terça-feira, 16 de setembro de 2014

A lógica socialista e o espírito do fundamentalismo protestante

Alguém já conversou com um fundamentalista religioso ou protestante? Se não, vou dizer para você com base no que eu mesmo já fui.

O fundamentalismo religioso se baseia, principalmente, na premissa dos seus principais mestres, dogmas e ideologias. É basicamente assim "se você não conhece a Bíblia então você não sabe de nada sobre Deus, e se você conhece e não pensa como nós, então Deus (Espírito Santo) não habita em você".

O problema deste argumento são dois, "quem somos nós? E como nós pensamos?". E desta maneira você vê a polarização da religião protestante, sendo abertas várias igrejas com ideologias diferentes. Ainda assim, a maioria delas possui alguns preceitos em comum, tal como aceitar a trindade (Espírito Santo, Jesus Cristo e Deus) como sendo somente um, o batismo nas águas e o confessar Jesus como único e suficiente salvador.

Mas e ai, qual é a lógica disso se comparado ao socialismo? Uma ideologia totalmente adversa, com muitos pensadores ateus e contrários a religião? Vejamos.

O socialista, embora existam muitas correntes (Lenista, Stalinista, Maoísta, etc) segue, basicamente, os fundamentos de Marx (mesmo que não tenha sido ele o fundador do socialismo). Marx escreveu a Bíblia dos socialistas, "O Capital", o qual sem o mínimo conhecimento dele você não pode ser considerado um socialista de verdade. Além disso, os socialistas tomaram o monopólio da esquerda, ou seja, se você é pró-mercado, livre-comércio e coisas deste tipo, então você é de direita, reaça, essas coisas (mesmo que defenda o direito de escolha do aborto, a legalização da maconha, a não intervenção, etc). Conquistaram também o monopólio do altruísmo, dizendo que 'capitalistas' que fazem 'doações', na verdade, dão esmolas, e só o Estado pode salvar as pessoas da grande opressão do Capital. Tal qual aqueles que acreditam na salvação única de Jesus Cristo, eles acreditam na única salvação através do socialismo de se livrarem do "capital especulativo", "interesses privados" e "ganância do rico". E, dentro da própria esquerda, alguns tomaram o monopólio de Marx, portanto, como a Luciana Genro dando fora no Danilo Gentili pedindo para ele estudar, esta parte da esquerda não reconhece a influencia de Marx em regimes Stalinistas, Maoístas ou como o praticado pela Coréia do Norte.

Assim como aquela pessoa que culpa o "Diabo" por todos os problemas no mundo e o "demônio" por todos os problemas na sua vida, o socialista culpa o capitalistasmo, o livre mercado e os interesses dos grandes capitais por todos os pobres no planeta, por todas as pessoas que passam fome, pela desigualdade social e pelo controle do capital por 1% da população.

Neste momento fico pensando em como o mundo deveria ser mais interessante sem uma Revolução Francesa, uma Revolução Industrial, o avião, o computador, a internet, o WiFi. Talvez devêssemos viver em algum tipo de feudalismo, presos aos encantos de nossos senhores e devendo toda a sorte de bens à eles e assim conseguiríamos respirar a liberdade de não ter interesses bancários sobre as nossas cabeças.

Embora eu tenha um coração libertário, sei reconhecer alguns papis do Estados em nossas vidas e, por isso, acho que ele deva existir para garantir os fatores mais básicos de nossa existência. Mesmo assim, um socialista dificilmente se curva ou reconhece as deficiências de um Estado, para ele o mal da sociedade está no capital. Isso é fácil de se perceber até no desenvolvimento de grandes estudiosoa. Um grande historiador como Erick Hobsbawn quando narra o estilo de vida na Revolução Industrial, só consegue se prender a questões como a quantidade de pessoas nas ruas, a precariedade da vida nos centros urbanos e da "hipocrisia" da burguesia no seu estilo de vida. Na 2° Guerra Mundial, um movimento como o fascismo, que possui características tanto de esquerda como de direita, é taxado como direita para isentar a esquerda de sua cooperação, mesmo que ideológica. Em se tratando de contemporaneidade, poucos reconhecem os genocídios cometidos pela União Soviética ou a China de Mao - e quando reconhecem dizem que aquilo não é ou foi socialismo -, mas em se tratando de culpar os americanos, não se importam em enumerar as mais de 500 invasões ou violações a soberania. Não pensam que fazem isso porque eles querem "ajudar" o mundo, mas porque os americanos são um dos maiores exemplos de capitalismo (embora não tanto liberal). Assim como o fundamentalista religioso, o socialista tem uma dificuldade em reconhecer os seus principais erros. Para ele, o mundo se centra em sua teoria e assim tudo se justifica.

Escrevo este artigo andando de trem e acabo de passar por um conjunto de casas feitas de papelão, pessoas sem saneamento básico, luz e vivendo em situação insalubre. Vejo também pessoas usando crack e sentadas próximas aos trilhos. A análise socialista olha para essas pessoas e pensa "capitalismo maldito" e esquece que o mesmo Estado que ela tanto defende esqueceu aquelas pessoas. Se estivesse no poder, o socialista pensaria "vou destinar os dinheiros aos pobres, vou salvar a vida deles e taxar os ricos" e esquece de que os "ricos" são os maiores detentores das oportunidades de trabalho para aqueles pobres. Para resolver isso o socialista diz "se o rico não quer dar trabalho, vou criar obras sociais, expandir o Estado" e assim vai construindo um Estado socialista, passando por cima dos interesses individuais e se achando "Deus" ao ponto de matar o Diabo (Capital) e resolver todas as mazelas do mundo e problemas do mundo. O socialista acha que só ele defende os Direitos Humanos, as minorias e pobres, seria o "Jesus" dos pobres. Que o diga Hugo Chávez, que fizeram uma oração do pai nosso para ele.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Democracia – o deus que ainda manca

Como diria Winston Churchill: "A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos".

Talvez ele tenha razão, é possível que não haja uma forma de governo testada melhor do que a democracia. Fato este observado, principalmente, nas causas que levaram à Segunda Guerra Mundial, que fora o descrédito com o liberalismo político e ascenção do fascismo como teoria política sobreposta a democracia.

Tendo este aspecto do fascismo realçado, qualquer crítica ao sistema democrático é apontada como fascista. Esta atitude “fascista” dos democratas não permite que a democracia seja questionada nem, muito menos, de que novas formas de governo sejam testadas.

A lógica democrática é mesmo interessante. No livro “AK-47 – A arma que transformou a guerra”, no seu capítulo 4, conta a história de Charles Taylor, um soldado paramilitar que combatia as forças liberianas e acabou sendo preso em prisão americana. Depois de uma espetacular fuga cinematográfica de uma das prisões, ele volta à Libéria e continua a sua guerra ao governo. Neste interim, Taylor usa crianças como soldados em seus grupos milicianos e as alicia dando em troca um carrinho de brinquedo e uma AK-47. Com esta arma em mãos, associado ao tráfico internacional de armas e apoio da indústria bélica soviética, Taylor impõe uma economia no qual a AK-47 se torna moeda de troca para muitas coisas na Libéria. E assim, como o próprio título do capítulo propõe, a arma se torna quase que um “cartão de crédito” no direito a adquirir bens materiais.

Acontece que, entre 1997-2003, ele foi presidente da Libéria eleito com uma média de 75% dos votos. Primeiramente, a porcentagem tão alta não demonstra a capacidade da população liberiana em escolher um grande líder, senão ao poder militar que ele representava no país e o medo que ele impunha a população. Não bastando ele ter sido eleito, as potências Ocidentais reconheceram o caráter democrático das eleições e a legitimidade de Taylor. Pronto, estava feito a cagada.

Taylor não só promoveu uma chacina em seu Estado e na Serra Leoa, matando homens, mulheres, crianças e idosos, sendo condenado pela Corte Especial para Serra Leoa, como também liberou passaportes diplomáticos e vistos para dezenas ou centenas de criminosos traficantes de pessoas, diamantes, armas e drogas em seu país. Ainda assim, em nenhum momento ele foi deposto ou poderia ter sido enfrentado pelo seu próprio povo – que não tinha nem instrução nem poder bélico para isso.

Levando-se em consideração outro exemplo, a Constituição cubana é um forte indício da confusão que há no conceito democrático. Para os socialistas e comunistas não há exemplo mais forte de democracia do que Cuba. Ela não só ressalta isso em sua Constituição, como também possui grandes centros em que as pessoas podem debater política, interesses públicos, gestão de recursos, etc. Acontece que, para boa parte do mundo ocidental, Cuba é considerada uma ditadura; não só pelo caráter “monarquista” ou “ditador” de seu líder, como também pela perseguição aos jornalistas, emigrantes e também aos propagadores contrários ao regime. No entanto, logo no seu primeiro artigo, a Constituição já se proclama como uma república democrática.

artículo 1o.- Cuba es un Estado socialista de trabajadores, independiente y soberano, organizado con todos y para el bien de todos, como República unitaria y democrática, para el disfrute de la libertad política, la justicia social, el bienestar individual y colectivo y la solidaridad humana.”

E para terminar esta questão de democracia, nada melhor do que a Constituição venezuelana. Entre os constituicionalistas, esta é uma das constituições mais democráticas do mundo. Ela abre espaço para diversos setores, participação popular através de plebiscitos e referendos, demarcação de territórios indígenas, etc. No entanto, quando se faz uma análise da política tradicional chavista, o que se percebe é um governo que constantemente precisa trocar os seus Ministros, pois não consegue satisfazer as necessidades econômicas mais básicas do seu povo, faltando até mesmo papel higiênico nas prateleiras dos supermercados, um controle absurdo das pessoas, no qual o último foi estabelecer um decreto exigindo um leitor biométrico em todos os supermercados e constantes conflitos com a oposição, levando jovens cada vez mais insatisfeitos às ruas e passeatas cobrando, cada vez mais, posturas diferentes do governo. Ainda assim, é um governo “superdemocrático”, no qual também persegue jornalistas, não aceita discurso da oposição e tenta, até mesmo, beatificar o ex-presidente Hugo Chávez.

Tudo bem então, onde está "mancando" a democracia?

Em muitos aspectos, mas os que vou destacar são no fato de que não há um consenso sobre qual é a melhor forma e interpretação sobre o que é a democracia e, em segundo, que é considerar que todos os cidadãos sejam politizados e interessados em política.

A primeira questão levantada é bem relativa. A democracia, por si só, permite diversas interpretações, adaptação e contextualização do local em que ela se insere. Tanto o é que em muitos Estados se optam por um regime Parlamentar e em outros Republicanos. Em uns o Primeiro-Ministro tem mais força que o Presidente, em outros nem Primeiro-Ministro tem, e por ai vai. Neste sentido, há o fator negativo de não se ter uma definição exata de democracia mas há um fator positivo que se sobressai ao anterior, que é a liberdade de um Estado formar aquilo que terá mais a ver com o seu desenvolvimento, cultura e população.

Já com relação a segunda questão, acho ela mais grave. Primeiramente, é uma utopia achar que todos seremos politizados simplesmente pelo fato de que nem todos se interessam ou gostam de política. Neste sentido, o regime democrático acaba sendo uma imposição de ideias daqueles que “melhor vendem o seu peixe” e não daqueles que efetivamente planejam desenvolver um Estado, trazer justiça e melhores oportunidades para todos. Exemplo bem simples de entender isto é uma reunião de um Colegiado de um curso de faculdade. Embora todos no curso tenham representatividade e seja aberto para emitir opiniões, muitos não vão as reuniões porque não gostam, não querem, não estão afim, não tem tempo...enfim, não vão. Dos que vão, nem todos vão emitir opiniões, seja por serem tímidos, não concordarem com o que está sendo dito e ficarem com medo de se expor, seja por estarem ali só observando e ouvindo ou, até mesmo, porque só foram ali por causa de uma amizade. Por fim, irá falar e ser eleita a pessoa mais ousada, descolada, interessada e empenhada. A pessoa que se põe a frente é alguém que “abraça a causa” e vai em busca daquilo que considera melhor para o seu curso. Isso, de fato, possui algo intrisicamente positivo pois esta pessoa estará lutando pela melhoria da qualidade do curso e de questões relacionadas a ele. Afinal de contas, tirando algumas questões pontuais, todos querem estudar em um curso melhor e, se estão ali naquele curso, é porque possuem algumas ideias em comum. Mas, ainda assim, muitas das ideias que esta pessoa defende não representam o que todos pensam, senão aqueles que venceram a votação.

Agora leve esta questão para termos de cidade, estado ou país. Imagine quantas pessoas não são interessadas em políticas, não querem ir, não possuem estudo ou se enquadram em alguma das outras situações citadas. Ao contrário do Colegiado, aqui ganha não o que está mais engajado ou tem boas intenções, mas os que possuem os maiores recursos para propagarem suas ideias, os que estão mais dispostos a “ceder” para interesses escusos (que vão apoiá-los) ou que são mais conhecidos pela população, seja por suas ideias ou pela propagação de sua imagem. Não só bastando isso, entra também um grande “marketing” que propaga a imagem do candidato ideal interferindo em fatores extrasensoriais tais como apelando para o emocional do ser a ideia de ser o melhor candidato, o mais preparado, o que tem mais “boas intenções” ou que é o melhor articulista. Por fim, o que irá ganhar não será o que tem o melhor plano de governo (pode até ser que sim) necessariamente, mas o que conseguir melhor passar isso para o seu eleitorado – seja através da violência, como fez Taylor ou da supressão de liberdade individuais, como em Cuba, ou simplesmente através do marketing, financiamento e propagação da imagem do candidato.

Para finalizar, nem todos os seres humanos são interessados em política, nem nunca todos vão ser. Algumas pessoas são apaixonados por artes e, jamais, assistiram, sequer, um debate político - não por ignorância, mas porque não gostam. Outros não possuem conhecimento suficiente para saber o que vai ser melhor para as suas vidas e votam naqueles que melhor passam a mensagem de que serão melhores para eles. Outros ainda são apaixonados por política, estudam, assistem todos os debates, mas são pautados por suas ideologias na hora de votar, o que não permite a escolha, algumas vezes, de candidatos que seriam eficientes (pode ser até o meu caso algumas vezes). E neste caso, deixo aqui como exemplo o candidato a presidência brasileira Eduardo Jorge do PV que, por mais que tenha boas intenções e demonstre firmeza em algumas falas, jamais seria escolhido pelo eleitorado simplesmente por não maquear os seus discursos, não ter financiamento para propagar sua imagem e nem utilizar-se de palavras prontas ou discursos de impacto psicológico para conquistar o eleito. Isso não significa que votarei nele, mas apenas que, mesmo que ele fosse o melhor candidato do planeta Terra, ainda assim não seria o escolhido por não fazer a imagem de melhor “enganador” o qual a democracia propõe.

Ainda tem muito para se falar sobre isso, mas encerro por aqui por hoje. 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Quanto mais Estado, menos eficiência


Por que um Estado forte e grande dificilmente será eficiente?

A resposta para esta pergunta é mais simples do que parece. Ele simplesmente não será eficiente porque ele não é onipotente, onisciente nem onipresente.

O Estado é uma figura interessante. Retratado como o grande Leviatã (figura mitológica relacionada a um monstro marítimo) por Thomas Hobbes, ele sempre foi tido como o defensor do cidadão - conceito este que também se modificou ao longo dos séculos. O real propósito do Estado era proteger os seus cidadãos do que seria o "estado de natureza"do homem, uma condição na qual a humanidade seria rebelde, doentia, assassina e conflituosa. Com isso, este propósito do Estado o tornou um apaziguador de problemas, ele estaria aqui para nos proteger de nós mesmos e do mal que seria a vida sem a sua existência. A partir dai, vai se desenvolver o debate de até onde deve ir o Estado, suas formas de governo e o que seria melhor para um povo.

Entretanto, na sua natural evolução política, o Estado encontrou uma forma que é endeusada pelo Ocidente e conhecida como democracia. Regime encontrado pela primeira vez nos registros históricos grego, ele dava a oportunidade dos cidadãos escolherem os seus representantes e a partir deles seriam delegadas as funções, leis e ajustes para melhor administrar o Estado.O problema, já apontado por Platão - séculos antes de Cristo -, deste tipo de regime, era que os mais pobres não tinham tempo para participar das assembléias e debates para decidir quais seriam as melhores decisões a serem tomadas e que seriam positivas para toda a sociedade, eles teriam que estar trabalhando para se sustentarem ao invés de discutir política. Neste sentido, a democracia grega se tornou uma concentração de poder na mão das elites gregas, que utilizavam o aparato democrático para que as decisões tomadas viessem não a favorecer o povo,mas a eles mesmos.

O regime democrático morreu durante séculos e voltou a renascer a partir dos eventos subsequentes a Revolução Francesa. A partir de então, começaram a cair os regimes imperiais e monárquicos para dar lugar ao direito de voto e participação cidadã através do republicanismo. Neste processo, a Revolução Industrial modificou o mundo, as cidades urbanas se expandiram, a democracia se fortaleceu e o papel do voto e da representatividade passaram a fazer maior parte da vida das pessoas.

No entanto, a característica inicial do Estado permaneceu. Assim como um deus mitológico, ou um demônio dos mares, o Estado permaneceu como sendo o principal ator em defesa do seu povo, de seus cidadãos e dos seus interesses. O que, no entanto, é um pouco contraditório, é como que diversas opiniões e divergências dentro de um Estado seriam responsáveis pela sua eficiência e, ao mesmo tempo, fortalecimento da democracia. A figura do Estado tal qual ela continua estabelecida faz com que ele se torne o responsável por todas as soluções dos problemas que ocorrem dentro dele e, muitas vezes, fora através da Política Externa - algo materialmente impossível.

O Estado é administrado por homens que possuem a função de vigiá-lo, regulá-lo e administrar, da melhor maneira possível, todos os recursos do qual ele possui e arrecada. O problema, além dos já apontados no começo, também volta a aparecer quando perguntas simples são levantadas, tais como "A quem se destinarão os recursos obtidos pelo Estado?", "Como serão obtidos os recursos do Estado?", "Quem administrará esses recursos?". E com essas perguntas, voltamos não só a dilemas atuais, mas àqueles apresentados por Platão há mais de 2 milênios atrás.

O Estado tem a peculiaridade de aparentar uma aparência altruísta. Afinal, imagine que um grupo de pessoas que morem juntas precisem de uma máquina de lavar roupas para as ajudar no dia a dia. Levando-se em consideração que todas elas possuem algum tipo de renda, o que seria mais fácil e justo; alguma delas comprar a máquina sozinha para o uso de todos ou que cada um contribuísse com uma quantia para que todos pudessem usar? Partindo somente desta hipótese, sairia muito mais em conta se cada um pudesse ajudar com uma pequena quantia. De maneira bem simples, assim também deveria ser o Estado através do que se convencionou chamar de impostos, porém não o é.

Dentro de um Estado existem, nos dias atuais, milhões de seres humanos, cada um com um pensamento sobre a vida e o mundo e com necessidades pessoais e diferentes. Como poderia então uma entidade estatal estabelecer o que é melhor ou pior para cada uma delas? Como pode o Estado saber a quantidade de veículos, comida, vestimenta ou lazer que cada um quer ou precisa? É simplesmente impossível, ainda que o Estado fosse uma super máquina de computador. Ainda assim, na tentativa de minimizar esta realidade, tentou-se dividí-lo em federações, que por fim, foram divididas em regiões, estados cidades e municípios.

Comparando este ente a uma empresa, fica mais fácil de entender a real natureza do problema. Vamos pegar a Coca-Cola, que possui um futuramente que bate o PIB de muitos Estados pelo mundo. Quando a Coca-Cola resolve agir sobre um determinado problema, qual é o foco dela? O cliente. Tudo bem, mas, teoricamente, qual é o carro chefe deste cliente? O refrigerante de cola. A partir desta pequeníssima análise de mercado, percebe-se que a demanda principal dos clientes de Coca-Cola é o refrigerante. Logo, qualquer problema de insatisfação com a empresa será focado, principalmente, neste produto.

Passado este pequeníssimo exemplo de uma grande marca, qual é o cliente do Estado? Quem é ou deveria ser o maior beneficiado do Estado? Existe algum tipo de cliente específico? Não! Todos nós somos os clientes. Todos os cidadãos merecem ser atendidos. Todos os cidadãos merecem ter seus direitos básicos atendidos. Todos deveríamos ser beneficiados. A questão é, somos mesmo todos atendidos? Temos todas as nossas demandas resolvidas? A propósito, possuem todas as pessoas o mesmo direito, a mesma renda ou as mesmas oportunidades? Concede o Estado esta vida plena e bela que nos oferece? Deixo você mesmo pensar na resposta.

Com a tentativa de se chegar a este consenso comum, diversas teorias políticas surgiram na prática. Dentre elas o comunismo, o fascismo, o socialismo, a monarquia, a ditadura, o conservadorismo, o liberalismo,etc. E, embora algumas delas tentam afirmar que diminuem o Estado, poucas ou nenhuma, de fato, fez isso até hoje.


No momento em que um grupo que se diz liberal econômico empodera uma classe de pessoas proveitando-se dos mecanismos estatais, a minimização do Estado já deixou de existir e se torna uma realidade distante. Assim que um Estado entra em guerra com os demais, a ideia de ser mínimo se torna também distante pois é necessário que ele se torne cada vez mais forte militarmente para defendera si mesmo e atacar os demais. Desta forma, se percebe que fortalecer o Estado não é senão uma ideia que entra em contradição com a questão da eficiência. Se assim o é, por que, cada vez mais, as pessoas cobram um Estado eficiente e representativo? Não seria uma contradição?

O argumento trazido por aqueles que defendem tal situação, tem a ver com o fato de que a divisão de rendas não é igualitária e que, por isso, o Estado deveria agir na tentativa de minimizar esta realidade. Mas, pensando bem, voltando a Platão, como seria possível isto tendo em vista que os que estão no poder representam o poder daqueles que são da "elite"? Como fazer isso se eles defendem os interesses daquele grupo? Não seria melhor então fazer com que os mais pobres pudessem participar deste debate e pudessem também escolher o que seria melhor para eles? E aqui entramos em um ciclo sem fim do que seria melhor para cada um.

Pensando neste problema, Platão indicou um regime no qual um grande sábio governasse a sociedade. Este se torna também uma utopia, porque, por fim, este sábio não teria os mesmos poderes dos quais falei no começo deste artigo. Já Aristóteles, aluno de Platão, propõe um regime conhecido como "Politéia", no qual o povo seria o seu próprio "guia". Mas, afinal, sabe o povo o que é melhor para o próprio povo? Pode, por exemplo, um consumidor exclusivo de motos saber o que é melhor para um consumidor exclusivo de carros? Ou um heterossexual saber o que é melhor para um homossexual? Ou um Estado saber o que é melhor para você ou outros Estados? A resposta, novamente, é não, não há como.

E assim, ao longo da história, se convencionou que apoderar este ente, seja dando privilégios a uma elite comercial, militar, monarca, republicana, empresarial, civil ou, até mesmo, trabalhadora, seria o mais convencional e prático para tentar resolver os problemas. Poucos pensaram ou pensam na real natureza ineficiente e imprecisa do Estado, já que este, como um ser sobrenatural e acima de todos, teria, teoricamente, o poder de afastar todos os maus e trazer todos os bens para a sociedade.

O Estado, por natureza, beneficiará a uma elite ou um grupo. Pode assumir qualquer grupo ou pessoa que, mais cedo ou mais tarde, uma elite se beneficiará - por mais que traga resultados, como hoje é o caso da China. Para isso, existem dois caminhos, no qual um deles é empoderar o Estado de tal maneira que as suas decisões não possam ser questionadas de maneira alguma, e ai teremos Estados como a China, que priva a liberdade de seus cidadãos em detrimento a um desenvolvimento ou aos Estados Unidos, que promovem uma liberdade relativa aos seus cidadãos, mas privam ou limitam muitos outros ao redor do mundo. De um lado temos uma elite que se fortalece com a mão de ferro dentro do seu Estado e, do outro, que se fortalece fora de seu Estado.


Seja qual for o lado, para dentro ou para fora, se seremos governados por um sábio ou por um grupo, se teremos democracia direta ou uma ditadura sem limites, algo é certo.Quanto mais se apodera este ente divino chamado Estado, menos eficiência temos na vida e mais um grupo se declara defensor disso ou daquilo para defender os seus interesses. Na tentativa de se solucionar e remediar este problema, somente a diminuição do Estado ao ponto de que ele não interfira na decisão de pequenos grupos e indivíduos, de forma que o Estado não tenha forças para apoderar um ou outro grupo, só assim alcançarem os as nossas maiores demandas, que é um mundo de paz, desenvolvimento e justiça. Mas a solução, não deixo para que eu desenvolva, mas cada um que tenha a capacidade de saber o que é melhor para si e para o seu próximo.