuperar de uma “Primavera Árabe”
que se tornou um “Inverno Árabe”, é o conflito interminável entre palestinos e
israelenses, uma guerra civil na Síria, a instabilidade no Iraque e, por fim, a mais nova ameaça ao
Ocidente – o Estado Islâmico.
Tudo isso acontecendo ao mesmo
tempo tem acabado com as noites de sono do Presidente americano, o senhor
temporário da maior potência militar e econômica do planeta. O Presidente
Barack Obama perdeu as suas férias para cuidar de assuntos que vão desde a
segurança nacional até internacional e, ainda assim, não tem sido suficiente para
trazer solução para os conflitos que ocorrem no mundo.
A instabilidade do momento é
reflexo da queda de poder americana, que não consegue mais administrar o mundo
tentando estar presente em cada conflito ou problema que ocorre. E o mais
perigoso disso tudo é que tudo isto acontece em um momento em que, ao mesmo
tempo que o sistema internacional cobra uma posição enérgica dos Estados Unidos
perante o que ocorre, cobra também explicações dos motivos pelos quais os
americanos vigiavam o mundo inteiro e utilizavam estas informações a seu favor.
Por mais que os arranjos e
acordos internacionais permitam que o mundo goze de uma certa “estabilidade” de
um conflito mundial, eles parecem não ser mais suficientes para impedir que,
pouco a pouco, apareçam elementos que desafiem esta lógica de acordos entre os
Estados. Pouco a pouco, a economia globalizada, como é o caso do petróleo
passando pela Ucrânia para chegar à Europa, se torna insuficiente para segurar
conflitos regionais.
Diante deste cenário estranho a
pergunta que se faz é: estamos a beira do precipício?
Um dos motivos que foram
precursores para a Segunda Guerra Mundial foi o argumento de Hitler ao invadir
a Polônia dizendo que estava salvando os seus compatriotas – argumento nada
diferente do usado por Putin ao invadir a Criméia e agora o Leste da Ucrânia.
Para início da Primeira Guerra, além de todos os problemas que ocorriam naquele
momento entre os Estado, apenas a morte do arque-duque Ferdinando foi
suficiente para deflagrar em um grande conflito. Quando a primeira guerra
terminou, ocorreu uma das maiores epidemias do planeta, a gripe espanhola. Ela
já existia, mas em sua forma latente. Com os conflitos, a transação de muitos
militares por outros territórios e a insalubridade decorrente da guerra, a
doença se tornou mais fácil de se propagar em território europeu. E um cenário de guerra agora seria a porta de entrada para uma grande propagação do Ebola.
Ainda temos elementos dos quais
não citei, como Edward Snowden, Julian Assange, Coreia do Norte, conflito entre Japão e China (sul do mar do Japão) e por ai vai...
A questão grand-finale que ficará
para o tempo responder é: será o sistema internacional suficiente para dar conta de todos estes problemas e se sustentar sem um enfrentamento direto entre as
potências? Nossos acordos multilaterais, diretos e bilaterais serão suficientes para segurar a vontade de guerrear? Conseguiremos passar por mais esta “Guerra Fria” sem que o mundo se
acabe em ogivas nucleares?
Somente o futuro nos responderá.
E espero estar vivo para contar como passamos sufoco neste momento e que tudo
não passou de um susto e mal entendido.

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