Antes de mais nada, escrevo este texto ouvindo a música de "Gabriel O Pensador - Racismo é burrice", ouça também e faça suas próprias críticas.
Esta semana aconteceu algo comigo que me abalou muito. Sempre soube da minha personalidade forte e os meus debates calorosos, mas jamais havia perdido uma amizade em uma discussão até então com uma pessoa que eu admirava e respeitava. Isso mexeu com a minha estrutura e eu estou definitivamente decidido a controlar essa parte da minha personalidade depois disso. Mas afinal, como tudo isso começou?
Tudo começou por causa dessa maldita banana. Sim, eu defendi a banana e o somos todos macacos, mas não, isso não significa que eu esteja certo, muito menos que minha percepção seja absoluta e que eu não mude de opinião. Mas acredito que um mínimo de sensibilidade ao ser humano, para saber como se fala com o outro é essencial para a construção de bons relacionamentos.
Então, partindo desta banana, resolvo fazer a seguinte pergunta para você responder para si mesmo, você é racista? Afinal, o que é o racismo?
De acordo com os seguintes dicionários, trata-se de:
- Minidicionário Luft: "1.Doutrina dos que pregam a superioridade de certas raças humanas. 2. Ação ou qualidade de indivíduo partidário dessa doutrina"
- Priberam online: "1. Teoria que defende a superioridade de um grupo sobre outros, baseada num conceito de raça, preconizando, particularmente, a separação destes dentro de um país (segregação racial) ou mesmo visando o extermínio de uma minoria. 2. Atitude hostil ou discriminatória em relação a um grupo de pessoas com características diferentes, notadamente etnia, religião, cultura, etc"
- Michaelis online: "1 Teoria que afirma a superioridade de certas raças humanas sobre as demais. 2 Caracteres físicos, morais e intelectuais que distinguem determinada raça. 3 Ação ou qualidade de indivíduo racista. 4 Apego à raça."
Para quem não se lembra dos horrores da Segunda Guerra Mundial, o que Hitler cometeu com os judeus, maçons, ciganos, negros e "não-arianos" (de acordo com os termos do nazismo), foi a maior prática de racismo dos tempos modernos. Ali morreram não somente judeus, mas muitos outros povos e raças que possuíam suas culturas e particularidades das quais Hitler e sua ideologia abominavam. Em qualquer um dos três dicionários acima você pode ver a definição de racismo aplicado às práticas de Hitler.
Acontece que, na sociedade brasileira, por séculos, os negros foram subjugados a vontade dos brancos e, por isto, criou-se uma comunidade negra muito mais pobre e com menos direitos. É fácil entrar em uma universidade e ver as salas de aula lotadas de branquinhos como eu. Ainda assim, vou contar um pouco mais do que aconteceu comigo e qual foi a minha atitude.
Na discussão, eu fui chamado de racista (contra os negros). Não vou ficar aqui falando sobre ela pois não há um espaço para a pessoa que discutiu comigo se defender, portanto, não é justo. Mas isto já vai servir para a construção do que quero continuar desenvolvendo aqui...
Como eu havia falado acima, não só a atitude de ter me chamado de racista me incomodou, mas a forma como ele se expressou ao falar comigo, simplesmente me senti um racista...
Pensando nisso, nada melhor do que conversar com uma terceira pessoa que não estivesse envolvida com a história...
Ao chegar no local em que trabalho, a minha frente sentou uma pessoa negra. Nervoso por ter sido chamado de racista e ansioso ao perguntar a opinião daquela pessoa, não exitei um minuto ao falar...
- Desculpa, mas eu preciso de sua opinião em algo muito importante para mim...
- Desculpa, mas eu preciso de sua opinião em algo muito importante para mim...
Expliquei para ele a história, o que eu tinha falado para ter sido chamado de racista e o que ele achava daquilo, até que ele começou a me contar a sua história pessoal:
"Nasci em um lugar pobre, mas muito pobre mesmo, a única coisa que não faltavam eram escolas públicas, haviam 10 na região. Independentemente de como o ensino era, posso dizer que oportunidade de estudar eu tive. Meu pai se separou da minha mãe quando eu tinha uns 8 anos de idade. Podia faltar o que fosse dentro de casa, mas minha mãe nunca deixava de faltar um caderno, um livro e um lápis para mim e meu irmão. Hoje, X anos depois disso tudo, estou aqui trabalhando com você mas sou formado em Direito pela Universidade Y, já trabalhei em várias multinacionais, viajei para a Europa, conheci o mundo, etc. Já meu irmão, sabe qual foi a escolha dele? Não ter nem o Ensino Fundamental Completo."
Ao ouvir esta história, confesso que não esperava por uma riqueza de detalhes tão grande. Ali percebi uma história que, de fato, não esperava ouvir. A pessoa me relatou as suas viagens a Europa e, diante deste caso que ocorreu com o Daniel Alves, embora afirmasse que lá realmente este tipo de ideologia seja mais intensa, disse que se sentiu menos discriminado lá do que aqui. O que ele me afirmava é que não sabia se as pessoas o respeitava por ser negro ou ser brasileiro, se o respeitava pela nacionalidade ou por quem era, mas que de fato o respeitava.
Com isso, aproveitei o embalo da conversa e perguntei sobre temas mais polêmicos, tais como cotas - E ai, o que você acha disso. Perguntei.
"Posso afirmar que realmente a minha escola teve defasagem em relação a uma particular. Por exemplo, enquanto em uma particular as aulas de química ocorriam normalmente, eu não tive. Além disso, tivemos várias greves, o que atrapalhava bastante no rendimento da aula. Tudo isso nos atrapalhava no vestibular. Poderíamos até disputar, por exemplo, em Português e Matemática, mas em outras matérias, estávamos muito defasados. Porém, antes de tudo, sou contra cotas para negros. Na minha sala de aula haviam brancos que também eram pobres, estavam ali sem opção. Também foram prejudicados no vestibular por terem estudado naquele tipo de Colégio. Qual o motivo então de eu ter este tipo de vantagem e ele não? Intelectualmente somos semelhantes, não há nada que nos diferencie quanto a isto. Por isso, então acredito que a cota deveria ser para quem estudou em Colégios Públicos por X tempos e não somente para negros."
E esta foi a opinião dele, que também seria a minha, com a única diferença que eu sou branco (ou melhor, mestiço) e isto seria encarado como uma discriminação racial.
Como podemos ver na letra da música de Gabriel O Pensador:
Meu colega de trabalho me demonstrou, através de sua própria vida, que duas pessoas criadas no mesmo lugar atingiram destinos completamente diferentes. Um formado em Direito e o outro nem ao menos havia terminado o Ensino Fundamental (ou Médio, ele ficou na dúvida). Ele disse que isto não tornava o irmão dele uma pessoa que não sabia falar, ou que falava errado, mas que nas escolhas para a vida deles, não foi uma série de facilidades que decidiu isto, mas a sua própria luta pessoa. Ou seja, a culpa pode ter sido do sistema, mas a responsabilidade foi de cada um.
Eu fui criado em uma rua com pessoas negras, das quais muitas delas eu passo hoje e me reconhecem, me abraçam, falam comigo, riem e me cumprimentam, mas também na qual, alguns dos meninos que moravam na mesma localidade que eu, me discriminavam por ser branco. Na verdade, isto nunca foi um impedimento para que eu pudesse sair às ruas e brincar, muito menos causo-me algum tipo de trauma do qual eu sentisse raiva de um negro, muito pelo contrário. Mas me lembro muito bem das piadas e músicas que inventavam para mim ou mesmo das vezes que já apanhei por isto, MAS QUE FORAM CASOS ISOLADOS e não me impediam de brincar e ter grandes amigos negros. Porém, lembro-me também, do quanto eu era ameaçado quando morava em outro bairro no qual, ao comprar pão para a minha mãe, falava para ela o quanto os outros garotos me olhavam atravessado e eu não gostava de passar por lá por me sentir diferente.
Desde então, nunca tive problemas com pessoas negras, pelo contrário. Muitos dos meus grandes amigos ou são negros ou tem traços com negros. Nunca tive nenhum tipo de repulsa ou apoiei qualquer violência, seja ela verbal ou física, contra qualquer tipo de pessoa por causa de sua cor. Posso sim ter discriminado uma pessoa por outros motivos, mas não este.
Perceba isto, a discriminação contra negros no Brasil é uma realidade latente muito maior do que a realidade isolada e minúscula que vivi. Em nenhum momento estou fazendo aqui um estímulo de preconceito contra nenhum tipo de raça, cor, credo ou religião, mas é inegável que, por exemplo, esses brancos e pobres que estejam cursando um colégio público estariam também tendo os seus direitos privados caso a cota fosse somente para negros (há cotas para os Colégios Públicos e pobres atualmente). É só imaginar um caso hipotético de uma mãe que tenha tido um filho negro e outro branco. A mesma criação, o mesmo ambiente, porém oportunidades de escolhas diferentes.
Conforme demonstrado pelo "Ministério da Justiça", a situação dos presídios é a seguinte:
Como podem ver no gráfico, a situação dos negros é a mais grave. Agora eu lhe pergunto, será mesmo que somente uma política de cotas resolverá esta situação? Como estão sendo tratados os presidiários? Como será que as políticas de segurança pública é educada? Como estão ensinando as crianças nas escolas? Qual é o estímulo para o estudante hoje ir estudar? Qual é o diferencial entre a rua e a sala de aula? Qual é o valor do professor dentro de classe? Vamos mudar tudo isto somente com medidas paliativas?
A minha opinião é a seguinte: enquanto continuarem tratando o negro como negro e o branco como branco, não haverá uma coisa só chamada povo, integridade ou humanidade. Alguns chamam isso de utopia, ao meu ver se chama Justiça. Passamos séculos tratando os negros como indigentes, os índios como selvagens, os "brancos" como intelectuais e desenvolvidos (visão eurocêntrica) e o que ganhamos com isso? Quando foi que passamos a criar medidas eficientes para se incutir a mentalidade de que uma criança negra não tem diferença nenhuma, a não ser na cor, perante uma criança branca ou parda? Ou que uma criança palestina não tem nenhum diferença perante uma judaica?
A humanidade cria rótulos, dentre os quais incluem-se os negros, os brancos, os pardos, os mulatos, os africanos, os brasileiros, os europeus, (...) , quando, na verdade, somos todos evoluídos de um ancestral em comum ao macaco (ou seja, #NÃOsomostodosmacacos, #somotodosancestralemcomumaomacaco), possuímos todos os mesmos órgãos, o mesmo cérebro, moramos na mesma Terra, compartilhamos os mesmos recursos e dependemos de todos ao nosso redor.
Por mais distante e utópico que possa parecer meu pensamento, acredito, fundamentalmente que, enquanto não tratarmos todos os seres humanos dotados da mesma capacidade, responsabilidade e DANDO A TODOS a mesma oportunidade inicial, sem discriminação de raça, cor, credo ou religião, então nunca seremos livres de que hoje o racismo seja contra o negro, amanhã contra o nordestino, depois de amanhã contra o homossexual, depois de depois de amanhã contra o branco e em seguida contra tudo e todos, pois sempre estaremos achando contra quem depositar a nossa culpa, sem trazer para nós a responsabilidade de mudança de tudo o que há por ai.
"Não seja um imbecil
Não seja um ignorante
Não se importe com a origem ou a cor do seu semelhante
O que que importa se ele é nordestino e você não?
O quê que importa se ele é preto e você é branco?
Aliás, branco no Brasil é difícil
Porque no Brasil somos todos mestiços (...)
Tinha índio, branco, amarelo, preto
Nascemos da mistura, então por que o preconceito?"A ideia que levou a toda esta discussão, que me levou a perder uma amizade e a realizar esta série de perguntas ao meu colega de trabalho, foi que, simplesmente, eu percebo o branco, índio ou negro como sendo iguais e não diferentes. Este tipo de pensamento me leva a crer que, seja você negro ou seja você branco, será a sua individualidade que definirá os caminhos que irá tomar. Ainda assim, nada disso nega os fatores sociais, as dificuldades do dia a dia e tudo que irá ter que enfrentar para se superar, muito menos que terá que parar de lutar pelos seus direitos, porém, ainda assim, a sua dificuldade ou fragilidade não pode ser tratada como uma desculpa para não alcançar os seus objetivos e metas, e foi isto que esta história pôde me mostrar.
Meu colega de trabalho me demonstrou, através de sua própria vida, que duas pessoas criadas no mesmo lugar atingiram destinos completamente diferentes. Um formado em Direito e o outro nem ao menos havia terminado o Ensino Fundamental (ou Médio, ele ficou na dúvida). Ele disse que isto não tornava o irmão dele uma pessoa que não sabia falar, ou que falava errado, mas que nas escolhas para a vida deles, não foi uma série de facilidades que decidiu isto, mas a sua própria luta pessoa. Ou seja, a culpa pode ter sido do sistema, mas a responsabilidade foi de cada um.
Eu fui criado em uma rua com pessoas negras, das quais muitas delas eu passo hoje e me reconhecem, me abraçam, falam comigo, riem e me cumprimentam, mas também na qual, alguns dos meninos que moravam na mesma localidade que eu, me discriminavam por ser branco. Na verdade, isto nunca foi um impedimento para que eu pudesse sair às ruas e brincar, muito menos causo-me algum tipo de trauma do qual eu sentisse raiva de um negro, muito pelo contrário. Mas me lembro muito bem das piadas e músicas que inventavam para mim ou mesmo das vezes que já apanhei por isto, MAS QUE FORAM CASOS ISOLADOS e não me impediam de brincar e ter grandes amigos negros. Porém, lembro-me também, do quanto eu era ameaçado quando morava em outro bairro no qual, ao comprar pão para a minha mãe, falava para ela o quanto os outros garotos me olhavam atravessado e eu não gostava de passar por lá por me sentir diferente.
Desde então, nunca tive problemas com pessoas negras, pelo contrário. Muitos dos meus grandes amigos ou são negros ou tem traços com negros. Nunca tive nenhum tipo de repulsa ou apoiei qualquer violência, seja ela verbal ou física, contra qualquer tipo de pessoa por causa de sua cor. Posso sim ter discriminado uma pessoa por outros motivos, mas não este.
Perceba isto, a discriminação contra negros no Brasil é uma realidade latente muito maior do que a realidade isolada e minúscula que vivi. Em nenhum momento estou fazendo aqui um estímulo de preconceito contra nenhum tipo de raça, cor, credo ou religião, mas é inegável que, por exemplo, esses brancos e pobres que estejam cursando um colégio público estariam também tendo os seus direitos privados caso a cota fosse somente para negros (há cotas para os Colégios Públicos e pobres atualmente). É só imaginar um caso hipotético de uma mãe que tenha tido um filho negro e outro branco. A mesma criação, o mesmo ambiente, porém oportunidades de escolhas diferentes.
Conforme demonstrado pelo "Ministério da Justiça", a situação dos presídios é a seguinte:
Como podem ver no gráfico, a situação dos negros é a mais grave. Agora eu lhe pergunto, será mesmo que somente uma política de cotas resolverá esta situação? Como estão sendo tratados os presidiários? Como será que as políticas de segurança pública é educada? Como estão ensinando as crianças nas escolas? Qual é o estímulo para o estudante hoje ir estudar? Qual é o diferencial entre a rua e a sala de aula? Qual é o valor do professor dentro de classe? Vamos mudar tudo isto somente com medidas paliativas?
A minha opinião é a seguinte: enquanto continuarem tratando o negro como negro e o branco como branco, não haverá uma coisa só chamada povo, integridade ou humanidade. Alguns chamam isso de utopia, ao meu ver se chama Justiça. Passamos séculos tratando os negros como indigentes, os índios como selvagens, os "brancos" como intelectuais e desenvolvidos (visão eurocêntrica) e o que ganhamos com isso? Quando foi que passamos a criar medidas eficientes para se incutir a mentalidade de que uma criança negra não tem diferença nenhuma, a não ser na cor, perante uma criança branca ou parda? Ou que uma criança palestina não tem nenhum diferença perante uma judaica?
A humanidade cria rótulos, dentre os quais incluem-se os negros, os brancos, os pardos, os mulatos, os africanos, os brasileiros, os europeus, (...) , quando, na verdade, somos todos evoluídos de um ancestral em comum ao macaco (ou seja, #NÃOsomostodosmacacos, #somotodosancestralemcomumaomacaco), possuímos todos os mesmos órgãos, o mesmo cérebro, moramos na mesma Terra, compartilhamos os mesmos recursos e dependemos de todos ao nosso redor.
Por mais distante e utópico que possa parecer meu pensamento, acredito, fundamentalmente que, enquanto não tratarmos todos os seres humanos dotados da mesma capacidade, responsabilidade e DANDO A TODOS a mesma oportunidade inicial, sem discriminação de raça, cor, credo ou religião, então nunca seremos livres de que hoje o racismo seja contra o negro, amanhã contra o nordestino, depois de amanhã contra o homossexual, depois de depois de amanhã contra o branco e em seguida contra tudo e todos, pois sempre estaremos achando contra quem depositar a nossa culpa, sem trazer para nós a responsabilidade de mudança de tudo o que há por ai.
"Então que morra o preconceito e viva a união racial"
