sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A questão da natureza humana e o conflito entre Israel e Palestina



É muito comum ouvirmos alguém perguntar o porquê de tanta maldade no mundo. Porém, iniciarei este artigo com uma retórica diferente. Por que existem tantas pessoas que fazem o bem neste mundo? O que leva tantos muçulmanos diante de um mundo no qual acredita que em sua maioria eles são extremistas (o que não é verdade) a realizar obras de caridade e ajudar o próximo? Como pode uma pessoa ajudar outro ser estando em um território em que acontece a guerra, fome e morte? Como podem tantos judeus ou maçons, que são tidos por muitos como o mal do mundo e a hegemonia do poder bancário e financeiro, doarem milhões de dólares todos os anos para a caridade? Mais ainda, como pode você, diante de um mundo em que as notícias mostram pais matando filhos, irmãos e amigos se traindo, brigas de transito levando a mortes, bandidos assaltando a todo o momento e, ainda assim, querer se tornar alguém melhor ajudando o próximo e a si mesmo?

A questão da natureza humana é bastante profunda. Em se tratando deste assunto você verá opiniões bastante embasadas e diferentes uma das outras. Eu vou apresentar a minha opinião e percepção sobre ela dialogando com o pouco que tenho aprendido nos últimos anos de estudos pessoais e faculdade.

A natureza humana sempre foi alvo da análise de grandes pensadores. Isso pode ser observado desde Sócrates e Platão até os homens da ciência nos dias atuais debatendo sobre ela através das influências biológicas e cosmológicas. E neste ponto de embate, há sempre os que são extremamente idealistas, ao ponto de acreditar que ela é muito boa e também, extremamente “realista”, ao ponto de acharem que ela é completamente má. Neste quesito, discordo de ambas as opiniões e fico com as ciências biológicas, na qual realçam a natureza animal do ser humano e seus instintos (não sendo eles bons ou ruins); ainda assim, esta ciência não é suficiente para explicar em profundidade a essência humana de existir e, principalmente, querer fazer o bem.

Nos conflitos internacionais, é rotineira a análise do contexto que envolve o tradicional problema. Neste caso, há milhares de especialistas em tudo o que se possa imaginar, trazendo a tona toda a causa e efeito do que se passa. Porém, mesmo que o contexto seja levado em consideração, dificilmente a abordagem sobre a natureza humana será levantada em um debate. Tudo isto ocorre porque ao se analisar um contexto amplo, como, por exemplo, o conflito Palestina x Israel, será considerado todo o interesse econômico, financeiro, armamentício, militar, histórico, geográfico e geopolítico por trás do conflito e não o que está por trás destes motivos. E embora muitas dessas análises sejam todas muito bem fundamentadas, elas costumam se garantir somente em suas análises e informações ignorando o outro lado. Tudo isso leva a um grande conflito de ideias no qual a disputa principal se torna a de “quem está correto” e o debate, por fim, acaba se tornando aquele no qual o mais dramático ou o mais fundamentado argumentativamente (naquele momento), ganha.

Passado este parágrafo de reflexão, o que diriam os grandes contribuidores do pensamento político do mundo? Bom, a maioria deles abordou, mesmo que de forma singela – ou não – a questão da natureza humana. E assim fez Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Thomas Hobbes, John Locke, Rousseau, Maquiavel, Kant e outros. Todos eles, de sua maneira, abordaram a questão da natureza humana e com isso desenvolveram suas teorias sobre a Política, o Homem, a disputa de poder e o mundo. Um exemplo rápido disso é que a compreensão do pensamento dos autores realistas em Relações Internacionais, a qual é acompanhada pela crença na disputa de poder entre os Estados, da maldade na natureza humana e da vida antes do Estado (estado de natureza), vinda do autor Thomas Hobbes. Assim como para o materialismo e capitalismo, John Locke foi um grande produtor de teorias que justificassem a atitudes do sistema tendo em vista a criação divina do homem e sua posterior “rebelião”.

Seja qual for a teoria, percebe-se que antes que chegássemos a toda esta complexidade que existe hoje de teorias tentando justificar, compreender e culpar os acontecimentos no mundo, o homem foi objeto de análise em algum momento, mesmo que tenha sido no princípio destas.

Precisei falar um pouco dessas questões para abordar o que penso sobre o tema. Acredito que na formação dessas teorias sobre o homem não havia a ajuda de um setor que hoje está muito mais avançado – o científico. Ainda assim, mesmo com este avanço científico e que pode identificar a origem da natureza humana, ele não é suficiente para identificar a essência humana ou a razão do viver, o que simplesmente dá o fôlego de vida, responde as questões mais transcendentais e faz com que o ser humano faça o bem e queira o progresso. E isto está, justamente, relacionado ao espírito humano e não as respostas científicas (embora os mais materialistas vão encontrar respostas para tal, utilizando-se da genética, psicologia ou outras fontes).

O ser humano possui uma natureza animal devido a sua evolução biológica ao longo dos milhões de anos de adaptação. Mesmo assim, somos a única espécie no planeta dotada de razão, poder de escolha e capacidade de adaptar os meios para nós, ao invés de somente nos adaptarmos ao meio – como os animais. Esta capacidade do ser humano o torna único na face da terra, levando-nos até a civilização em que temos em nossos dias atuais. No entanto, embora tenhamos a capacidade de refletir sobre o que fazemos e tomarmos escolhas sobre nossas atitudes, é a natureza animal que continua prevalecendo em nós ao invés da espiritual.

O avanço científico nos permitiu e permite vislumbrar tudo o que podemos construir e o que queremos ser, mas, ao mesmo tempo, não permite uma revolução interna no ser humano. Quando um conflito é analisado tal como o de Israel e Palestina, muitos culpados são procurados, desde o Hamas até Israel. Com isso, alguns aproveitam o momento para culpar o capitalismo, assim como o sistema financeiro internacional, os americanos, a ONU, os judeus, o Hamas, etc. Em todo este contexto, é analisada a realidade histórica da região, o crescimento demográfico, o desenvolvimento econômico e até mesmo as religiões ali presentes, no entanto, fica esquecido completamente quem é o responsável por construir tudo isto, desde o sistema econômico até a realidade histórica – o próprio ser humano.

Neste sentido, aparecem cada vez mais culpados e tudo se acumula. Primeiro, porque nem todo o conhecimento do mundo pode ser absorvido. Isto significa que, nem tudo o que um analista estudou será o que o outro analista estudou; afinal, eles não vivem juntos em uma mesma mentalidade e pesquisa. Por fim, a briga entre dois analistas torna-se uma disputa de quem convence melhor e de quem argumenta mais, mas não o de encontrar uma solução efetiva para o caso. E assim, a realidade daquele que é responsável por aquilo – todos nós –, é cada vez mais deixada de lado.

O ser humano, na tentativa de compreender a sua real natureza, conseguiu fazê-la através das Ciências, porém não soube o que fazer com essas informações que vem descobrindo. Ele conseguiu entender as nuances da sua formação material e, inclusive, entender algumas de suas emoções, como o faz a psicologia. Construiu diferentes áreas do saber, tornou complexa a relação entre os seres, expandiu a tecnologia, mas, muitas vezes se esquece dele mesmo – da sua própria capacidade de transformação e adaptação perante a realidade.

Com isso eu retorno a pergunta que fiz no início deste texto: como pode alguém fazer o bem no meio de toda esta confusão? Como podem existir tantas pessoas boas no mundo? (elas são maioria, por mais que não ache) O que leva um ser humano a realizar um bem no meio a tanto mal? E nisto entramos na questão do bem e mal e da espiritualidade humana.

Não se tratando aqui de qualquer religião que seja, mas levando-se em consideração todas elas, somente o investimento no espírito humano – seu caráter, sua moral e sua identidade – pode mudar a realidade de Israel, Palestina e qualquer outro conflito no mundo. Por mais que medidas importantes como a criação do Estado da Palestina, a retirada dos embargos por Israel, a retirada de todo armamento do Hamas da região da Faixa de Gaza e, utopicamente, até mesmo uma união entre os povos palestinos e israelenses, ainda assim, não seria o suficiente para trazer uma completa paz.

Por exemplo, você saberia me dizer como se encontra a situação da Alemanha recentemente? Bem, não é? Agora, pode se lembrar do que ela fez há, aproximadamente, 70 anos atrás com os judeus, ciganos, maçons, negros, etc? E qual o motivo de ainda existirem neonazistas no mundo? Será que o que ela fez não foi suficiente para mostrar o mundo o mal que o nazismo fez e é? Será que o que Hitler fez não foi trágico o suficiente para revelar ao mundo o mal que podemos fazer odiando o próximo? Pois então. Todas essas perguntas foram utilizadas para mostrar que uma resolução no campo material não resolve uma questão no campo interior do ser humano – no aspecto da moral, do caráter e da evolução espiritual. A Alemanha é hoje um país exemplar para o mundo, a começar pelo comportamento dos jogadores alemães na Copa do Mundo. Ela alcançou um avanço e autonomia que poucos países europeus possuem, e mesmo assim, muitos neonazistas buscam na história trágica dela – nazismo – a resposta para os problemas da humanidade.

Assim, o ser humano segue buscando, cada vez mais, culpados para o que ocorre aqui ou ali. Não estou dizendo para deixar de buscar os culpados, informações, contextos ou motivos, mas que simplesmente reflita sobre onde está a culpa, de fato.

E quando me refiro a espiritualidade, não falo sobre a busca de uma religião em si, tenho um amigo que é ateu e é uma das pessoas mais espirituais que conheço. A forma como ele trata os seres humanos, com amor, carinho e compaixão, faz dele muito mais espiritual do que qualquer judeu (ganancioso), muçulmano (radical) ou evangélico (hipócrita). Eu mesmo posso me revelar como cheio de falhas e imperfeições na qual minha natureza prevalece em muitas situações e este meu amigo se revela muito mais espiritual que eu – mesmo eu acreditando em Deus e ele não. Não são poucos os momentos em que tomo uma atitude e percebo que não era somente a minha vontade, mas o desejo de satisfação dos meus instintos que estavam por trás de alguma das minhas atitudes.

Assim como eu, a humanidade continua ainda com seus instintos básicos do reino animal quando toma muitas de suas atitudes, e é exatamente a luta contra esta natureza que fazem tantas pessoas realizarem o bem. A natureza animal é totalmente instintiva. Em nosso processo de evolução, o importante era garantir a nossa sobrevivência, a sobrevivência do grupo e a transmissão dos genes. Para isto, características como a força, o vigor, o poder, a destruição, a rapidez, a destreza e a sagacidade, eram atributos muito mais importantes para manter-se vivo, ser o líder do grupo, defender o grupo e matar as ameaças do que a compreensão, o entendimento, o acordo ou a diplomacia.

Neste processo de evolução humana, fazer o bem nada mais era do que uma necessidade de salvar o grupo ou um instinto materno/paterno com relação a prole. Junto com esta raça humana, o que interessava era a sobrevivência da espécie e sua reprodução, passando por tudo e por todos que fossem necessários. Ainda assim, ao longo da evolução humana, encontraremos pessoas como Sócrates, que deram a vida para divulgar a verdade. Buda, que abandonou a riqueza para viver com os pobres e atingir o nirvana. Jesus Cristo, que na sua humildade, ensinou um novo modo de se viver ao ser humano, quebrando a antiga lei judaica de “olho por olho e dente por dente”. Mahatma Gandhi, que venceu o poder da Inglaterra com humildade e sem pegar em armas. E você, que, vez ou outra, se pega dando uma moeda ou ajudando um desconhecido. Eu lhe pergunto, que tem isso a ver com a natureza humana?

A natureza humana se fez necessária para nos mantermos como espécie e chegarmos até o patamar de evolução que atingimos recentemente. Mas, esta mesma natureza, pode ser responsável pela nossa extinção nos próximos anos. O que todos esses Mestres, acreditando você em religião ou não, vieram nos ensinar foi que nós não necessitamos nos curvar a nossa natureza para VIVER. O próprio Maomé pregou contra a natureza da população árabe de seu tempo em adorar muitos deuses. Por mais que seja difícil demais, e eu reconheço essa dificuldade, somente superando a natureza do ser humano é que podemos nos tornar um mundo melhor. Com ela veio o nosso egoísmo (capacidade de manter o alimento para sobrevivermos), a inveja (capacidade de construir condições melhores para nós), o orgulho (capacidade de acreditarmos em nós mesmo e assim nos mantermos vivos e seguir em frente) e muitos outros atributos que fizeram nos chegar até aqui e que nos serviram muito bem em nossa evolução, mas que, neste momento estão nos destruindo.

Quando você para e analisa um conflito como o de Israel e Palestina, encontra muitos elementos ali presentes. Dentre eles encontrará uma explicação religiosa, que lhe mostrará desde a Bíblia, em Genesis, no qual alguns teólogos definem como o começo da divisão entre árabes e judeus. E para os que não sabem, esta é a mesma história que encontra-se na Torah (livro dos judeus) e, acredito eu, deve haver algum elemento neste sentido no Alcorão.

Além desta análise religiosa, você encontrará também uma análise geopolítica e econômica. Neste tipo de análise, as pessoas irão se concentrar na questão de que o Estado de Israel foi criado com o intuito de manter o domínio Ocidental – e ai você encontrará de tudo –, na região do Oriente Médio. Aqui você encontrará, inclusive, Teorias da Conspiração de que o Estado de Israel foi criado em conluio com o governo inglês e de que tudo era uma intenção de privilegiar o controle dos ocidentais as jazidas de petróleo e, também, impedir a expansão do antigo Bloco Soviético.

Além destas duas, há também uma análise mais sociológica e histórica. O mais influente dela é o autor Edward Said, que fundamentará os seus conhecimentos na ideia de que a questão oriental vem sendo uma construção europeia desde os tempos remotos a Idade Média. Além disso, nesta teoria é destrinchada também a concepção de que a expansão do Estado de Israel, somado aos constantes desentendimentos entre os vizinhos e ao apoio dos grandes países ocidentais, torna Israel um Estado muito superior em todos os sentidos ao que seria o Estado Palestino. Com isso, justifica o crescimento dos movimentos radicais e a forma como eles combatem o Estado de Israel. Aqui também é considerado a forma como Israel trata a Faixa de Gaza de sua forma histórica. Eles consideram que o tratamento dado por Israel ao local é desumano e que justificaria também o levante dos movimentos fundamentalistas como o Hamas.

Existem também outras teorias que abordam esta questão, mas por mais que eu tenha sido superficial e somente tenha demonstrado uma pequena parte delas a vocês, nenhuma delas considera a questão que abordei acima.

Sendo a natureza humana algo intrínseco a todos nós, todas essas questões englobam dentro deste tema. É natural dos povos árabes e judeus – assim como de qualquer povo – defenderem o que são seus, justamente por isto fazer parte de nossa natureza. No entanto, esta natureza que tanto nos ajudou, hoje prejudica que os palestinos, israelenses e o mundo possa admitir que a terra estava ali antes deles mesmos nascerem ou seus povos terem surgido. O orgulho que os ajudou a manter a religião e os seus alicerces espirituais ao longo dos séculos, e que também fazem muitos judeus, cristãos e muçulmanos realizarem a caridade pelo mundo, é o mesmo que hoje os impede de admitir que o que a religião deles os revelou no passado, valeu para aquele momento e hoje o mundo mudou em muitos sentidos. O egoísmo que fez aquela terra ser parte de árabes e judeus até os dias de hoje, também não os permite compartilha-la por igual entre si, pois cada um de seu “Deus” a conclamou para si. Por fim, a inveja prevalece entre os dois povos, no qual nenhum dos dois aceita que o outro tenha parte da terra.

Portanto, para finalizar, você verá muitas análises diferentes sobre o que acontece naquela região. Mas somente a capacidade de mudança interior dos homens poderá alterar, de fato, o que ocorre ali. Os judeus e palestinos, com essas três características anteriores, jamais sairão de lá. E se um deles for expulso ou perderem terreno para o outro, eles voltarão em um futuro para retomar a terra, ocorrendo um ciclo eterno de disputas e conflitos. Somente a aceitabilidade de que possuímos uma natureza espiritual em comum, de que possuímos os mesmos direitos e que somente a união, fraternidade e amor podem evoluir o homem, é que eles conseguirão mudar a face daquela região. E tenha certeza, o dia que eles conseguirem isso, todos nós conseguiremos.

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