terça-feira, 20 de agosto de 2013

O dia em que conheci meu herói

Quando falamos de heróis logo nos remetemos a personagens comuns como os de histórias em quadrinhos, alguém que fez algo por nós, pai e mãe ou até mesmo aquele cara que salvou alguém em uma piscina se afogando. Na verdade, existem muitos tipos de heróis.

Meus pais são heróis pelo tanto que lutam na vida e me ajudam a me erguer, o personagem Jack Bauer pelas tantas vezes que se sacrificou por seu país, o vilão Mercúrio, de X-men, por ser o cara mais veloz do mundo ou Jean Gray pela capacidade de mover tudo com o poder da mente. Cada um, desses heróis da vida real ou de histórias em quadrinhos me fazem refletir como seria se eu tivesse o poder deles ou a capacidade que eles tem, mas foi um que mais mexeu comigo, uma pessoa que eu conheceria 8 anos após estar morta e que me faria refletir mais sobre a vida e o que eu posso de fato fazer para ser, também, um herói.

No ano de 2011, eu e alguns amigos estávamos na Bienal do Livro no Rio Centro andando de um lado para o outro olhando os livros. Naquele dia eu sairia de lá com uma sacola cheia de livros mas quase todos dados por alguma editora, somente um comprado. Foi então que eu entrei em uma Stand e fui dar uma olhada nas promoções e lá estava ele me esperando. Com 50% de desconto (que maravilha!), o livro que iria revelar o cara que não estaria mais em histórias em quadrinhos ou filmes e que eu poderia de fato me espelhar para um mundo melhor. A capa já dizia “O homem que queria salvar o mundo” e eu logo me interessei. Quando olhei os comentários atrás, somado a oferta e ao estilo de vida do cara eu falei “é esse”; e de fato foi.

Sendo sincero, eu abandonei o livro na metade (já voltei a lê-lo), mas não porque era chato mas porque entre provas, enrolações e mudanças na minha vida acabei deixando ele de lado – assim como muitos outros –, sem nunca esquecer quem foi Sérgio Vieira de Mello. Logo nas primeiras páginas eu morri de raiva, o cara que eu já estava admirando antes de conhecer havia morrido em um ataque terrorista em uma embaixada em Bagdá. Mas até sua morte foi admirável, contam alguns sobreviventes que ele fora uma das primeiras pessoas a serem atendidas mas que logo recusou e pediu aos médicos para que atendesse as demais pessoas – típico de um herói. Por mais que seja um relato daqueles que faz livros e artigos serem lidos, não é de se duvidar que seja verdade. Sérgio era um cara de nome simples, humilde e sincero. Dizem seus amigos que “Sérgio conseguia penetrar em todos os mundos possíveis. Com Kabila (ex-presidente do Zaire/Congo), era um homem de uma ex-colônia pobre do mundo em desenvolvimento. E com os diplomatas europeus, era o dignitário educado na Sorbonne”.

Em alguns episódios que recordo do livro, ele foi capaz de se infiltrar em uma das piores organizações genocidas do mundo, o Khmer Vermelho, um antigo partido comunista do Camboja conhecido também como Kampuchea e conversar com o seu líder a respeito dos refugiados. Estratégias eram traçadas de maneira que quem não tivesse nada a ver com a história de disputa pudesse, no mínimo, sobreviver. Sérgio lutou contra a ditadura no Brasil e antes dela já almejou ser da Marinha, inclusive dizia que se fosse chegaria a almirante, talvez pela sua forma de fazer política. Não seguiu carreira no Itamaraty pois seu pai, um também diplomata, havia sido aposentado forçadamente por não concordar com as políticas dos militares. Por isso ele saiu da UFRJ e foi para França estudar em Sorbonne.

Lá ele fez Filosofia, construiu teses complicadíssimas e cresceu sua carreira no ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados). Assumiu muitos postos de comando mas sua carreira, basicamente, cresceu devido as suas posições em tomar atitudes arriscadas em momentos de delicadeza. Ele errou algumas vezes, acertou muitas outras, sofria duras críticas e não foi um pai/marido muito perfeito. Profissionalmente todos gostavam de estar ao seu lado, mas ele passou por muito altos e baixos, sofrendo, algumas vezes, até  pequenos casos de depressão.

Sérgio não se tornou um herói para mim por causa de sua vitória na vida, mas pelo exemplo que ele passava para os outros. Em meio ao caos ele era a serenidade, em meio a diversidade ele era a certeza e em meio a tantas opções ele era a escolha. Mesmo estando sempre em meio a problemas, através de sua imagem ele passava um ar de calma para as pessoas. E quando tinha uma opinião? Discutia inclusive com grandes amigos para defendê-las, não dava o braço a torcer.


Ele me ensinou até mesmo a ter mais fé, mesmo sendo ateu. De acordo com a autora, ele não tinha religião e ela chegou até mesmo a intitulá-lo como ateu, mesmo assim ele nunca deixou de respeitar a fé de alguém ou de não acreditar na humanidade. Ele estava nos piores lugares do mundo, vendo mulheres estupradas, homicídios por disputas políticas e pessoas morrendo por fome, ainda assim se utilizava até mesmo de pequenas atitudes para poder ajudar o próximo, mesmo não tendo uma religião ou uma crença religiosa imbuída.

Além de tudo isso, ele lembra meu pai quando mais novo fisicamente..rs

Esse é o cara que passei a admirar e ontem fez 10 anos de memória a sua partida. Em 2003 ele morreu em um atentado terrorista mas a sua memória não foi apagada. Seus amigos fazem qualquer um se emocionar com as suas mensagens e exemplos de perseverança. Ele não era um cara perfeito, era cheio de defeitos como eu e você, mas, no fundo, ele sabia de algo que, muitas vezes, eu e você não acreditamos – a humanidade ainda tem jeito.


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Cara ou Coroa?

Este artigo foi escrito por mim em março de 2013, assim como o próximo, ainda assim são válidos para este momento ou qualquer outro.

Ultimamente, com a intensificação dos protestos contra o pastor/presidente da Comissão de Direitos Humanos Marco Feliciano e umas discussões que tive no facebook a respeito de Ciência, venho passando a perceber um aspecto do mundo que vem me incomodando.

Provavelmente você já ouviu aquela frase “ame o próximo como a ti mesmo”, não já? Pois então, se não ouviu, saiba que, quase a totalidade das religiões presentes no mundo possuem esta frase de uma maneira similar. Porém quando estudamos Ciência Política, começa-se a entender que o que rege o mundo na verdade, não são as visões religiosas dele, mas as visões políticas.

A nossa sociedade é coberta por opiniões do tipo “respeitar ao próximo”, “respeitar os Direitos Humanos”, “não emitir opiniões vulgares sobre alguém”, etc, porém sabemos que nem tudo é como se deseja ser.

Cresce no mundo, cada vez mais, uma falsa sensação de liberdade. Podemos emitir opiniões, “falar o quanto queremos sobre o que quisermos”, mas se em algum momento emitirmos uma opinião que vá contra o senso comum da sociedade ou o que se tem, falsamente, chamado de liberdade, então somos taxados como idiotas, imbecis, desprovidos de inteligência, de direita, sem cultura ou o que mais desejar acrescentar a este vasto vocabulário.

Mas você deve estar se perguntando: “Tudo bem, mas por que você está falando isso?”

Porque é o seguinte, estão tirando o Direito das pessoas emitirem opiniões contrárias ao que a maioria da sociedade diz ou acredita, e isto é uma forma de manipulação. Mais radicalmente se dizendo, pode-se cogitar que é uma ditadura de opinião. Vejamos o porquê de eu achar isso e por que acho que ter opinião é diferente de respeito.

No Estado Nazista de Hitler ou na União Soviética, se você tivesse uma opinião contrária ao senso comum do Estado, ou você era morto, recluso ou preso. Em um Estado democrático, o mínimo que deveria existir era o Direito de emitir a sua opinião, seja ela qual fosse: defender os homossexuais ou não, acreditar em Deus ou não, seguir o método tradicional científico ou não, e assim sucessivamente.

Na sociedade pós-moderna vivemos um momento que eu chamaria de desequilíbrio de opinião, como assim? Simplesmente as opiniões são equilibradas pelas suas oposições, e aquele que vence essa disputa de poder ou se torna mais dominante terá mais privilégios em emitir mais as suas ideias do que o lado oposto.


Imagine por um momento uma balança de pratos. De um lado temos cientistas que acham que qualquer pesquisa que saia do campo tradicional do método científico é inválida. Do outro lado, temos aqueles que, ousando ir contra o mar de opiniões contrárias, seguem um outro viés de pesquisa, ou até mesmo seguem o método científico porém tentando descobrir questões fora da Ciência tradicional, e são minoria

Com a balança na qual citei, o lado científico tradicional vence e qualquer tentativa de se mudar essa tradicionalidade perde. Assim podemos também trazer isto para o campo político, social ou qualquer outro.

A democracia, diz-se ela, diferencia-se dos outros regimes pela liberdade de opinião de uma pessoa. Se ela, por sua crença pessoal ou não, acredita que o mundo não é esférico – deformado, oval, que seja –, só tem uma maneira de mudar a opinião dela, que é através da Educação, sem mais. Se você simplesmente chega e cria uma lei dizendo: “qualquer pessoa que pregue que o mundo não é redondo está passível de prisão e sua pena poderá pegar de 2 a 3 anos de cadeia ou serviços comunitários.”, cria-se somente mais ódio, raiva e rancor contra a opinião: “o mundo é esférico” pelo simples fato da pessoa que não acredita pensar: “Por que não posso acreditar o contrário? Quem são eles para me privarem de minha crença?”

Cristãos morreram queimados e arrastados no Império Romano, Judeus – eles são um povo, não uma religião – foram assassinados na 2ª Guerra Mundial, Muçulmanos e Islâmicos foram assassinados por cristãos na Idade Média, homossexuais morreram por defenderem sua opção sexual, negros morreram por defenderem sua liberdade...entendem onde quero chegar?

As pessoas dão a vida por suas crenças! Se uma pessoa é um SkinRed que vai sair por ai matando negros, mendigos e homossexuais e ainda assim perseguirem ela, ela vai continuar com as suas crenças, pois as crenças individuais não são formadas da noite para o dia mas com um processo longo de aprendizagem, opinião, influência da vida e da sociedade.

Quando criei este artigo não espera escrever tanto, mas realmente este tema vem me preocupando. O que realmente tem que importar no mundo são os maus-tratos, a violência e a punição física, não valores internalizados.

Se nós temos negros, homossexuais, crianças ou o que mais for em nossa sociedade sendo perseguido, não temos que impedir as pessoas de terem opiniões contrárias mas sim criar leis para impedir que as pessoas façam algo que vá ferir ou machucar o próximo, como é o caso da lei Maria da Penha, que defende as mulheres de abusos sexuais e violências físicas.

Um dos fatores que me levaram a escrever este artigo é que eu já sofri muito preconceito em minha vida e nunca tive uma lei para me defender, nem por isso me tornei uma pessoa violenta ou pior pelo que aconteceu comigo, pelo contrário. Enfrentei as diversidades e preconceitos, dei a volta por cima e hoje faço a minha parte seguindo a minha vida. Assim foi comigo e com diversas pessoas que conheço.

Sinceramente, se opinião pessoal fosse motivo para tornar o mundo melhor, então a nossa política deveria ser a melhor do mundo. Quantos deputados, senadores, vereadores, prefeitos, presidentes ou quaisquer outros políticos não defendem o direito de todos e do povo? Quantos deles são corruptos e não fazem nada para o povo? Pois é...a opinião que eles mostram não é denotada pela atitude que eles tomam no dia a dia.