Quando
falamos de heróis logo nos remetemos a personagens comuns como os de
histórias em quadrinhos, alguém que fez algo por nós, pai e mãe
ou até mesmo aquele cara que salvou alguém em uma piscina se
afogando. Na verdade, existem muitos tipos de heróis.
Meus pais são heróis pelo tanto que lutam na vida e me ajudam a me erguer, o personagem Jack Bauer pelas tantas vezes que se sacrificou por seu país, o vilão Mercúrio, de X-men, por ser o cara mais veloz do mundo ou Jean Gray pela capacidade de mover tudo com o poder da mente. Cada um, desses heróis da vida real ou de histórias em quadrinhos me fazem refletir como seria se eu tivesse o poder deles ou a capacidade que eles tem, mas foi um que mais mexeu comigo, uma pessoa que eu conheceria 8 anos após estar morta e que me faria refletir mais sobre a vida e o que eu posso de fato fazer para ser, também, um herói.
No ano de 2011, eu e alguns amigos
estávamos na Bienal do Livro no Rio Centro andando de um lado para o
outro olhando os livros. Naquele dia eu sairia de lá com uma sacola
cheia de livros mas quase todos dados por alguma editora, somente um
comprado. Foi então que eu entrei em uma Stand e fui dar uma olhada
nas promoções e lá estava ele me esperando. Com 50% de desconto
(que maravilha!), o livro que iria revelar o cara que não estaria
mais em histórias em quadrinhos ou filmes e que eu poderia de fato
me espelhar para um mundo melhor. A capa já dizia “O homem que
queria salvar o mundo” e eu logo me interessei. Quando olhei os
comentários atrás, somado a oferta e ao estilo de vida do cara eu
falei “é esse”; e de fato foi.
Sendo sincero, eu abandonei o livro na
metade (já voltei a lê-lo), mas não porque era chato mas porque entre provas, enrolações
e mudanças na minha vida acabei deixando ele de lado – assim como
muitos outros –, sem nunca esquecer quem foi Sérgio Vieira de
Mello. Logo nas primeiras páginas eu morri de raiva, o cara que eu
já estava admirando antes de conhecer havia morrido em um ataque
terrorista em uma embaixada em Bagdá. Mas até sua morte foi
admirável, contam alguns sobreviventes que ele fora uma das
primeiras pessoas a serem atendidas mas que logo recusou e pediu aos
médicos para que atendesse as demais pessoas – típico de um
herói. Por mais que seja um relato daqueles que faz livros e artigos
serem lidos, não é de se duvidar que seja verdade. Sérgio era um
cara de nome simples, humilde e sincero. Dizem seus amigos que
“Sérgio conseguia penetrar em todos os mundos possíveis. Com
Kabila (ex-presidente do Zaire/Congo), era um homem de uma ex-colônia
pobre do mundo em desenvolvimento. E com os diplomatas europeus, era
o dignitário educado na Sorbonne”.
Em alguns episódios que recordo do
livro, ele foi capaz de se infiltrar em uma das piores organizações
genocidas do mundo, o Khmer Vermelho, um antigo partido comunista do
Camboja conhecido também como Kampuchea e conversar com o seu líder
a respeito dos refugiados. Estratégias eram traçadas de maneira que
quem não tivesse nada a ver com a história de disputa pudesse, no
mínimo, sobreviver. Sérgio lutou contra a ditadura no Brasil e
antes dela já almejou ser da Marinha, inclusive dizia que se fosse
chegaria a almirante, talvez pela sua forma de fazer política. Não
seguiu carreira no Itamaraty pois seu pai, um também diplomata,
havia sido aposentado forçadamente por não concordar com as
políticas dos militares. Por isso ele saiu da UFRJ e foi para França
estudar em Sorbonne.
Lá ele fez Filosofia, construiu teses
complicadíssimas e cresceu sua carreira no ACNUR (Alto Comissariado
das Nações Unidas para Refugiados). Assumiu muitos postos de
comando mas sua carreira, basicamente, cresceu devido as suas
posições em tomar atitudes arriscadas em momentos de delicadeza.
Ele errou algumas vezes, acertou muitas outras, sofria duras críticas
e não foi um pai/marido muito perfeito. Profissionalmente todos
gostavam de estar ao seu lado, mas ele passou por muito altos e
baixos, sofrendo, algumas vezes, até pequenos casos de depressão.
Sérgio não se tornou um herói para
mim por causa de sua vitória na vida, mas pelo exemplo que ele
passava para os outros. Em meio ao caos ele era a serenidade, em meio
a diversidade ele era a certeza e em meio a tantas opções ele era a
escolha. Mesmo estando sempre em meio a problemas, através de sua
imagem ele passava um ar de calma para as pessoas. E quando tinha uma
opinião? Discutia inclusive com grandes amigos para defendê-las,
não dava o braço a torcer.
Ele me ensinou até mesmo a ter mais
fé, mesmo sendo ateu. De acordo com a autora, ele não tinha
religião e ela chegou até mesmo a intitulá-lo como ateu, mesmo
assim ele nunca deixou de respeitar a fé de alguém ou de não
acreditar na humanidade. Ele estava nos piores lugares do mundo,
vendo mulheres estupradas, homicídios por disputas políticas e
pessoas morrendo por fome, ainda assim se utilizava até mesmo de
pequenas atitudes para poder ajudar o próximo, mesmo não tendo uma
religião ou uma crença religiosa imbuída.
Além de tudo isso, ele lembra meu
pai quando mais novo fisicamente..rs
Esse é o cara que passei a admirar e
ontem fez 10 anos de memória a sua partida. Em 2003 ele morreu em um
atentado terrorista mas a sua memória não foi apagada. Seus amigos
fazem qualquer um se emocionar com as suas mensagens e exemplos de
perseverança. Ele não era um cara perfeito, era cheio de defeitos
como eu e você, mas, no fundo, ele sabia de algo que, muitas vezes,
eu e você não acreditamos – a humanidade ainda tem jeito.






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